O COLETIVO ZINE É UMA AÇÃO CONJUNTA. A PROPOSTA É REUNIR DIVERSOS FANZINEIROS OU CRIADORES INDEPENDENTES E PRODUZIR UM TRABALHO COLETIVO. CADA PARTICIPANTE CONTRIBUI DA FORMA COMO PUDER, SEJA NA CRIAÇÃO, MONTAGEM, EDIÇÃO, ADMINISTRAÇÃO, DIVULGAÇÃO, DISTRIBUIÇÃO. O IMPORTANTE É SOMAR ESFORÇOS. E ASSIM MULTIPLICAR A DIVULGAÇÃO DO TRABALHO DE CADA AUTOR E DIVIDIR O TRABALHO. SE DER CERTO,CONSEGUIREMOS CHEGAR A NOVOS LEITORES QUE JAMAIS CONHECERIAM NOSSO MATERIAL SE O PROMOVÊSSEMOS ISOLADAMENTE. E NA PIOR DAS HIPÓTESES, AO MENOS TEREMOS UMA DESCULPA PARA INSANAS FESTAS DE CONFRATERNIZAÇÃO E LANÇAMENTO DE ZINES. ENTÃO, MÃOS À OBRA. MISTURE-SE.

domingo, 14 de maio de 2017

DEVANEIOS DO PROFETA


Por: Nihildamus
   ...e haverá muita opressão contra os mais pobres, de tal forma e tamanha rigidez, que os explorados se levantarão contra os poderosos. Os lobos de gravata, então, se prevalecerão, através de leis instituídas para massacrar os mais fracos...            
  
Extermínios em massa, através da fome, desemprego, violência e fatalidade. Os chacais de Hugo Boss só cessarão suas práticas genocidas, quando não restar um marmiteiro de pé.                                                                                                             
Somente, quando chegar o dia em que o sol nascer novamente, os perversos perceberão que a sede de poder e controle, cortara seus próprios pés e braços, tornando-os fracos por estarem imóveis...

A REVOLTA DAS PALAVRAS

Por: Alexandre Mendes

- Quem foi que colocou uma interrogação no final dessa frase?
-Foi o mesmo canalha que botou uma exclamação no final dessa aqui.
TUMULTO e HISTERIA
MARTELO BATENDO
-Silêncio! Senhores substantivos, adjetivos, senhoras preposições e palavrões. Quem nos enfraquece são as vírgulas que estão entre nós!
- Nós? Balela! O culpado disso tudo é o cara que escreveu esse texto!
                                                      -É! Então vamos bagunçar o nome dele!
TUMULTO e CORRERIA
- É isso mesmo!
MINUTOS DEPOIS:
Ladrenxae Semned: Opr
- Palavras sacanas! Eu mereço! HEHEHHEHE...

Cocôtidiano

Por: Alexandre Mendes


Posso engraxar teu sapato?
Limpar seu jardim?
Sangue bom, me arruma um cigarro?
Me descola um real?
Paga um salgadinho?

Moço, mata minha fome?
Posso tomar um golinho?
Um copinho?
Botar na sua conta?

Uma semana, sem comer!
Já é, parceiro!
Deus lhe pague
Muito obrigado

FLOCTOT

Por: Alexandre Mendes


O vazio dos corpos
oculto atrás da porta
pura natureza eterna
da puta santidade morta

A fantasia do que chamam de real
transformada em reflexão
refletida como normal
nos traz a suposição

que o belo pode ser feio
e o infinito, ter fim
máscaras de cobre e ferro
rostos diabólicos, no jardim

Espectro poesia da madrugada
A lua distancia-se de mim
Alvorecendo a desgraçada
dor de cabeça no fim

AO PATRÃO, COM CARINHO

Por: Alexandre Mendes

Como vai, velho canalha!
Por muitos anos, dia após dia,
enchi teu bolso de alegria
na minha carteira, quase nada
suor pingando; garganta seca
trabalhei duro; sol escaldante
e você lá no restaurante,
tacinha de uísque sobre a mesa

Como vai, velho safado!
Por muitos dias, ano após ano,
me usou bastante e deu o cano
Lamentei desamparado
mão com bolha a calejar,
pé descalço e rachado
e você lá no Corcovado
com sua prole a passear

Como vai, seu velho fútil!
Depois de anos e alguns dias
me sugando as energias
transformou-me em um inútil

quando pensei em parar,
vi que não contribuía,
negada aposentadoria
continuou a me explorar

Como vai, velho imundo!
Vai como, velho picareta!
Espero um dia te encontrar sentado
no colo em brasas do capeta!

