O COLETIVO ZINE É UMA AÇÃO CONJUNTA. A PROPOSTA É REUNIR DIVERSOS FANZINEIROS OU CRIADORES INDEPENDENTES E PRODUZIR UM TRABALHO COLETIVO. CADA PARTICIPANTE CONTRIBUI DA FORMA COMO PUDER, SEJA NA CRIAÇÃO, MONTAGEM, EDIÇÃO, ADMINISTRAÇÃO, DIVULGAÇÃO, DISTRIBUIÇÃO. O IMPORTANTE É SOMAR ESFORÇOS. E ASSIM MULTIPLICAR A DIVULGAÇÃO DO TRABALHO DE CADA AUTOR E DIVIDIR O TRABALHO. SE DER CERTO,CONSEGUIREMOS CHEGAR A NOVOS LEITORES QUE JAMAIS CONHECERIAM NOSSO MATERIAL SE O PROMOVÊSSEMOS ISOLADAMENTE. E NA PIOR DAS HIPÓTESES, AO MENOS TEREMOS UMA DESCULPA PARA INSANAS FESTAS DE CONFRATERNIZAÇÃO E LANÇAMENTO DE ZINES. ENTÃO, MÃOS À OBRA. MISTURE-SE.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Futuro? O que é evolução?

Por Fabio da Silva Barbosa

- Cidadão de bem, controle mental, bom dia.
- Bom dia. Gostaria de fazer uma denúncia. Tem um morador da minha rua que anda fugindo do padrão.
- Já tentou falar com ele?
- Sim, mas infelizmente está possuído por ideias estranhas. É um bom sujeito, mas está pensando muito e vocês sabem a que isso acaba levando.
- Tem algum familiar que possa pagar o tratamento?
- Não que saibamos. Vive sozinho, lendo livros proibidos.
- Passe o endereço e enviaremos uma equipe de recolhimento para tratarmos esse infeliz pelo Estado.
…………………………………………………………………………..
- Doutor, acaba de chegar o denunciado.
- Cada vez mais chegam esses tipos. Como está?
- Resistindo muito. Diz que tem direitos e que somos fascistas.
- Amarre na cadeira e use o imobilizador de cabeça.
…………………………………………………………………………..
- Muito bem, senhor Arrigo… Vamos começar o procedimento de controle mental. Não precisa se preocupar. Nossa empresa tem nome no mercado e devido a sua situação misantrópica, reconhecemos sua falta de recursos financeiros, então todo o tratamento será custeado pelo Estado.
- Eu não preciso de tratamento. Estou me sentindo muito bem. Eu quero ser livre. Quero pensar por mim mesmo.
- Posso ver que sua situação é grave. Não se preocupe. Logo estará normal.
- Mas…
- Anestesista, faça a sua parte. Equipe de programação, coloque os dados no chip implantado no córtex. Cuidado ao introduzir os cabos. Pela espessura da cavidade, ele não fez reparos no chip desde que foi implantado em seu nascimento.
- Acho melhor substituirmos o chip.
- Certo. Peque o antigo e faça uma leitura após retirá-lo da cavidade.
…………………………………………………………………………..
- Doutor, a leitura do chip demonstra dados alarmantes. O paciente não assistia mais tv, vídeos engraçados na internet ou se guiava pelo Manual do Cidadão de Bem. Estava completamente imbuído de material subversivo e seu cérebro estava acostumado a emitir pensamentos e opiniões próprias. O cidadão desaprovava completamente o pensamento pronto que é oferecido a todos os outros.
- Não se preocupe. Ao acabarmos a operação ele será um bom homem, como todos os outros.
…………………………………………………………………………..
- Então, senhor Arrigo? Como se sente?
- Acho que bem.
- O senhor acabou de acordar e é natural que esteja um pouco confuso. Tivemos de fazer uma complexa intervenção em sua mente, mas felizmente conseguimos te salvar. O senhor não será mais atacado por dúvidas e angústias. Permanecerá confortável e seguro. Irá sentir a alegria que todo cidadão de bem possui ao absorver nossas certezas. Tudo virá pronto e mastigado, livrando sua mente de todo esforço que os questionamentos desnecessários trazem. Chega de infelicidade. Agora descanse e aproveite o momento. Na mesinha ao lado está o Manual do Cidadão de Bem, onde poderá encontrar o proceder de um verdadeiro pilar da nossa sociedade. Talvez sentirá que esqueceu de algumas coisas, mas teremos consultas diárias e acompanhamento durante a sua recuperação. A vida é curta e como diz o velho sábio: “Temos de aproveitar o momento”, “Direitos humanos para humanos direitos”, “Ninguém pode mudar o mundo”, “Sempre foi assim e sempre será” e “Religião e política não se discutem”.
Risadinhas e tapinhas amistosos na perna do paciente.  
Arrigo pensou em ler o manual, mas sentiu uma leve dor de cabeça e ficou com medo de piorar. Se acomodou na cama. Parecia que estava tudo certo, embora soubesse, lá no fundo, que algo não estava.    

