O COLETIVO ZINE É UMA AÇÃO CONJUNTA. A PROPOSTA É REUNIR DIVERSOS FANZINEIROS OU CRIADORES INDEPENDENTES E PRODUZIR UM TRABALHO COLETIVO. CADA PARTICIPANTE CONTRIBUI DA FORMA COMO PUDER, SEJA NA CRIAÇÃO, MONTAGEM, EDIÇÃO, ADMINISTRAÇÃO, DIVULGAÇÃO, DISTRIBUIÇÃO. O IMPORTANTE É SOMAR ESFORÇOS. E ASSIM MULTIPLICAR A DIVULGAÇÃO DO TRABALHO DE CADA AUTOR E DIVIDIR O TRABALHO. SE DER CERTO,CONSEGUIREMOS CHEGAR A NOVOS LEITORES QUE JAMAIS CONHECERIAM NOSSO MATERIAL SE O PROMOVÊSSEMOS ISOLADAMENTE. E NA PIOR DAS HIPÓTESES, AO MENOS TEREMOS UMA DESCULPA PARA INSANAS FESTAS DE CONFRATERNIZAÇÃO E LANÇAMENTO DE ZINES. ENTÃO, MÃOS À OBRA. MISTURE-SE.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

GLAUCO MATTOSO, O "POETA DA CRUELDADE"

Parte I


(Por Diego El Khouri)



Literatura pra mim "já foi glaucoma, hoje é cegueira. Já foi telescópio, microscópio e caleidoscópio, hoje é prato em que cuspo, vomito e choro."

Glauco Mattoso, paulistano nascido em 1951, é um marco zero na literatura mundial. Com recorde de mais de 3000 sonetos (escrito em menos de dez anos) , esse pós maldito (como prefere ser chamado) é um forte exemplo daqueles que conseguem juntar poesia e vida numa intensidade única. Aliás, essa idéia nunca pode dissociar. Filho da tragédia ele vem compondo compulsivamente, desesperadamente numa loucura sem tamanho. Vítima da cegueira aos 40 anos de idade, esse revoltado por condição existencial, volta ao poema clássico abandonando o verso livre dos primeiros anos de literatura. Mas com ele o soneto assume um caráter diferente. Usando de uma forma metrificada perfeitamente ele consegue subvertê-la levando o leitor a sensações únicas.

Podridão e lirismo. Amor e ódio. Visão e cegueira.

Sua poética é uma arma contra os seus traumas íntimos. Vítima dos outros garotos e por sofrer glaucoma (por isso seu apelido), portanto sendo então uma criança frágil, é violentado inúmeras vezes. Na juventude ingressa na literatura e em inúmeros casos sádicos. Já aos 40 anos de idade e cego por completo se deixa abusar novamente por crer ser apenas um bicho e não homem. A literatura foi o que o salvou...

"De dentro da minha cegueira, vejo que, para a poesia, a única tendência vital será o retorno às origens, ou seja, em vez de buscar a visualidade, recuperar a oralidade".

Tive o prazer de entrevista-lo e coloco aqui na íntegra sem cortes toda a entrevista.

Mantive a linguagem original do Glauco, pois por não aceitar a  nova reforma da língua portuguesa ele adotou a antiga ortografia.
Aí está:



[1] Dentro de um quadro onde há tabus, preconceitos e a valorização
excessiva da higiene, em terra inculta o que é ser um "poeta sujo", ao
mesmo tempo clássico, conceitual e, para arrematar, cego, homossexual,
podólatra e sadomasoquista?
 


GM: A sujeira e a podridão sempre fizeram parte da maldicção litteraria.
Sade era muito coprophilo, Bocage era escatologico, Genet tambem. A
esthetica punk accrescentou mais uma pitadinha de nojeira nessa porcaria
toda. Commigo a coisa foi cumulativa: herdei o patrimonio fescennino dos
goliardos, dos maldictos, e passei pelas phases hippie e punk, com toda
a antihygiene inclusa. Mas, sendo cego, fetichista, sadomasochista e
veado, a coisa se aggrava. Eu diria que, sendo o Brasil um paiz bem
viralata, quem quizer assumir o rotulo de "sujo" tem mesmo que estar um
pouco acima da media... Mas ser um poeta sujo não é apenas chafurdar na
merda: é saber jogal-a no ventilador, saber fazer della boas tortas para
atirar na cara dos politicamente correctos.

