O COLETIVO ZINE É UMA AÇÃO CONJUNTA. A PROPOSTA É REUNIR DIVERSOS FANZINEIROS OU CRIADORES INDEPENDENTES E PRODUZIR UM TRABALHO COLETIVO. CADA PARTICIPANTE CONTRIBUI DA FORMA COMO PUDER, SEJA NA CRIAÇÃO, MONTAGEM, EDIÇÃO, ADMINISTRAÇÃO, DIVULGAÇÃO, DISTRIBUIÇÃO. O IMPORTANTE É SOMAR ESFORÇOS. E ASSIM MULTIPLICAR A DIVULGAÇÃO DO TRABALHO DE CADA AUTOR E DIVIDIR O TRABALHO. SE DER CERTO,CONSEGUIREMOS CHEGAR A NOVOS LEITORES QUE JAMAIS CONHECERIAM NOSSO MATERIAL SE O PROMOVÊSSEMOS ISOLADAMENTE. E NA PIOR DAS HIPÓTESES, AO MENOS TEREMOS UMA DESCULPA PARA INSANAS FESTAS DE CONFRATERNIZAÇÃO E LANÇAMENTO DE ZINES. ENTÃO, MÃOS À OBRA. MISTURE-SE.

domingo, 30 de abril de 2017

O Cuspe que virou lodo


Por: Nihildamus

Valores são farelos
na ética da jaula
juízos e juízes
se metam em suas vidas
preconceitos
pré-destinos
dois lados da moeda
pós-moderno
globaliza
transforma-se em inferno
sunitas, xiitas
MPLA e UNITA
Sendero e as FARC
estão prontas pro ataque
Al-Qaeda e Al-Fatah
estão doidas pra matar

E você aí, de clic-clic no mouse!

AO PATRÃO, COM CARINHO

Por Alexandre Mendes

Como vai, velho canalha!
Por muitos anos, dia após dia,
enchi teu bolso de alegria
na minha carteira, quase nada
suor pingando; garganta seca
trabalhei duro; sol escaldante
e você lá no restaurante,
tacinha de uísque sobre a mesa

Como vai, velho safado!
Por muitos dias, ano após ano,
me usou bastante e deu o cano
Lamentei desamparado
mão com bolha a calejar,
pé descalço e rachado
e você lá no Corcovado
com sua prole a passear

Como vai, seu velho fútil!
Depois de anos e alguns dias
me sugando as energias
transformou-me em um inútil

quando pensei em parar,
vi que não contribuía,
negada aposentadoria
continuou a me explorar

Como vai, velho imundo!
Vai como, velho picareta!
Espero um dia te encontrar sentado
no colo em brasas do capeta!

HISTÓRIA DE AMOR


Por: Alexandre Mendes

Ela acordou cedo e colocou o café na mesa, para ele. Era o dia do seu aniversário. Acordou-o, com beijinhos e abraços.
- Feliz aniversário, meu amor. Vem tomar o café que preparei para você. – Disse ela.
Tomaram o café, apaixonadíssimos. Lembraram de como se conheceram e, como foi o primeiro beijo. Riram, recordando da última viagem que fizeram pelo mundo. Um casal sem filhos, jovem, saudável e rico. Viviam a vida, sem aparentes preocupações.
- Eu te amo. Sempre, te amarei. – Dizia ele.
Após o momento mágico, ocorrido durante o café, beijaram na boca, intensamente. Suas coxas se entrelaçavam, embaixo da mesa.
- Vamos para cama! Quero ser tua.
Deitaram no leito de amor e fundiram-se em um só corpo, durante toda manhã. Desfaleceram em gemidos e, finalmente, relaxaram, cada um do seu lado da cama.
-Meu amor, como você me satisfaz! – Murmurou o aniversariante.
O odor do sexo ainda pairava no ar, quando a campainha da porta tocou. Ela fixou os olhos nele, como nunca havia feito antes. – Eu tenho uma surpresa para você!
Ele sorriu, feliz por ter uma mulher que o amava tanto. Ela se levantou da cama e caminhou em direção a porta. – Feche os olhos, paixão. Só os abra, quando eu mandar!
Um simples momento que, para ele, pareceu uma eternidade.
 “Ah! Que surpresa, o meu amor preparou para mim?” – Pensou ele, curioso.
Os olhos se abriram, no exato momento em que sentiu algo pontiagudo invadir seu peito: Era o jardineiro, que o golpeava, diversas vezes, com um facão. Observou, no fundo, ela revirando o seu lado do armário. Quando, já não tinha mais forças para se defender ou respirar, escutou ela dizer:
- Aonde será que esse filho da puta guardou a apólice!
Ela e o jardineiro simularam um assalto na casa, receberam o seguro
e viveram felizes para sempre...