Dançando na chuva

Por Fabio da Silva Barbosa

O ponto de ônibus estava cheio de gente aglomerada. Queriam evitar a forte  chuva que caía. Os carros passavam jogando água nos pedestres que corriam tentando atravessar as ruas ou chegar até as marquises. Fechou o sinal para os carros. Nesse momento ele vem pulando na água e virando cambalhotas.  Passa entre os carros e dá socos nas laterais dos ônibus estacionados.
- Arruma um troco aí, madame? - Pergunta ao se apertar entre as pessoas do ponto de ônibus.
Algumas senhoras se limitam a segurar as bolsas com maior força, outras olham para o lado oposto fingindo não ouvir. Um magrão estalou a língua aborrecido.
- Por que não vai arrumar trabalho? – Questionou um baixinho.
- Você me daria trabalho? – Respondeu atrevido.
Depois de percorrer todo o ponto sem conseguir uma moeda sequer, voltou para a chuva e fez um sinal de agradecimento ao inclinar o corpo.
- Muito agradecido pela ajuda de todos e vão se foder.
Voltou a se meter entre os carros que a essa altura estavam em movimento, pois o sinal já estava aberto de novo. Entre saltos e danças estranhas ele chegou ao outro lado. O trajeto foi acompanhado por buzinas e xingamentos dos motoristas. Seguiu a calçada, bailando sob a água que caída. Sua face demonstrava uma alegria marota. Dobrou a esquina deixando os rostos carrancudos para trás.

domingo, 24 de janeiro de 2016

COLETIVO ZINE 3 DISPONÍVEL

ESTÁ DISPONÍVEL O COLETIVO ZINE 3

Saiu a 3ª edição do nosso zine, mais uma vez uma edição recheada, com 80 páginas, e participações dos artistas: Jackson Abacatu, Solano Gualda, Rodrigo Pedroso, Fabio da Silva Barbosa, Diego El Khouri, Ivan Silva, Kaio Bruno Dias, Wagner Nyhyw, Alexandre Mendes, Ian Rocha, Anna Alchufi,
Marcio Salerno, Leonardo Santos, Marcelo Dola, Juliana Urano, Edu Planchêz, Cacau Cruz.

Quem quiser adquirir é só entrar em contato com qualquer dos distribuidores abaixo:

Wagner Nyhyw - wnyhyw@gmail.com - Rio de Janeiro

Rodrigo Pedroso - semdrive@yahoo.com.br - São Paulo

Marcelo Dola - hqsdola@gmail.com - Minas Gerais

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Leonardo Santos - leo96ps@gmail.com - São Paulo