CARTÃO CIDADÃO

Por: Alexandre Mendes


O mesmo despertador tocando
O mesmo uniforme
O mesmo ônibus
O mesmo cobrador
O "bom dia" no mesmo tom
As mesmas caras
Clientes de sempre
com as mesmas falas de ontem

Pensamentos sombrios
e libertadores
pairam na mente do ser
o mais estranho
são sempre os mesmos
dia após dia

- Saia da casca, sujeitinho!
Faça o que tu queres
A liberdade é um segredo
guardado a sete chaves
pelos manipuladores
A casca que te envolve;
a coleira que te puseram,
um belo dia,
lhe trará a loucura

Fuja...fuja
o mais rápido que puder
antes que o dia
se torne noite
e não consigas mais
encontrar a saída...

Suba logo nessa cadeira
e pule, rumo a liberdade
não pense duas vezes
e descanse de todo o mau
que te cerca, nesse momento

Depoimento de A.M. quando conversamos pela primeira vez sobre o Coletivo (em 2011)

ONTEM NA CANTAREIRA

Por: Alexandre Mendes

Foi muito legal, a reunião desreunida que promovemos no pé do índio Araribóia, nas Barcas de Niterói. Tive a oportunidade de reencontrar meus velhos parceiros de trabalho, Winter Bastos e Fabio Barbosa. O artista mineiro, Wagner Teixeira, também compareceu e pude, finalmente, conhecê-lo pessoalmente. Bebemos, trocamos idéias, rimos e nos divertimos. Ganhei presente de natal atrasado (Valeu, Ronald!) Confabulamos sobre a possibilidade de produzirmos um novo trabalho em conjunto. Quadrinhos, poesias, contos, entrevistas etc.

Fiquem espertos, meus caros leitores. Algo novo deverá surgir no horizonte, a qualquer momento!

Obs: Só faltou o meu amigo,
 Diego El Khouri, estar presente no evento.

O TROCO DA GORJETA


Por: Alexandre Mendes

  - Ô, Francisco! Me serve um chopp, aqui! – Gritou o cliente da mesa dez.
  Assinval correu até a serpentina, com a taça na mão. Já conhecia aquele cliente e sabia que o cara era “carne de pescoço”.
  - Ô mestre! Tá aqui, bem geladinho! - Disse o pobre garçom, servindo a bebida. O sorriso era forçado.
  - Porra, Severino! Já te falei que eu gosto de colarinho! – O pessoal da mesa ao lado, ria da brincadeira.
  - Desculpe, patrão! Vou tirar outro chopp pro senhor.
   
Fazia dez meses, que Assinval havia chegado ao Rio de Janeiro. A lembrança de Mossoró vinha a tona, quando via a foto de Teteca, sua jovem e bela esposa. Ele a deixara a sua espera, com a promessa de voltar um dia, com dinheiro suficiente para montar seu próprio negócio. As cartas de Teteca eram freqüentes para Assinval. Como o rapaz já havia morado em três pensões diferentes, desde que chegara ao Rio, as cartas eram enderaçadas para o restaurante, onde ele trabalhava.

  Seu sorriso brilhava, quando o gerente dizia: “Xinval! Carta para você, aqui, rapaz!”
  Assinval corria para ler as juras de amor da sua princesa do agreste, no banheiro.

- Ô, Ceariba! Cadê o bife que eu te pedi? – Era o cliente da mesa dez, atormentando a vida de Assinval, novamente.
 - Um momento, por favor. Vou lá na cozinha, dá um pito neles! – Disse Assinval, paciente como sempre. O cliente da mesa dez era o centro das atenções, quando começava de chacota com a cara do garçom.
 - Poxa, pessoal! Aquele cara; o da mesa dez, não é fácil, não! Cadê o bife dele?
 - Desculpe a demora, Assinval. Mas tem cliente na frente.
De repente, entra o gerente na cozinha:
 - Xinvaldo! Tô te procurando, um tempão! Carta pra você, meu filho!