FIM

DESTINO


Impropérios e críticas são lançados
como pedras em minha face;
meus dias são preto e branco,
com legenda para cegos

Estatelado na calçada;
 Pisoteado e amarrotado
Meu eu está irreconhecível:
Sou qualquer coisa que não seja eu

Como um parafuso que gira,
gira e gira,
faço operações que não queria
Infeliz etapa industrial

Encarar a realidade
sem Davi e seus salmos
A realidade são pedradas
no centro da minha fronte

A morte...a morte...- Balbucio
Não há mais lugar para mim
dentro da caverna onde todos
enxergam sombras refletidas

Venha morte...me leva
Liberta-me do ambiente egoísta;
torpe ganância desenfreada
Venha no relento da madrugada

Venha... Única certeza do homem
Quase todos te temem,
mas há todos consome

Venha...chegue mais perto,
mais perto,
mais perto
do fim

ESCOLINHA

Por: Alexandre Mendes

Roubava bomba d’água
e chinelo esquecido na porta
Essa é a história de Joninha,
meu parceiro vida torta

Metia só pra dar um belengo;
Fazia rolo na situação
Joninha vida torta,
rodou e foi pra prisão

Lá dentro, conheceu os feras,
como ele chamava: “Os fodão”
Dividiu com eles, a cela
de pavilhão em pavilhão

Passou o primeiro bucha,
No respingar da ducha,
segundo lhe passaram
a rígida instrução

Depois ficou mais fácil
Joninha empurrava o aço
e escutava o gemidinho,
só pra sua diversão

De tortinho deu uma volta,
bem mais torto que lá fora
De ladrão porco
a bandidão

É bandalha, porta a fora
Pulou a muralha
e fez a hora
Segundo a sua decisão

Com uma taurus na cintura
é cerol da linha dura
Não pisca o olho,
senão “cê” vai dançar

Carceragem é escola
Uma grande piada;
Motivo de gargalhada,

reforçando o grande Nada

TROPA DE ELITE

Por Alexandre Mendes
-Opa, opa! Perdeu!- disse o policial que chegou sorrateiramente por trás do rapaz. - Fumando maconha na rua! Bonito! - E deu logo um cachação no pé da orelha do moço.
- Que isso! Peraí! É só uma pontinha. Estou chegando do serviço agora. Sou trabalhador. Não passa quase ninguém por essa rua, então decidi queimar aqui mesmo!
-HAHAHAHA! Ele falou que é trabalhador! - Disse o milico para o seu colega, que se aproximava com a pistola na mão.
- Trabalhador e maconheiro? Tu é vagabundo! - Gritou o soldado, enquanto golpeava o rapaz na barriga.
-Pô, eu sou servente de obra. Pode ver, minhas mãos são cheias de calos.- Murmurou o infrator, com a voz trêmula de medo. O segundo policial aproveitou as mãos estendidas do indivíduo e resolveu lhe dar um corretivo com o cacetete em suas palmas.
- Filho da puta! Só tem essa bagana? Cadê o bagulho?
- É só isso...- Olhos lacrimejando.- Só essa pontinha!
O policial que chegou primeiro fitou-o com os olhos vermelhos de ódio. Puxou uma trouxinha de cocaína do bolso e lhe disse:
-Ô seu mané! Isso aqui é seu e tu vai em cana.
-Não! Não! Por favor! Eu tenho uma filha pequena e...
- Tomá no cú! Não te perguntei nada!- Vociferou o soldado, dando-lhe mais um tapa na cara.- Meter você na cela dois. O xerife adora mulher magrinha! HEHEHEHE...
- Não... Espera, vamos negociar. Tô com o pagamento da semana aqui. Pode levar tudo. - Disse o servente de obra, já com a cara vermelha de tanto apanhar; face intumescida pelas lágrimas.
- Passa pra cá!- Ordenou um dos carrascos para a vítima.  Após a contagem do vencimento da semana do indivíduo, o policial argumentou truculentamente:
- Cem é pouco! Dá o relógio!
O rapaz tirou o relógio do pulso e, rapidamente, o entregou a autoridade presente. Pensava em nunca mais passar por aquilo em sua vida. Entrar para uma igreja evangélica. Usar Deus para esquecer sua miséria, ao invés do fumo proibido.
-Ô otário, tá vendo essa reta aqui? Te dou cinco segundos para sumir no horizonte. - Ordenou-lhe, um dos homens da lei.
O elemento não pensou duas vezes: Como uma flecha, sumiu na esquina.
Os policiais seguiram na direção contrária, dobraram a esquina e entraram na patrulha.
- Segura sessenta contos que eu te devia dez, lembra?
-Tranquilo... fica com o relógio, pois não gostei da cor e...estica logo essa farinha no espelho que eu tô cheio de sono!