Solano Gualda - solanogualda@hotmail.com - Rio Grande do Sul





sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

POEMA LIMPÍSSIMO

Por:  Edu Planchêz


Beijos nos lábios de tintas da pintora
A vagina é uma borboleta,
os lábios são as asas,
o grelo, seus olhos
O gás de pimenta me fodendo o nariz e a garganta,
a merda do que é velho tentando se levantar
para matar tudo que é rubro,
tudo que é e não é espelho,
tudo que não é roubo,
tudo que não é mentira
No ninho das medusas vive uma espécie de ser acéfalo
que costuma sair pelas ruas de São Paulo
em busca de plateia e comida,
ele desconhece que um dia Anita Mafaltti...
e Oswald de Andrade plantavam
nos cantos das encruzilhadas
dessa megalópole,
a semente de uma planta
que cresceu, e hoje devora os sem história
pelos pés ( há de se temer )
Jiló com manga,
porra com chocolate,
bucetinha serena,
bucetinha tempestuosa
O poema é sempre o poema,
o homem é sempre o cavalo que o recebe,
óbvio que também o filtro
Sophia de Mello Breyner Andresen
nas janela que abro..
Rendo-me ao mar e ao remo,
ao faiscar de faróis e ilhas,
a visão que colho com o cone
formado por meus pés
e os pés das areias
O céu é cor de laranja,
os lares são cor de laranja, da cor do mijo,
as pessoas, são de qualquer cor,
nesse pós meio-dia,
nessa data que já esteve um dia distante
Cheguei em casa pela manhã,
a madrugada viu os seios da madrugada,
a bunda da minha mãe rua
e a bunda que tenho
Não fiz pactos com o demônio,
nem idolatro a idolatria,
mas posso estar mentindo,
é um direito meu
Nesse pedaço de lata,
nesse país que tenta se olhar olho no olho,
ando pelos tubos dos que escrevem
como forma de se manter vivo,
como meio de encontrar ( ou atrair) amor,
o sexo vital do dia a dia
Lembro que a primeira regra ( li num livro)
de se conquistar uma mulher bonita,
é não dizendo que ela é bonita
( para escapar do lugar comum )
Não cumpro todas as regras ( regras ?)
Meus tesouros,
descansam na paz das folhas,
no espinho da flor que cresce
nas dobras do blusão,
no cume do Monte Evereste,
nas temperaturas do que vou pensando
enquanto você almoça
Meu pau, meu caralho que não visita
nenhuma buceta há meses ( porque não sei),
é uma varinha de condão,
a bússola que tenho nas mãos
para encontrar o norte,
a ponte e a água
Minha avó Eugênia Planchêz, dizia,
que quando morava em Maceió
com meu pai ainda menino,
na falta do dinheiro e do quiabo,
ela pegava o broto do quiabeiro
e o cozinhava para o almoço;
também aprendi com ela,
que com um dente de alho,
um pouco de pimenta do reino,
água, farinha e sal, podíamos preparar um grude
que ela chamava de "rabo de galo"
para enganar o estômago
E foi enganando o estômago...
que cheguei até aqui,
até os dias de agora,
até a essa idade
Voltando aos azuis de Ferreira Gullar,
ao Parque de Diversões da Cabeça
de Lawrence Ferlinghetti,
que pelo que sei ainda está bem vivo
movimentando sua literatura
e sua editora City Lights Books
Escrevo e canto em português,
que é uma possível barreira para o que gesto
rasgar o mundo,
mas lembro que,
Vladimir Maiakovski escrevera em russo
e posteriormente,
fora traduzido em todos os idiomas,
em outras palavras, essa barreira não existe
Borboleta Cleopata,
a coerência na descoerência,
a rainha que desejo na epiderme agora,
com todas as marés do Nilo,
com todas as nadjas de veneno,
com sua buceta imperial cravejada de chupões,