Assinval se esqueceu do chato da mesa dez e correu pro banheiro. Mais uma cartinha dela, sua amada, Teteca.

   “Assinval, meu esposo amado.

    Não sei como te dizer. Tenho muita saudade de você. Dez meses que não te vejo. Pra matar saudade, só em foto. Pois é. Pra dormir, só agarrada a uma foto sua. Acontece que, uma noite dessas, coloquei a sua foto no meio das minhas pernas, desejando você aqui. Não sei explicar. Sonhei com você, aquela noite. No sonho, fazíamos nheco-nheco. Agora, meu amor, acho que você não vai acreditar. Senta, que lá vem a bomba.
Você me engravidou, através do sonho ou da foto no meio das minhas pernas. Sei lá. A única coisa que posso te afirmar é que estou grávida de seis meses. Parabéns, papai.

                                                                                                    Te amo muito.
                                                                                                            Teteca.”

   Assinval ficou atônito com a notícia. “Grávida em sonho? Essa rapariga pensa que sou algum otário?” Começou a socar a parede de raiva. “Vadia! Eu mato ela!” – Sofria sem dar uma palavra.

BATIDAS NA PORTA DO BANHEIRO: - Xivaldo! Abre aí! O bife com fritas da mesa dez!
O rapaz abriu a porta. Prendia o choro e o desânimo de viver. Foi até a cozinha e pegou o bife com fritas, na bandeja. Olhou pela escotilha da porta: o cliente pentelho retrucava com o casal da mesa nove, provavelmente, falava mal do rapaz.

   Assinval, discretamente, entrou com a travessa de comida no banheiro dos funcionários e trancou a porta. Descansou a bandeja, em cima do tampo da privada. Sacou o pênis para fora e começou a imaginar Teteca nua, entregue aos seus beijos e carícias, na sua cama de madeira, recém comprada, lá, em Mossoró.
“Toma...ai...ai...Agora faço um filho em você!” Assinval despejara todos os seus herdeiros sobre o bife do bundão da mesa dez. “UUUUUUIIIII!!!!!”

Já, lá fora: - Porra, Genivaldo!!! Caralho!! Que demora!
- Desculpa, chefe! Tá aqui, o bife com fritas do senhor. – Assinval fazia cara de babaca; aquela que já estava acostumado a fazer.
- Ué. Eu não pedi molho branco! Ah! Vou comer assim mesmo!
 O cliente degustou o bife, sem respirar: estava morrendo de fome.
Como era de costume, Assinval recebeu, junto a comanda, a gorjetinha simbólica de cinqüenta centavos. – Vai juntando! Um dia paga a passagem de volta, no pau de arara.
Assinval sorriu e pensou: “AAAAAAAAAAA!!!! MUITO OBRIGADO, TETECA!!

PESTINO

Por: Alexandre Mendes



Ele odeia o que faz
entretanto
nisso, manda muito bem
vincula
bom dia e obrigado
desvincula
e amém

Carrinho de brinquedo
 pequenino
tentando virar trem
vincula
bom dia e obrigado
desvincula
e amém

Canudinho de coca cola
bem fininho
querendo ser tubo de cem
vincula
bom dia e obrigado
desvincula
e amém

Cidadão desconhecido
uma sombra
querendo se tornar alguém
vincula
bom dia e obrigado
desvincula
e amém

Apagando o seu passado
põe negrito
o que ainda vem
vincula
bom dia e obrigado
desvincula
e amém

Lutando sempre contra
o *pestino
procura ir pra mais além
vincula
bom dia e obrigado
desvincula
e até amanhã

Cotidiano


SEU MANEL - uma homenagem ao próprio

Por: Alexandre Mendes
























Já bem de noitinha                    abaixam a mira                   Tiana lhe espera
subiu a ladeira                          prossegue tranquilo             caixote o portão
passou pela vala                       lhe chamam coroa               na boca estalinho
ponte de madeira                     mais velho antigo                 kisuco e macarrão
paredes de tábua                     lá é o terror                          se deitam alegres
e arame farpado                      ou então paraíso                  pois já é domingo
cachorros latindo                     a pólvora manda                  de folga escala
olhar cabisbaixo                      obedece o juízo                     três horas
moleques de toca                     lá falta concreto                    o Bingo
lhe avistam do beco                 esgoto e dente
pra alguns alegria                    embosso lajota
pr'outros desespero                 prossegue contente