GG ALLIN

Por: Alexandre Mendes

Vê aquela flor?
Um dia, ela foi rosa
perfumada, bonita
impávida e formosa.
Hoje, jaz no triste limbo
seca, cinza e horrorosa

Vê aquele animal?
Um dia teve sorte
abanando a cauda,
alegre e forte.
Hoje, expele dolorosos vermes
esperando a própria morte

Vê aquela construção?
Um dia foi admirada
retilínea, colorida
janela e porta cor de prata.
Hoje, abalada e vazia
entregue à cupim e barata

Vê aquele homem?
Um dia foi contente
hábil, musculoso
viril e atraente.
Hoje, acamado e febril
cheio de escaras, inconsciente

Vê o nosso mundo?
Um dia foi arejado
água limpa; solo rico
clima ameno e temperado.
Hoje é superaquecido,
poluído e desmatado

Vê como é o destino?
Um dia é otimismo
crença em contos
verdade mau contada
outrora é escuro abismo,
e o fim da linha revela o nada.

MÍNIMO

Por: Alexandre Mendes

Lambe logo o meu chão,
meu escravo; desgraçado
Deixa tudo bem limpinho,
porque eu pago seu salário

Pega esponja e desinfeta,
fedorento sanitário
Deixa tudo bem cheiroso,
porque eu pago seu salário

Serve logo meu almoço,
tô com fome, ordinário
Quero ver o seu sorriso,
porque eu pago seu salário

Agora, compra meu cigarro,
não demora, meu lacaio
Quer ouvir um desaforo?
Porra, eu pago seu salário!

Te humilho com prazer
Quero você conformado
Nós nascemos para isso
e eu pago seu salário


Homo Sapiens

Por Alexandre Mendes

Memórias de um operário

Por: Alexandre Mendes


   Foi um papo de e-mail com o Ivan Silva que me inspirou a escrever sobre a minha experiência de vida, adquirida como ambulante, nas ruas do Rio de Janeiro.
Há muito preconceito sobre essa profissão, ainda. O fato é que se por um lado, os ambulantes não pagam impostos para vender suas mercadorias, por outro, aliviam as estatísiticas do desemprego, nas grandes capitais.
Todo ambulante que se preza tem que ter os seus apetrechos: Tripé e bandeija de madeirite, plástico com cordas, amarradas nas pontas(o que chamamos de paraquedas) ou grade, para expor as mercadorias.
As ruas do centro podem ser lucrativas ou perigosas para um ambulante. O lugar mais seguro para se trabalhar, talvez seja o sinal (semáforo). Alí, o vendedor expõe a sua mercadoria na mão, sem risco de perdê-la para o rapa.
Trabalhar nas ruas mais movimentadas, chama-se "perde-ganha". O ambulante pode arrebentar nas vendas, entretanto, o risco de perder a mercadoria para o rapa é bem maior e o trabalho é feito correndo deles, pela avenida, o tempo todo.
A Avenida Rio Branco é uma das mais perigosas. Alí, volta e meia, a porrada entre ambulantes e o rapa, estanca. Para trabalhar na Presidente Vargas, Amaral Peixoto ou Rio Branco, só de paraquedas. Nessas ruas, é comum que os vendedores combinem gritos, como o barulho de uma ambulância, para
avisar que o rapa está fazendo a limpa.
Eu sei como é difícil perder a mercadoria para os carrascos da Prefeitura. Mas contarei mais um pouco disso, em uma outra oportunidade.