ora, os meus!
E as tardes do Rio de Janeiro transcendem
as outras tardes vividas em outros lugares
( nesse agora )
Limpo o cu com com o poema sujo
para chegar no poema limpo,
com o poema beijo tua boca
Eu estou na prenha praça Tiradentes também prenhe
ofertando espermatozoides e óvulos,
ovos e aves, João Caetano e Carlos Gomes.
Eu estou na praça Tiradentes onde só
e, acompanhado de nossa avó
Eugèní Mari Planchêz La Salle,
muitas vezes embarquei e desembarquei
do ônibus lotação 284 Praça Seca-Tiradentes
Meu caralho futuca as crateras
e os mapas para se chegar até a cratera
que tem minha marca, meus pés lentos ligeiros,
minha centopeia,
a lacraia e a melhor das vaginas da Terra.
Montado nos perfis das luas pétreas de escorpião, montado em você,
nas campinas em que eu via o curiango
no fim da tarde em seu voo
quase rasteiro contornando as touceiras de bambus
Todas as marcas que observo
e observei por essa existência,
multiplicadas estão nos quartos desse poema,
nas camas que estive com você
A Academia Brasileira de Letras,
o teatro Municipal,
o Centro Cultural dos Correios,
a Casa França Brasil,
o Centro Cultural Hélio Oiticica,
a Biblioteca Nacional,
a Casa que viveu Bydu Sayão,
o prédio que abrigou Cândido Portinari...
o Café Nice ( de Orlando Dias, Chico Viola...)
O centro do Rio de Janeiro, vai vendo;
é a primeira maravilha aos meus pacíficos olhos
espelhados na transparência da Confeitaria Colombo
Outro dia, estive em Maceió,
eu e meu amor agreste,
levei uma hora e meia no percurso
aeroporto Cruz das Almas,
fui observando as ruas e as pessoas,
os bairros mal arranjados onde todos se viram
como podem entre moradias improvisadas,
coqueiros, valões, vendas, arvores,
flores, outdoors, crianças nas ruas,
maxixes e quiabeiros
Outro dia, Teresina entrou no meu corpo,
assim que a porta do avião foi aberta,
assim que as luzes da pista verteram-se em serpentes,
serpentes filhas de dois rios, de duas pedras,
de uma única mulher
E os dois rios, e as duas pedras que agora são seis,
e o avião sumiu, voltou para o céu,
para os braços da mente do vento que escreve
cartas de vento no vento de meu amor
Hoje eu acordei um homem de cem trilhões de anos,
um ancião dotado de alta sabedoria,
um que não sabe nada,
um que descansa o queixo na palma da mão
e olha para os urubus vencidos
pelas correntes termais
do centro da cidade do Rio de Janeiro Flor
Nas origens do sol, não se lascam flores,
nem se trucidam legumes,
todas as léguas cumprem o que prometeram
ao solado dos pés, ao restante do ser
E no fundo do quintal ( no meio ),
havia uma árvore
que era chamada por minha família de turanja,
seus frutos, eram uma espécie de laranjas amargas,
usadas para se preparar compotas doces
A rua Marangá,
não sabia de meus dotes poéticos,
nada falava sobre o futuro
de todos que ali tinham suas vozes imitadas
pelo papagaio da vizinha,
pelas vielas do morro de São José Operário
E as cores que vinham da varanda,
moravam no meio das pernas
das meninas que brincavam com minhas irmãs,
no que ficava duro em mim
que era tímido e aclamado pelo silencio
Os anos não passavam na porta de minha casa,
um ano era mil anos, tanta coisa para se fazer,
para ser descoberto pela curiosidade
do menino que ainda para sempre não me deixou
Uma canetada de Edu Planchêz,
vale mais ou vale menos que,
um bilhão de canetadas do xerife dos xerifes
( que Bob Marley nos saúde )