 
[2] Você é realmente o que diz em suas poesias ou é apenas uma alienação
para fugir da dor vigente?



GM: As duas coisas, como ja dizia Pessoa. Sou personagem de mim mesmo e
exaggero, como todo poeta visceral, mas a contradicção tambem faz parte
da lenda dum maldicto. Então, tenho meu lado careta e accommodado.



[3] Como já dizia o profeta do caos Timothy Leary, "a marginalidade é
formada por aqueles que estão 'out' - aqueles que não tem acesso ao
poder estabelecido involuntariamente por miséria, ou voluntariamente por
escolha estética religiosa". Vivendo em um país de terceiro mundo, sendo
portanto um marginal por condição, cinéfilo inveterado e amante de
quadrinhos, como conceber ser um cego em meio a esse quadro?
 


GM: De facto, ser um outsider no Terceiro Mundo é algo bem mais
underground que ser underdog no Primeiro Mundo. Mas meu caso não é
questão de mera opção esthetica, é fatalidade mesmo. Eu ja nasci
enxergando mal e ja sabia que perderia a visão. Foi uma tortura lenta,
que me ensinou a ser masochista para compensar e a fazer poesia para
desabafar a revolta. Hoje, cada pau que eu chupo, cada pé que eu lambo,
me torna mais consciente de que o mundo foi feito para os que podem se
aproveitar dos que estão por baixo. Christo dava a outra face à
bofetada. Eu, que não sou sancto, offereço a bocca ao proximo pau e a

lingua à proxima sola. Dahi tiro meus themas mais authenticos.


[4] Qual a maior diferença do poeta antes e depois da cegueira?

GM: A principal differença foi que antes eu era anarchista e iconoclasta
meio a serio, meio de brincadeira. Hoje sou um palhaço a serio,
consciente de que minha missão é divertir meus leitores emquanto eu
choro.

 [5] Como o mundo acadêmico vê hoje sua obra? Há alguma repulsa devido
aos termos contundentes que utiliza?

 
GM: Repulsa sempre ha, tanto da parte da critica quanto dos editores ou
leitores, mas o circulo dos que reconhecem meu trabalho é sufficiente
para me dar respaldo. Sou objecto de theses e cursos, aqui e no
exterior. Um caso pathologico, como Augusto dos Anjos ou Giuseppe Belli.
Mas tem hora que fico desanimado com tanta indifferença (ou boycotte) da
midia e do meio editorial, ja que meu caso não é apenas "mais um" de
maldicção litteraria. Si eu fizesse tudo que faço, mais de trez mil
sonetos em menos de dez annos, num computador para cegos, fora os
romances, contos, artigos e columnas na imprensa, mas fosse nascido na
Europa ou nos States, com certeza ja teria apparecido algum Sartre para
me "canonizar", algum editor para bancar minha obra completa em
papel-biblia, algum cineasta para filmar minha vida, algum dramaturgo
para me transformar em peça theatral, algum director musical para me
thematizar na Broadway. Mas é assim mesmo, ser fodido no Terceiro Mundo
é mais heroico por causa desses aggravantes.





[6] Quais são suas referências literárias, o que mais te chocou e o que
não sai da sua cabeça em questão de arte?

GM: Dos referenciaes ja fallei muito, são aquelles maldictos de sempre,
de Villon a Genet, passando por Sade e Masoch, Bocage e Gregorio,
Aretino e Belli, mas o que não me sae da memoria visual é a scena de
"Laranja mechanica" em que o perdedor tem que lamber a sola de quem o
pune. Commigo foi assim desde menino, sendo eu victima dos moleques mais
saudaveis, por isso a scena tem esse gostinho especial para mim, que sou
perdedor assumido, o "loser" que só pode se vingar compondo sonetos.

 [7] Você pensa como Roberto Piva, "a poesia sempre será uma arte
minoritária"?
 