SANTO DIAS


Por Alexandre Mendes

Santo Dias da Silva, operário paulista, foi um dos grandes exemplos na luta pelos direitos dos metalúrgicos, durante a ditadura militar. Nascido em Terra Roxa, no interior de São Paulo, em 22 de fevereiro de 1942. Trabalhava na roça de café, com seu pai e irmãos, como meeiro. 
A partir de 1960, Santo e outros trabalhadores da Fazenda Guanabara mobilizaram-se contra a forma de participação nos lucros da colheita (obtinham o alimento no armazém fiado durante o decorrer do ano e recebiam pouco dinheiro, após descontos). O dono da fazenda dispensou sua família e as demais que participaram do movimento.
 Mudou-se para Viradouro e passou a trabalhar com sua família como bóia-fria. Tentou lutar por condições melhores no novo ofício e foi novamente dispensado. 
Em outubro de 1962, deixou sua família e foi tentar a sorte na capital. Conseguiu um emprego de ajudante geral na Metal Leve, empresa de componentes metalúrgicos. Participou de sua primeira greve por aumento salarial e instituição do 13º. Aquele ambiente politizado (metalúrgicos) mudou seu destino... 
Casou-se em 1965, ano em que nasceu seu primeiro filho. Em 1967, participou da formação da Oposição Sindical, que consistia na idéia de um comando gerado dentro de cada fábrica. O movimento contava com a participação de católicos, marxistas e operários independentes. Ainda nesse ano, nasce sua filha.
    A sucessão de greves e passeatas ocorridas no ano de 1968, resultaram no endurecimento da ditadura e a institução do AI-5. A Oposição Sindical lança a chapa verde, concorrendo às eleições do Sindicato, mas perde, devido às propostas populistas da chapa situacionista. As greves se alastram por São Paulo e Minas Gerais e a polícia recrudesce e ocupa os locais. Santo Dias, além de estar envolvido com a oposição do Sindicato dos Metalúrgicos, torna-se líder comunitário onde residiu na época (Jardim Margarida). Lembra a esposa dele, Ana Maria do Carmo Dias: " Nessa época, a repressão era tanta que a gente ia comprar pão na padaria juntos, eu e o Santo, com medo de ser presos se fôssemos sozinhos". 
Em 1972, Santo foi trabalhar na Burndy do Brasil, onde organizou a comissão de fábrica, mas foi demitido. A Oposição Sindical Metalúrgica criou o grupo chamado Interfábricas. Santo Dias teve uma significativa participação no projeto. Passava madrugadas panfletando em portas de fábricas, com sua mulher e ajudava os moradores da sua comunidade. 
Em 1973, intensificam o número de greves. Santo volta a trabalhar na Metal Leve. A Oposição é atingida pela prisão de cinquenta militantes em 1975, anulando a possibilidade de concorrer às eleições do ano. Entretanto, sob o lema "Trabalhar dentro da fábrica", promoveram ações nas comunidades, com a reivindicação de escolas, creches, água, luz, regularização dos loteamentos clandestinos e contra o alto custo de vida. Criaram fundos de greves, prestando ajuda aos que perdiam o emprego. 
Em julho de 1978, a Oposição concorre às eleições com Santo para vice. Em 1978, perde o emprego na Metal Leve, estratégia dos situacionistas, a fim de impedir sua candidatura. Consegue às pressas um emprego na Alfa Brás. As eleições acontecem, mas a chapa situacionista vence, por meio de fraude: " ...via-se claramente que a urna e os votos tinham sido trocados. Uma pessoa só fez o x nas cédulas." Tentaram três mandados de segurança contra a posse irregular e perderam. Santo Dias é demitido da Alfa Brás em 1979. A repressão intensifica e Santo assume o comando das greves, como um de seus integrantes. Decidiu ajudar em um piquete à frente da Fábrica Sylvania, em 30 de outubro de 1979. Com a prisão de um dos grevistas, Santo pediu que o soltassem, mas foi negado seu pedido. Conformado, deu às costas para a polícia. O policial militar Herculano Leonel, sem motivo aparente, apontou sua arma para Santo Dias e lhe deu um tiro nas costas. Os soldados  jogaram seu corpo no camburão e o levaram para o Pronto-Socorro, já sem vida. Parentes e amigos correram para lá, afim de evitar que seu corpo sumisse. Seu enterro foi concorrido, com discursos, inclusive o do sindicalista Lula.
   A partir daí, todos os anos, no dia 30 de outubro, às 14:00(horário de sua morte), pintam de vermelho, em frente à Fábrica Sylvania: 
"Em 30 de outubro de 1979, aqui foi assassinado pela PM o operário Santo Dias da Silva, defendendo os direitos da classe trabalhadora".
Depois caminham até seu túmulo, onde prestam homenagens.
Santo Dias era um homem inconformado com as mazelas do sistema e não deixou se dobrar.