Pois, ao perceber,
que esse estranho poeta,
saca de sua cavernosa caneta,
acenda alguma espécie de lenda,
algo que provoque estrondos,
arrepios, acessos de risos
Voltando ao ninho de cobras,
ao conflito dos que olham
e dos que não olham para o céu
Há dor sim, a dor que Ferreira Gullar...
vivenciou com suas crias,
mas aqui temos a Torre do Tesouro,
o veneno infalivelmente será vertido em remédio
E as negras nuvens que ora cobrem o lume,
ganham aos poucos um tom grená
tendendo para o lilas,
para o branco azulado, para a unidade intensa
E ela lavou a casa com os vinhos de Bordeaux
e deitou-se com Dionísio nas paralelas
do absoluto,
e 3 Reinos lhe foram ofertados,
3 reinos
3 reinos
2 anáguas, 1 sax e 1 trumpet
1 berro d'água
2 mamadas na teta dela
Entro na máquina do rugido das letras,
entro no entrar
Willian Blake viveu quase 90 anos
Chego ao teto da idade pleno
O poeta habita a pátria poeta
Na visão que ora tenho,
há uma Mulher Deusa Nua
no topo da árvore Bodhi
Na visão que ora tenho,
meu amor é essa arbórea mulher
A vagina é uma borboleta,
os lábios são as asas,
o grelo, seus olhos
Qualquer atividade envolvendo água,
tal qual produzir chuva,
terá resultados magníficos,
por isso,
abandone qualquer ideia
de vestir alguma roupa
bunda de fora,
pica tremulando às aragens
e aos piscares anais vaginais,
deusa da rua da carioca,
da rua das hortênsias
da rua dos amores,
da rua do pecado,
da rua marangá,
de suas íntimas pintas pretas
que um dia me mostrará
levantando o vestido
sentada na entrada do portão
de sua casa
Escrevo um poema nas paredes de teu ventre,
nos cenários de teus óvulos,
de outra forma o poema teu não nasceria,
por seres o mais profundo de todos os vulcões
gosto de compor o poema tirando ele de tuas vísceras
das entranhas cinematográficas
da fêmea ultra lilás do cio que és
Se sou o dono das palavras ( como diz),
você é a dona do meu embrião de homem cantor,
do homem que estica as mãos
e toca em você fêmea cor de planta,
cor de leite vivo
Se você grudar de verdade em mim,
o tempo para, saímos do tempo dos homens
e entramos no tempo das fadas
Sou um forasteiro, não moro na tua cidade,
você não conhece minha família,
não sabe de minha origem,
o fora de lógica corre por meus caminhos
No teu lugar, também temeria
Você fala em querer se perder,
você se perderia completamente, cuidado
Sou pássaro antigo,
há tempos cruzei os muralhas de Oreon
Represento o lado oculto estranho do estranho,
tem que ter coragem para estar comigo
Sei onde está essa pedra
bem no fundo do fundo do fundo do teu fundo
( deixo você achar e não achar que é sexo )
sou Nijinsky para sempre nu com uma mascara
sem cor e com todas as cores
Vou estudar é a tua anatomia,
esse é estudo que nossos organismos clamam
no dia de hoje,
o homem aqui não esqueceu
de teu vestido de ontem,
nem de tua descalcinha
Ai as palavras se vertem em outros líquidos
Lembrei do ovo
que no começo é apenas um líquido
que aos poucos vai se transformando num bico,
em ossos, asas, patas...
em seguida o ovo se quebra
e o pássaro voa para o céu
Te daria um banho de esperma
massagearia teus seios com meu leite visgo
é tesão, é penetrar tua vagina, e voltar no tempo,
na origem na nossa origem, na origem de tudo
sinta os seios coberto de esperma...e ore para as plantas,
para as flores das plantas
você sentiu a rajada do raio onde tudo nasce
o tesão é o nosso código