GM: Sim, sou amigo do Piva e discordo delle em muitos pontos, mas elle
está certo. Poesia é para um pequeno circulo de appreciadores meio
pirados, meio sonhadores, meio illuminados.
 

[8] Rimbaud dizia que "o poeta é mesmo ladrão de fogo". Octavio Paz já
acreditava que "a poesia é a subversão do corpo". Breton afirmava que
"poesia é a orgia mais fascinante ao alcance do homem". Álvares de
Azevedo dizia que "o fim da poesia é o belo" e Baudelaire que "a arte é
prostituição". Pra você o que é poesia?


GM: Ja defini a poesia como "uma metralhadora na mão dum palhaço". Pode
ser inoffensiva, mas nada nem ninguem está blindado contra ella,
principalmente si o "blind" é o proprio poeta... (risos)


[9] o que é a Morte pra você? Existe alguma salvação para a humanidade
ou cada dia mais declinará em sua podridão hipócrita e torturante?
 


GM: Tem que existir vida após a morte, claro. Sinão, como poderemos
cobrar pessoalmente de Deus, ou do Diabo (o que dá na mesma) tudo
aquillo que elle nos deve? Si elle irá pagar, ou si ainda seremos mais
taxados, ahi ja é outra historia...
 



[10] Por fim ( tudo merece um fim, até essa entrevista) o que você diria
para aqueles aspirantes a poetas que desejam publicar um livro mas não
sabem e não conhecem os meios para tal?


GM: Que façam como eu ou você, publiquem um zine. Comecei assim,
independente, e a persistencia sommada à qualidade mais a quantidade
mais o passar dos annos, tudo juncto, consolidará uma obra. O importante
é que o conteudo seja fiel à biographia do auctor. De phantasia está a
Disneylandia cheia. Outra coisa é não querer ser genio precoce, pois de
Rimbauds frustrados estão os presidios e manicomios cheios. Afinal, é
melhor ser bandido e louco do lado de fora, né mesmo? Ja basta a prisão
da cegueira, no meu caso, que aliaz é perpetua... (risos)

[outubro/2009]

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Parte  II



No ano que Glauco Mattoso completa sessenta anos de idade tive a honra de entrevistá-lo novamente. Já ultrapassando a marca dos quatro mil e quinhentos sonetos, esse guerreiro maldito fala de poesia, sadomasoquismo, drogas, deficiência visual, cultura alternativa, etc. numa sinceridade única. Mergulhem em suas idéias e em sua arte:

Sessenta anos de existência e boa parte deles dedicada à poesia. O
que há pra ser dito nesse ano atípico?

Talvez apenas mais queixas quanto aos problemas de saude, que vão
se accumulando. Mas, si a carne é fraca (e si fica velha), a cabeça do
poeta continua moleque, revivendo as aventuras da infancia.




A podolatria em sua obra é trabalhada insistentemente com a idéia de
se caracterizar como o dominante e não dominador. Essa podolatria
excessiva é apenas tema em poesia ou é algo de fato vivencial?

Não sei si foi isso que você quiz perguntar, mas, ao longo da vida,
tanto pisei como fui pisado, no sentido proprio e no figurado. Mas,
emquanto ainda tinha visão, às vezes eu podia escolher si levaria um pé
na cara ou si pisaria a cara de alguem, mas, agora que estou cego, só
posso lamber, bem lambido, o pé de quem queira me pisar... (risos)


"A planta da Donzela", releitura da "A Pata da gazela" de José de
Alencar é uma obra que descaracteriza a moral no romantismo. Qual o
impacto que a obra causou no mundo acadêmico e de que forma você encara
o sadomasoquismo?

O livro chegou a ser estudado até como these de philosophia em
Brasilia, e acho que voltará a ser assumpto quando a editora Tordesilhas
o relançar. Quanto ao sadomasochismo, eu o introduzi no livro porque faz
parte, de facto, da minha vida, ja que um cego vive sendo escravizado...
(risos) A proposito, a Tordesilhas é o sello que acaba de publicar um
livro meu de contos sadomasochistas chamado TRIPÉ DO TRIPUDIO E OUTROS
CONTOS HEDIONDOS, uma edição luxuosa, de cappa dura, mas que tem preço
de livro commum.