AVANCE

Por: Alexandre Mendes



salário sem sal
há pouco o que fazer
parafuso
ou porca
escolha o seu caminho
nunca lhe dizem
que podes sozinho


ser uma peça
pedaço de um todo
engrenagens nem sempre
estão funcionando
pessoas nem sempre
sabem que estão
sendo tapeadas


agora jaz...
um mundo espelho
puro ping-pong
cigarros marlboro
Popeye, King Kong
atenção para a curva
seja esperto
 e não a faça

TRÊS POR UM


Por: Alexandre Mendes

  Abri meus olhos bem devagar. As vistas pareciam coladas, evidenciando uma boa noite de sono...Espera aí! Que cama é essa? Hum...macia! MACIA?Que cama é essa?
  Estava em um lindo e espaçoso quarto, preenchido por uma televisão gigante, tela fina: Um cinema! As paredes que conjugavam o cômodo eram repletas de livros. Levantei da cama e caminhei até uma das prateleiras: "Cem anos de solidão...Manual de medicina". Te juro, não acreditei. De repente, aprendi a ler!

- Juciney, acorda! - A voz vinha de outro cômodo da casa onde me encontrava. 
  Caminhei em direção ao apelo. Em uma sala gelada pelo ar condicionado, um senhor de bigode, terno e gravata, me fitava com uma chave na mão. 
 - Vai com a Pick up para a faculdade que, hoje, eu irei de Mitsubshi para o escritório.
"Pick up? Mitsubishi? Faculdade? Será que esse coroa é o meu pai? Puxa, eu nunca tinha visto ele!" Fixava-o, atônito. - Filho, você está bem? Margarida já botou o seu café.- Dizia ele.

  Sentei na poltrona macia e fechei meus olhos por um segundo. O homem que se passava por meu pai tocava em meu ombro, carinhosamente. - Filho...vai se atrasar para a aula! Filho...filho... - A voz foi mudando o tom lentamente. O toque em meu ombro tornou-se um sacudir grosseiro.
 - Filho...filho...Ô, FILHO DA PUTA! LEVANTA, PORRA! O almoço acabou!

  Abri os olhos de verdade e voltei para a minha realidade. Levantei do chão, forrado com papelão; Guardei o pote vazio (que improviso de marmita na mochila); forrei novamente a cabeça com o pano velho e carreguei os quatro sacos de cimento até o círculo de areia: A medida do concreto era de três por um.

DI PEDRA


Por: Alexandre Mendes

A rocha que bate em meu peito
foi lapidada por um sujeito
que um dia eu chamei de pai
brincou comigo, me levou pra passear
e se esqueceu de tudo isso
no meu primeiro barbear

nunca mais foi o mesmo
eu, de pé na estrada
e ele, de carrão
quase um filho bastardo
em pé no semáforo,
mariolas na mão

-Não sobrou nada,
caro estranho, nada,
nada pra você
vai virar concreto em obra
não reconheço o teu cheiro
tenho mais o que fazer!

Na minha rocha
não há mais espaço
nenhuma brecha
pra aquele que me gerou.