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

BLUES ENCHARCADO

Por: Diego El Khouri




envolto em vestes, cetim branco - bem cuidado -
nenhum rasto de sujeira, sangue, medo ou maus tratos
essa roupa é o mundo que me guarda
me protege embrulhado num sonho mágico
nas carícias impostas, nos beijos quentes de outrora
na viagem sem rumo do presente perdido

essa é a roupa que me guarda
me livra de mim mesmo
e me rouba o que já faz parte de mim
e nem eu mesmo sei...
essa roupa me esconde a volúpia
que me enlouque dia e noite
o desejo constante de ser outro
de ter outra, outra forma de agir
(agir pra não cair)

essa roupa é o mundo!
nosso mundo, “jardim de acácias”
de prédios, escolas  e fábricas

“a deusa se ergue vestida de folhas
encerra-se um ciclo”
a matéria bruta da poesia

voltar a  ver a alvorada...
o solstício, a doce manhã
a bebida após o almoço
cigarro após o orgasmo...

“inframundos”, Freguesia
mais um instante, aqui, jacarepaguá
rio de janeiro
vinte e dois de março de 2014
cidade das noites embriagadas
das alucinatórias paisagens
onde danço o meu blues encharcado
de álcool e sacanagem

rio de janeiro
cidade puteiro,
(contraditória imagem)

rio de janeiro

- cidade do rio de janeiro -

um momento, um momento,
cadê meu isqueiro?





quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

ZECA PAGODINHO DEVERIA SE ENVERGONHAR EM RECEBER ALGO, DIANTE DE TANTOS QUE SOFREM

Por: Edu Planchêz 


estou triste, não tenho como escapar, o nosso pai partiu,
e é fim de ano, momento que ele amava comemorar,
sempre preparava uma enorme cesta de frutas
adornadas com garrafas de cidra,
e oferecia essa beleza aos Deuses das dez direções do universo
volto aqui para a minha noite, rio de janeiro, último dia do ano,
e agora antônio eduardo?
jacarepaguá, estrada dos bandeirantes,
calor extremo, um sol para cada habitante,
o mesmo verão maçarico de sempre
copacabana entupida de gente,
hospitais fechados,
fogos explodindo, morte nas comunidades,
guerra, falta de remédios e médicos,
dinheiro queimado, vidas ceifadas pelo mal emprego desse dinheiro
zeca pagodinho deveria se envergonhar em receber algo,
diante de tantos que sofrem, o que vai para o bolso dele,
faltará na enfermaria fechada
estou triste, não tenho como escapar, o nosso pai partiu,
e é fim de ano, momento que ele amava comemorar,
sempre preparava uma enorme cesta de frutas
adornadas com garrafas de cidra,
e oferecia essa beleza aos Deuses das dez direções do universo

domingo, 27 de dezembro de 2015

TEU CLITÓRIS




Por: Edu Planchêz

pensando em fazer sorvete,
em construir um túnel entre minhas coxas e as tuas,
e os aviões do tudo e o nada,
e os navios trabalhados em cera marrom,
cera das fodas futuras,
cera do assoalho maior de todas às vezes que me procuras
por dentro da escrita automática,
por dentro das brenhas das matas da oitava estrela

puta que pariu, puta vontade de nunca ter vontade,
mas é só um querer, um caralho gigante que flutua,
que fura gostoso, porra,
meu poema te mela,
te meleca toda,
e me meleca também,
por que é muito bom ser melecado

foda, fios de saliva emolduram meu rosto,
teu rosto, a pele mais que irritada de meu pau
e de tua buceta pintura descomunal

sorvete vermelho,
teu critoris linhas do mundo,
pássaro meu amigo,
converso com ele,
ele responde pulsando
em seu amado idioma...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

lâmina

Por Fabio da Silva Barbosa

.
seu rosto derretia
num constante agonizar
o sofrimento trancado
na caixa do seu corpo
sei bem o gosto cortante
dessas lágrimas ácidas 
caídas 
como anjos
que viraram demônios
estar completamente só
sem ninguém pra dar a mão
sem carinho ou proteção
contra esse mundo tosco
quando não há lugar
para onde ir
não há nada
para sentir
as escolhas parecem mortas
folhas secas
caindo
povoando o solo
e indo pra baixo
provavelmente você também não vai entender
não sabem o que é perder
no labirinto da dor
sentindo a lâmina cortando
só para aliviar
essa existência
essa penitência
a raiva e a mágoa
o flagelo infinito
da desumanização contínua
desses corpos e mentes que se vão

Dia de visita

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
Mais um dia de visita na clínica. Me arrumo toda e fico esperando. Já faz tempo que ela não vem. Ao invés de dia de visita, tinha de se chamar dia de espera. Começa a chegar gente para ver Fulana e Beltrana, mas a minha não chega. Será que vai vir dessa vez? Fico esperando. O negócio é esperar. Pior que aqui não dá nem para fumar cigarro. Se ainda pudesse matar o tempo enquanto me mato… Tique-taque, os ponteiros vão passando. Levanto e olho para a porta. Ninguém. O negócio é continuar esperando. Agora vem alguém. É visita atrasada, mas não é para mim. Puta merda. E nem um cigarrinho. Percebo que começo a andar de um lado para outro. O enfermeiro olha. Já percebeu minha agitação. Melhor sentar. Tique-taque. Nada de chegar. Tique-taque. Puta que o pariu. Já passou mais da metade do tempo de visita e até agora nada. Os ponteiros demoram a andar e ao mesmo tempo não param de correr. Vai entender. Disseram que iam me tratar, mas a única coisa que fazem é administrar o maior número de remédios que podem sem correr o risco de me matar. É a prisão química, o paraíso da indústria farmacêutica. Não é a primeira vez que paro nesse buraco e quando sair estarei do mesmo jeito, só que impregnada de remédios, mais drogada do que nunca. Tique-taque e não chega ninguém. Devem estar muito ocupados trabalhando, fazendo compras ou sabe lá mais… Passou um mosquito voando. Pelo menos acho que era um mosquito. Pode ser mais uma daquelas bolinhas luminosas que aparecem na frente da vista. Não! Era um mosquito! O tique-taque não para de tiquetaquear. Parede branca, parede branca, porta, parede branca, grade, chão, teto, mesa, balcão, chão, teto. Sujeirinha esquecida no canto. Chão, teto, parede, porta, grade, porta, grade. Ó o enfermeiro passando. Até que não é dos piores, mas o trabalho dele que é o problema. Tique-taque. Olho de um lado para outro. Sacudo a perna cada vez mais forte. Nem percebi que estava sacudindo a perna até então. Tique-taque! Pronto, deu a hora. Tenho de me recolher e esperar até o próximo dia de vista quando novamente não virão.  