De que forma você concilia o paradoxo em sua vida e sua obra, que é
a raiz de toda sua literatura?

Nem sempre é possivel conciliar o mocinho e o bandido que vive em
cada um de nós, como o certo e o errado, o amor e o odio e outras
contradicções. Mas si a gente tem consciencia da incoherencia ja é
alguma coisa...

Em algumas seleções de poemas você duelou com jovens escritores como
por exemplo Danilo Cymrot e Leo Pinto. Nessas aventuras poéticas você
sempre estava no papel do massacrado e humilhado. A função dessa atitude
de subordinação masoquista se deve a que?

Isso é um reflexo do que rola na vida real. Às vezes sou
escravizado por moleques folgados, às vezes apenas desafiado
poeticamente, mas na litteratura não fico tão por baixo quanto na vida
real... (risos)

Saiu uma conversa (inclusive em um soneto você aborda esse tema) que
logo você vai encerrar sua carreira literária. Depois de quatro mil
sonetos não tem mais nada a dizer?

São quattro mil os que apparecem no site, mas agora ja passei dos
4500. Na verdade, fallei que ia me aposentar para que parassem de me
convidar a tantos recitaes, saraus, debattes, palestras e entrevistas na
midia, coisas que me estressam muito porque exigem minha presença nos
locaes mais diversos. Mas na practica é impossivel parar de versejar...
É como tentar parar de fumar, beber, comer chocolate ou tomar remedio...
(risos)


Como é para um escritor que valorizava tanto em sua arte o lado
visual perder a visão?

Comparo essa tortura à de Sansão quando foi capturado pelos
philisteus. Sinto-me um escravo à mercê dos algozes, prompto a dar-lhes
motivo para que tirem sarro às minhas custas, mas a poesia equivale à
fé e aos cabellos de Sansão, isto é, à força vital e creadora.

Na época em que divulgava seu fanzine, o "Jornal Dobrabil", época em
que ainda não existia a internet, quais eram as ferramentas para
divulgação de cultura alternativa?

Só o xerox e o correio, no meu caso, ou o xerox e a distribuição de
mão em mão, no caso dos outros poetas marginaes que frequentavam shows,
peças theatraes, etc., com risco de prisão, porque era epocha de
dictadura e qualquer um que pamphletasse podia ser accusado de
communista.


Qual sua opinião sobre a descriminalização, regulamentação e
legalização da maconha?

Tudo é questão de preconceito. A nudez nas praias e os casamentos
informaes, com filhos de diversos paes, ja foram coisas muito
condemnaveis e hoje são vistas com naturalidade. Os costumes sempre
antecedem as leis. Só fico puto quando um usuario me critica por ser
viciado em chulé. Porra, como é que elle quer ficar livre do
patrulhamento si elle mesmo patrulha o vicio dos outros? Cada um com o
seu! Uns cheiram pó, outros cheiram colla, outros chulé, ora! Uns gostam
de fumar baseado, outros de curtir um chulezinho basico...





Qual é a função da poesia?

Para mim, desabafar. Uma especie de exorcismo, de catharse ou de
therapia, como preferirem. De quebra, ella ainda diverte os outros, alem
de desreprimir o auctor...

Qual a sua opinião sobre a nova geração de poetas?

Não posso generalizar, mas muitos não teem a menor noção de
versificação. Não que seja obrigatorio, mas até os repentistas
analphabetos apprendem regras e macetes para serem bem acceitos entre os
cantadores e chordelistas. Desrespeitar regras é direito de todo poeta,
mas elles poderiam pelo menos deixar de serem preguiçosos e podiam
estudar um pouco de versificação, é o que eu acho.

Nesse ano foi aprovado a união homossexual. Quais as consequências
positivas que isso trará?

Como no caso da nudez e do divorcio ou dos segundos e terceiros
casamentos, a lei apenas vem regulamentar aquillo que ja é practicado,
mas sempre ajuda quando algo passa a ser previsto em lei.

Como você vê esse boom do fanzine que está ocorrendo atualmente com
muitas produções, filmes a respeito, blogs, etc?