Memórias de um operário II


Por: Alexandre Mendes

 Nessa época, eu vendia blusas de banda de rock na Praça São João, em frente a Secretaria de Educação. Tinha que chegar cedo para pegar a sombra do telhado do prédio público, ao meio dia. 
Foi alí que conheci muitos ambulantes, com mercadorias variadas. Gostava de trocar idéia com os africanos. Esse grupo tem crescido no mercado informal, cada vez mais. Normalmente, comercializam cintos e produtos de beleza feminino. São angolanos, quenianos, argelinos. Eu gostava muito de praticar o meu inglês com os quenianos.
   Conheci um cara recém chegado da Paraíba. Seu nome era Antônio. Seu irmão era pipoqueiro na região. Antônio estava hospedado na casa dele. Vendia guaravita, cerveja e refrigerante, em um isopor amarrado em um carrinho de duas rodas. 
Cada rua tem o seu horário para ser liberada para os camelôs. O rapa para de enfernizar a vida dos camelôs na Avenida Amaral Peixoto às 19:00 da noite. "Após esse horário é difícil de haver algum tipo de fiscalização." - Pensava eu.
   Chamei Antônio para conhecer o pico mais movimentado, após às 19:00. Ele me acompanhou. Montamos nossos apetrechos na lateral da Avenida. Por um instante, dei as costas para minha grade.  Antônio tinha ido procurar um banheiro e eu fiquei vigiando o carrinho dele. Enquanto eu vendia um guaravita, o rapa veio por trás de mim e tomou a minha grade. Tentei argumentar, mas eles me cercaram. Jogaram a minha grade dentro da Kombi. 
De repente, Antônio apareceu, mas já era tarde: o rapa já estava tomando a mercadoria dele. 
Ele seguiu o meu conselho e segurou o carrinho. Os discípulos de Satanás levaram somente o isopor e toda a mercadoria que tinha dentro do carrinho. 
Enquanto a Kombi se distanciava da gente, uma cena inusitada se desenrolava perante os meus olhos: Antônio, paraibano, recém chegado ao Rio de Janeiro, sentou no meio fio e chorou.

Memórias de um operário III

Por: Alexandre Mendes

Houve um tempo em minha vida que sobreviver, dia após dia, era um desafio. Tentei montar mil negócios clandestinos! Não visava comprar carro, nem almoçar em restaurante. O meu objetivo era simples: chegar em casa com pelo menos duas sacolas de compras. Éramos quatro, nessa época. Minha esposa não podia trabalhar fora, pois não tinhamos com quem deixar as crianças. Então, eu me armava e me dirigia até as trincheiras da cidade.
 Passei a procurar um sinal (semáforo, para alguns) onde pudesse vender alguma mercadoria. Após passar um dia inteiro perambulando, achei o lugar perfeito: a subida da ponte Rio-Niterói, entre o 12º Batalhão da PM (Niterói) e a Favela do Sabão. Que adrenalina, trabalhar no meio daquele cotidiano fogo cruzado!
Observei o número de ambulantes e suas mercadorias. Havia, aproximadamente, umas nove pessoas ganhando a vida naquela travessia. Vendiam refrigerante, frutas que traziam do Ceasa, brinquedos de criança e utensílios para automóveis. 
Decidi, então, vender mariola. No entanto, conseguir um sinal para trabalhar não é tão simples assim. O ambulante tem que ser aceito pelos vendedores mais antigos do local. Se não forem com a sua cara, você corre o risco de tomar uma coça e ser expulso dalí.
Meu primeiro dia não foi fácil. Cheguei bem cedo, antes que todos chegassem. O velhinho que vendia "Suflair' me aceitou numa boa. Sidnei, o cara que vendia capas para volante, me riscou de cima a baixo. Quando os meninos que vendiam frutas chegaram no ponto, Sidnei começou a cochichar sobre a minha presença no local.
Já devia ser meio dia e o sol começou a incomodar. Mariolas não fazem tanto sucesso no sol quente e foi se tornando cada vez mais difícil de vendê-las. Isso, sem contar com o fato de algumas pessoas que fecham o vidro na sua cara, de maneira arrogante ou, simplesmente, por terem medo de você.
Sidnei chegou perto e disse: - Mermão, esse sinal já está cheio de gente. Não vai dar pra você trabalhar aqui.
Argumentei, então, com toda a astúcia que a rua havia me ensinado: - Pô, cara. Minha mulher e filhos estão esperando que eu traga algo, que não seja mariola, pra gente jantar. Quebra essa, irmão! Não vou te atrapalhar! Come uma mariola! - E desfalquei o lote do produto, na intenção de ganhar a confiança dele. Sidnei comeu uma, duas, três mariolas! Os outros também pediram e eu acabei perdendo um pacote inteiro de mariola para aqueles esfomeados. 
Apesar de tomar um prejuízo inicial, o ato me beneficiou. Era como se fosse uma iniciação: agora, eu fazia parte do quadro diário de ambulantes daquele sinal. Trabalhei um ano e pouco com aqueles caras. Fiz a minha clientela. Em dias quentes, vendia refrigerante e cerveja. 
Certo dia, um homem tentou vender mariola no meu ponto, mas ficou estreito para ele. Eu já era o vendedor de mariolas oficial do local. Tentou botar bronca e foi uma péssima idéia: atiramos o pacote de mariola dele no meio da rua. Puxa, como ele teve que correr!