Findo/Desapercebido

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
Cansaço físico e mental
Fadiga
Desânimo
Não consegue mais pensar
Não consegue caminhar
Arrastando pelo deserto do nada
Arrastado pelo nada
Nada a declarar
Arrasado pelo nada
Nada a declarar

Marcada

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
E as pessoas corriam gritando.
- Pega! Bate! Mata! Ladra! Vagabunda!
E ela corria como nunca. Mas eram muitas pernas a lhe perseguir. Muitas vozes. Cada vez se multiplicavam mais. Seus pés falharam no momento em que a pedra atingiu sua cabeça. O chão se fez próximo. Os perseguidores a cercaram. As vozes aumentaram.
- Segura! Bate! Agora vai ver! Mata! Agora vai aprender! Vagabunda!
Os golpes vinham de toda parte. Tentou lembrar-se da mãe que morrera na prisão, do pai que nunca conhecera. Eram lembranças que nunca existiram. Não tinha de onde tirar. Tentou se levantar, se arrastar. Tentou pensar em um lugar onde já se sentira segura. O cérebro falhava. Todo esforço era inútil. Lembrou os tempos de rua, das meninas da gangue. Lembrou os tempos de abrigada, dos monitores e educadores carrancudos. Lembrou dos poucos que tentaram entender e ela mandou tomar no cu. Era impossível aceitar que quisessem oferecer ajuda. Isso beirava o inacreditável naqueles tempos sombrios. Tempos que sempre foram assim e são até o momento.
- Não deixa fugir! Bate! Segura! Vai aprender! Vai ver!
O cérebro falhando cada vez mais. A vista escurecendo. O sangue cobrindo o corpo. O sangue cobrindo a terra. A fúria descendo sobre o cadáver que já não respondia aos golpes. O cadáver que já nascera morto. A morta que já nascera morta.  

Marionetes do consumo

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
comprou comprou comprou
fez prestação
parcelas pra pagar
no carnê e no cartão
 .
compre compre compre
não precisa nem pensar
quando chega o fim do mês
fome vai passar
 .
gaste gaste gaste
o negócio é possuir
não ser você mesmo
nem precisa existir