Sempre fui a favor de qualquer revival, seja no rock, no cinema, na
litteratura ou na contracultura. Como no caso do vinyl e da victrola, o
velho zine em papel nunca será substituido por technologias digitaes,
mas sim complementado e compartilhado por outros meios.

O termo "poeta da crueldade" que transferiram para você, tem alguma
coisa a ver com o teatro do horror do Antonin Artaud?

Sim, claro. Mas não só isso? tambem com o "poeta da violencia" no
cinema, Sam Peckinpah, e com a ultraviolencia de Burgess e Kubrick na
LARANJA MECHANICA. São connexões que existem entre todos os auctores
sensiveis à deshumanidade do homem.

Ainda continuar acreditando no soneto?

Sempre. Como o musico actual acredita na sonata barroca ou o
rockeiro no rockabilly, ou o sambista no chorinho.

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terça-feira, 9 de julho de 2013

SOBRE MINHA PINTURA

(Por Diego EL Khouri)

“A minha voz persegue o que os meus olhos não alcançam”. Através das inúmeras vozes que falam através do pincel, oriento o traço nas cores vivas que bailam desnudas na contradição da vida intensa, na excentricidade delirante dos sentidos e sobretudo na subversão poética dos costumes que é a raiz das artes plásticas no mundo contemporâneo. A minha pintura aponta para vários caminhos. As cores fortes e os traços rápidos (por vezes lento e tranquilo, porém este em menor escala) rompem o equilíbrio das formas para atingir um nível em que uma figura sobreponha a outra dando texturas grossas e infectadas de imagens na obra. Vejo algo belo. O trágico perdendo sua veste e penetrando em temas não muito explorados nem no mundo das artes como a religião, a fé, dogmas, tradições, teorias, etc. Isso está bem claro no quadro que intitulei “A Igreja, o Clero e o Prazer”. O moralismo e sua face contrária se beijando. A hierarquia perigosa da religião ainda com cores quentes num flerte sempre presente com o sépia e o preto. A aurora, o nascimento, a explosão. O vermelho e o amarelo em excesso. Nisso muitos quadros casam. A fase agora é “alvorada embutida na tela”. Prato cheio para acelerar a corrente sanguínea dos receptores atentos e ao mesmo tempo lançar na mente dos mais afoitos a volúpia que se comunica com diversos temas e ideias mesmo que não seja explicito em todos os quadros. Sartre já dizia que o espectador traduz o sentido da obra de acordo com que consegue alcançar tendo em vista suas próprias experiências. Cada pessoa deve ser autor de suas visões. Delacroix já dizia que “a execução na pintura deve sempre ter improvisação”. O fim não necessariamente deve ser igual ao começo. Mesmo antes de me formar alguns anos atrás na turma técnica de Artes Visuais Basileu França e expor em vários locais já produzia intensamente meus desenhos e quadros, vendia e participava de exposições. Agora o momento é das cores quentes, vibrantes, com pequenas camadas de nebulosidade e escuridão; o mistério na pele exposta. O paradoxo como raiz. Edifício em escombros – outra imagem contida nas telas. Disse numa entrevista que concedi em março de 2010 para Law Tissot do Rio Grande do Sul que grande parte do meu processo de criação “ é contra o sono, o marasmo e o pensamento reacionário” e que a “ arte tem que fugir do lugar comum e da mesmice.” Ainda concordo com isso, mas prolongo esse pensamento dizendo também que arte é a beleza plena andando na corda bamba sem medo algum. “É preciso dar o sangue”. Estar ligado com seu tempo. Ousar, sentir, subverter, implodir e explodir. Millet estava certo. Na arte não há espaço para covardes e minha pintura é o retrato vivo dos olhos que lacrimejam sem medo, do carinho terno das manhãs sem pudor e o beijo colhido na poesia feroz e delirante de alguns pensadores.