Memórias de um operário IV

Por: Alexandre Mendes
  
Já fazia um tempo que não usava a minha imaginação para ganhar dinheiro. Costumava colocar a melhor roupa que tinha, me barbear e me dirigir até a zona sul. Fazia uma rota pelos pontos de ônibus da Praia de Icaraí e adjacências, abordando as belas senhoras que eu acreditava serem moradoras da região. Meu sermão era, mais ou menos, assim:
- Bom dia, senhora. Eu vim de Itaboraí (ou qualquer outro lugar distante dalí) para ver um emprego de serviços gerais naquele prédio (apontava para qualquer um) e quando cheguei, haviam dado a vaga para outro. Poderia me ajudar com um vale transporte ou qualquer quantia em dinheiro, para que eu possa voltar pra casa? (que cara de pau!)
  Conseguia, com essa façanha, garantir as duas sacolas de compra até o meio dia. Era magnífico! Mas o meu forte nunca foi pedir esmolas, sempre me sentia muito mal com isso. 
   Guardava as segundas feiras, pela manhã,  para procurar emprego. Mas, puxa! Como era difícil! Ainda não tinha conseguido a porcaria do certificado de dispensa do quartel e, por isso, nenhum lugar me empregava. Em casa, duas bocas para alimentar e um faminto para nascer...
A minha cara já estava batida naquela rota e eu temia ser descoberto. Eu era um criminoso facilmente enquadrado no artigo 171.
Tentei lugares mais longínquos, como o Fonseca ou Santa Rosa, mas a minha estorinha não fez tanto sucesso nesses bairros. Precisava trabalhar de verdade, novamente.
Foi quando um vizinho de parede, no cortiço em que eu estava hospedado, me chamou para trabalhar nas obras da nascente Barra da Tijuca. Instalar piscinas de fibra nos casarões, me pareceu muito agradável. O salário não era dos melhores, mas não tinha muita escolha.
   Então, me tornei um servente de obras.
 A equipe era composta por um mestre, um meio oficial de pedreiro e um servente que, nesse caso, era eu. 
Ficávamos cerca de três dias, dormindo nos cômodos mal acabados dos casarões, sem iluminação. As muriçocas gigantes não incomodavam tanto na hora de dormir, pois trabalhavamos do nascer ao pôr do sol. e, quando me deitava no papelão, parecia estar morto de verdade.  Quando o dono da loja de piscinas ligava, apressando a entrega do serviço, eu continuava cavando o buraco da piscina, com o auxílio de uma lamparina. Certa vez, estava tão cansado que não conseguia erguer a lata de margarina cheia de concreto, improvisada de balde. Carregava-a na altura da cintura e isso fez com que o cimento escorresse para dentro da minha bermuda. Puxa! Como doeu na hora de urinar! 
E foi assim que aprendi. Nunca mais deixei as minhas partes mais sensíveis entrarem em contato com o cimento.