IRMÃOS METRALHA

Por: Alexandre Mendes


Eu encosto                   Eu esmiuço                  Eu acudo
Tu intimidas                  Tu divides                   Tu sangras
Ele rouba                     Ele discorda                 Ele foge
Nós corremos              Nós brigamos              Nós apanhamos
Vós chorais                  Vós  atirais                  Vós algemais
Eles socorrem               Eles deitam                  Eles aplaudem

Ao Filho da Exclusão

(Em homenagem a Diego El Khouri)

Por: Alexandre Mendes

Artista desconhecido
o presente, presenteia-o
com o fogo dos céus do Olimpo
trazido por Prometeu
Não te aborreças por Heitor
e a Tróia fragilizada
a peleja irá começar
desembainhe a sua espada



Será belo o dia
em que todos os seres 
e também os não seres
decifrem as tragédias 
que contam em seus dizeres
palavras de sabor trazido das vinícolas
Baco pelo palco a rolar
contemporânea atitude maldita
Sofrer por amor, jamais odiar


Filho...Tu és filho da Exclusão
chinelo remendado de arame
blusa rota de furo sovaco
unha nua na ponta da meia
estômago de infinito buraco


Exclua o filho...
pois deve-se respeito ao pai
Atenas um minuto de silêncio
amor a sabedoria 
e nada mais

Perdi o sono

Por: Alexandre Mendes


  Era exatamente três horas da tarde. Aguardava a chegada do ônibus no ponto, observando as nuvens que se formavam no céu. Meu corpo cansado, depois de uma manhã inteira de trabalho, bamboleava pedindo um belo almoço e uma cama. O local onde eu estava é considerado um centro comercial, margeado por favelas de todos os lados. Os transeuntes e clientes desse centro são na maioria, moradores dessas comunidades. Os trabalhadores locais que moram em outras regiões estão em menor número, mas quando somados a maioria que perambula pelos bares e lojas locais, naquele horário, fazem lembrar um formigueiro.
  De repente, a minha distração com as nuvens foi interrompida por uma cena inusitada que se desenrolava na minha frente e na de centenas de pessoas que transitavam por alí. Um jovem que se encontrava abraçado em um poste, com todas as suas forças, implorava pela sua vida. Enquanto isso, cerca de seis homens o surravam severamente, tentando levar o rapaz para outro lugar. Uma aglomeração de observadores se formou ao redor, mas, como a maioria daquele público já está acostumado com aquele tipo de situação, dentro de suas devidas comunidades, nada fizeram. Aliás, a multidão só parou para observar porque alí é o centro. Quando esse tipo de coisa acontece dentro da comunidade, o morador normalmente finge que não está vendo.
  A minha pressão sanguínea começou a ficar alta e fui impelido a acender um cigarro: Um dos homens achou um paralelepípedo perdido dentro de um canteiro próximo e começou a bater no rapaz com ele. Foram dezenas de pancadas com a pedra na cabeça, nuca, costelas etc. Parecia não adiantar de nada, pois a vítima, que já expelia sangue pela boca em abundância, ainda implorou por um bom tempo que não o matassem. Uma ideia maligna de seu carrasco pôs fim a questão: Uma pancada muito forte em seu pé descalço o enfraqueceu completamente, fazendo com que largasse o poste. Os homens enfiaram o rapaz em um carro e partiram na direção de uma das favelas próximas.
A essa altura, eu já tinha perdido o sono e acendido o segundo cigarro. Após o ocorrido, fui informado por um conhecido que passava, que a vítima foi acusada de "dar volta" nos outros, dentro da comunidade onde mora.

Sol e Lágrimas - Cap. I

Por: Alexandre Mendes



O sol ainda não tinha nem começado a nascer e lá estava Alcebíades, colocando as botas para o trabalho na lavoura. Sua esposa, Dona Adenaide, carinhosamente apelidada pela vizinhança de Nonó, preparava o café na cozinha para ele. - Saco vazio não fica em pé muito tempo, não! Come um pão com manteiga, antes de sair. Toma aqui sua marmita.
Alcebíades colocou o almoço na mochila. Levava algumas ferramentas em uma bolsa de pano, pois se as pusesse na mochila, poderia virar a marmita e o pobre do lavrador não comeria mais nada até chegar em casa, por volta das nove da noite. A viagem da roça de Seu Sebastião, onde ele trabalhava, até sua casa demorava duas horas a pé.  
Sua maloca, de teto de palha e paredes de barro e bambu, fora construída por ele e Nonó em meados de 1975, quando eles se casaram. Lembra ele, a alegria que foi quando terminaram de construir o casebre. Compraram uma garrafa de aguardente, do mais barato que tinha na barraca de Seu Jonas. Se embebedaram, logo depois que Alcebíades acendeu a lamparina. A esteira de palha ainda era a mesma da noite de núpcias. 
Quantas lembranças Alcebíades teve no percurso até a roça de Seu Sebastião, enquanto cortava atalho pelas picadas na mata, para chegar mais rápido. 
Duas horas depois e lá vinha ele entrando pelo portão de arame farpado da roça de milho em que trabalharia naquele dia. 
Seu Sebastião era um homem muito rico e poderoso na região de Iporangaba. Seus capangas eram muito cruéis e quem saía do ritmo do trabalho estava sempre passível de ser toturado ou morto.
- Bom dia, Seu Manoel. - Retrucou para o velho porteiro.
- Bom dia. - respondia ele. Aquela cena já se repetia há anos. 
O velho agricultor se dirigia até o barracão das ferramentas principais, para iniciar a execução do trabalho.