O Jornalista

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
Todo dia era a mesma coisa. A reunião de pauta decidia sobre o que ia escrever e a linha editorial determinava como ia escrever. O mundo desabando e mandaram cobrir aquele lançamento de cosméticos. Como se sentia idiota. Mas os parentes gostavam. Comparavam o jornal só para mostrar a assinatura dele na matéria da capa. Acreditavam mesmo que ele escrevia. Escrevia, mas escrevia o que os outros queriam. Pior que o lançamento de cosméticos foi a entrevista com o novo Secretário de Direitos Humanos da cidade. Um policial corrupto e assassino que se juntou com fanáticos religiosos e setores da extrema direita para conseguir o cargo.
- Eu sempre quis fazer uma campanha do agasalho em grande escala – Dizia ele. –Queria ver toda essa gente, tão sofrida que vive nas ruas, sem sentir frio.
O que reservariam hoje para o seu dia. Cobertura sobre a venda de ovo de chocolate na Páscoa,entrevista com o Secretário de Educação (dono de uma rede de escolas privadas)… Chegou à redação e logo descobriu a pauta a ser coberta.
- É uma rua na Região Oceânica. Tem um amigo que mora lá e disse que uma pedra maldita atrapalha todo o fluxo de carros. Ele já pediu para tirarem aquilo de lá, mas ninguém toma providência.
Pegou os dados impressos no papel que lhe era mostrado, entrou no carro da redação e foi para o local indicado. O fotógrafo e o motorista conversavam animados. O calor era infernal. Chegando a tal rua, viu logo a enorme pedra natural do lugar. A rua foi aberta e casas bonitas (de quem tem dinheiro) foram construídas por ali. No ponto onde estava a grande pedra, a rua ficava um pouco mais estreita. Desceram todos do carro. Ao caminhar mais para o final da rua, viu que as casas iam ficando mais humildes. Devia ser a população nativa, que começou a povoar o local antes mesmo de ter rua.
Viu uma senhora se aproximar caminhando. Perguntou sobre a pedra. A senhora disse que ela sempre esteve ali e até deu o nome da rua (Rua da Pedra). Conforme conversava com os passantes, ia anotando no bloquinho.
- Acho até bom essa pedra. Depois que esse pessoal que tem carro veio para cá, as crianças nem podem mais brincar na rua. Assim eles diminuem a velocidade.
- Essa pedra é muito bonita. É uma beleza natural que deve ser preservada.
- Ela é tradicional do lugar.
- Para mim não incomoda em nada.
- Essa pedra tem história. Quem mora aqui mais tempo sabe.
Chegou à redação e fez a matéria. “Pedra é patrimônio de rua na Região Oceânica”. Foi satisfeito para casa. Dessa vez tinha valido a pena. O telefone tocou.
- Que merda de matéria é essa que você fez? Nunca mais entregue algo e vá embora antes de revisarmos. Tivemos de reescrever tudo em cima da hora.
No dia seguinte foi até a banca e leu na capa: “Pedra causa transtorno em rua da Região Oceânica”. Voltou para casa. Algumas horas depois ligaram da redação querendo saber se não iria trabalhar.
- Procurem outro. Nunca mais piso nesse lugar. Deve ter uma fila de gente querendo ver o nome assinando as matérias desse grande jornal. Tô fora.   

Para quando ela partir II

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
Encantadora,
agora só me restam as lembranças e a saudade
seu jeito rebelde e insano
inocente amiga da vida louca
depravadamente inocente
ou inocentemente depravada
?
sempre tudo por acaso
e o acaso contribuindo
para o fluir insano dessa vida
vida ferida
vida bandida
total
marginal
forças da natureza se chocando ao acaso
tentando sobreviver
sem se curvar
é preciso liberdade
é preciso ar
fazendo o que deve ser feito
pedaços desencontrados
lançados ao azar
criatura alada
que impedem de voar
olho para os céus
tentando te encontrar
querem te abater
querem te parar
querem adestrar
as palmas não vão contentar
é preciso mais
é preciso muito mais
sempre
e o que há de mais não cabe nos bolsos
não se pode carregar
criatura sagrada
abençoa ao amaldiçoar
criatura bizarra
tenha força
tente suportar  

Para quando ela partir

Por Fabio da Silva Barbosa

.
era uma criançabebêidosajovem
meninamenino
negraíndiabrancaorientalcafusamamelucacaboclaocidentalemais
beleza sem igual
quando perguntavam sua raça
respondia entre o deboche e a seriedade
vira-latas
meiga como poucas e raras
mesmo quando a revolta explodia de seu peito
a raiva pela boca
ainda assim um ódio encantador
autêntico
a beleza nunca a abandonava
seu choro enchia o ambiente de tristeza
um som aterrador
seu sorriso magnífico
enchia tudo de luz
sua presença
o inferno para uns
e a alegria para outros
passou na minha vida
e sumiu no horizonte
foi rumo a incerteza
com aqueles olhos
que expressavam todos os sentimentos
que sentia no momento
com aquela face
que expelia o que sentia
espero um dia te reencontrar
nesse turbilhão louco
chamado vida