Enquanto isso, Nonó preparava um guisado de carne de porco do mato e sopa de milho. Sabia que aquele prato era o preferido de Alcebíades.


Foi um pouco antes das duas da tarde que Alcebíades abriu a marmita, sentado embaixo de um pé de camboatá. O sol não estava tão forte e só a sombra do milharal já fora o suficiente para o descanso de Alcebíades.


Não havia acabado de comer ainda, quando Olivença, um dos capatazes do seu senhor, ordenou que o acompanhasse até a casa da fazenda. - Velho, o patrão quer falar com você.- Alcebíades engoliu a seco, pois sabia que nenhum trabalhador, quando convocado a ir até a fazenda, voltava para contar estória.


Não percam o próximo capítulo. 

Sol e Lágrimas - Capítulo II


Por: Alexandre Mendes



O percurso do milharal a casa grande foi muito árduo para Alcebíades. Ele, um senhor de sessenta e dois anos, caminhando a passos largos pela estrada de terra: o capataz a cavalo, ele a pé. Sua botina fazia um ruído engraçado, devido ao suor. Sua respiração parecia mais um barulho de trem desgovernado e seu corpo transpirava horrores sob o sol de quarenta e cinco graus.
 Após meia hora de viagem, os dois chegaram ao portão principal da casa. Olivença ordenou que Alcebíades parasse. Desceu de seu cavalo e o amarrou na cocheira. Alcebíades aproveitou e sentou no chão de terra: estava realmente cansado disso tudo.
- Levanta! - Disse Olivença, que não tirava a mão da pistola na cintura, nem por um instante. – O patrão quer falar com você.

- Você sabe qual é o assunto? – Perguntou o velho, ainda ofegante.
-Não sei, não. Isso é entre você e ele. – Respondeu o capataz.

Caminharam até a escada central. Olivença o mandou subir na frente, com a pistola na mão. Ele tinha ordens expressas de seu patrão para atirar em qualquer indivíduo que fosse contrário a suas ordens, dentro do perímetro da fazenda- seu reino- diga-se de passagem, o que significava para Seu Sebastião, a sua fazenda.

Subiram a escada de madeira da entrada principal: o ranger dos seus degraus era bastante sonoro. Se detiveram ao chegar em frente a porta dupla de madeira de lei. Os ornamentos da sua face externa eram maravilhosos. Olivença bateu a argola de um dos touros de prata, que encontravam-se encravados no centro superior de cada porta. O estalar da chave girando na porta, foi imediato. Uma senhora de estatura mediana, com um longo lenço colorido e desbotado, abriu uma das portas. – Entrem. O Sinhô quer ver vocês.

Adentraram o salão da casa pisando, estrondosamente, sobre o piso de tábua corrida. A poeira de suas botas fez uma trilha no caminho. Pararam em frente a uma porta de madeira. O azul da sua última pintura era quase invisível.
A velha empregada bateu na porta e aguardou a resposta. Uma voz aguda se pronunciou do interior do cômodo. – Entrem. – Alcebíades não teve dúvida: era a voz de seu senhor. Já tinha ouvido esse timbre de voz apenas duas vezes em sua vida. Uma vez, quando pediu abrigo e trabalho na fazenda, e outra, quando teve que clamar pela vida de seu filho, o inconseqüente Odimar. O rapaz, que naquela época tinha apenas dezesseis anos, havia sido condenado a castração pelo velho Sebastião. Seu crime: praticar sexo com os animais da fazenda. Alcebíades lembrou de como bebia pinga, durante aquele trágico período de sua vida. Seu filho lhe dera muito trabalho até aquele dia.

Continua...