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terça-feira, 11 de junho de 2013

Coletivo Zine 2 - A prévia

Finalmente saiu uma prévia do Coletivo Zine 2 !!!! O tamanho dessa prévia já demonstra o motivo da demora. Temos mais de 90 páginas por enquanto. Colocamos material de todas as pessoas que enviaram algo desde o fechamento do nº 1, em ordem cronológica. Portanto, tem colaboração que tava aguardando há mais de ano. Destaco que essa é uma prévia, não é o zine definitivo. Quem não enviou nada nesse período e quiser participar, ainda dá tempo. Quem enviou e quiser trocar por outro material, também sinta-se à vontade. Peço então que todos os colaboradores vejam se está tudo correto em relação a suas colaborações, se seu nome está na capa, etc. Detectando erros, gritem. Sugestões de mudanças são bem vindas.
Mandem opiniões e sugestões para a versão final do zine:
 - Fazemos uma mega edição com muitas páginas, como está por enquanto? Ou dividimos esse material em duas edições?
- Teremos tiragem impressa coletiva como foi feita no nº 1? Ou lançamos como zine virtual e cada um imprime de acordo com suas possibilidades? Quem tem interesse a princípio de dividir os custos de impressão para uma tiragem maior?
Vamos debatendo essas e outras questões que surgirem, participem aqui pelo blog ou no grupo do facebook: https://www.facebook.com/groups/333871386651933/ 
Segue o link da prévia, por ele dá pra baixar ou visualizar online:
http://www.mediafire.com/download/76m9lfpc96ati6k/coletivo+zine2+previa.pdf


sexta-feira, 7 de junho de 2013

PUTRECRÔNICAS

Há tempos atrás idealizei e comecei a escrever uma série sobre zumbis. Conforme esse tema foi se tornando cada vez mais clichê e utilizado exaustivamente pela TV e no cinema, desanimei e engavetei a obra. Mas agora decidi retomar esse projeto porque essa série zumbi será bem diferente do que já foi feito até hoje. Então, em primeira mão no Coletivo Zine, segue o capítulo de introdução das



Relatos da decomposição humana


Por: Wagner Nyhyw

PÁGINA 1 – A VERDADE DA CARNE


O homem sempre fez questão de deixar uma marca para a posteridade. Um registro, uma nota, uma história. Não sei bem o motivo, mas seja qual for, é essa mesma razão que me leva a escrever estas palavras tortas, essa narrativa sangrenta e cataclísmica, mas verdadeira e desesperada. Muito provavelmente ninguém jamais lerá esta missiva. Creio que a própria língua que ainda conhecemos e utilizamos em breve se perderá. Não importa. Ao escrever, tenho uma sensação de dever cumprido. Dever no sentido de relatar o que aconteceu e está acontecendo. Como já disse, não sei bem por que sinto esse dever. Acho que é a única coisa que posso fazer agora. O único legado que deixarei antes de partir.

Como aconteceu não é importante. O porquê é facilmente deduzível: a estupidez humana. Não poderíamos ter outro desfecho. Vamos então ao depois.

Vou contar a primeira vez em que vi um Deles.

Quem eu sou, o que eu fazia, onde eu morava, não importa. Tudo que eu vivi antes daquele dia é apenas um borrão na quase inteiramente apagada história humana. Minha primeira lembrança relevante é o noticiário, algumas semanas antes. Não me pergunte que dia e horas eram, nem se era dia ou noite, pois o tempo agora é apenas uma ponte entre estar vivo ou estar morto. Aquela notícia na TV! Mortos andando pelas ruas! Os famosos zumbis dos filmes de terror. Mas não era Fome Animal ou Evil Dead que passava na TV, era o noticiário. Claro que ninguém levou a sério. Alguma montagem, como tantas outras. No máximo, adolescentes fantasiados querendo assustar idosos. Mas as mortes... aí começou a ficar sério. A imprensa alardeava se tratar de um culto demoníaco, uma espécie de zumbilatria satanista. Praticantes de magia negra, jogadores de RPG e fãs de heavy metal extremo haveriam se unido em uma seita homicida e monstruosa.
Bem, assassinatos e psicopatas fazem parte do cotidiano moderno, então aquela era apenas mais uma notícia, real ou montada, como tantas outras que se espalhavam pelos meios de comunicação. Seguia minha vida normalmente até aquela noite em que caminhava pela vizinhança. O bairro era muito sossegado, residencial e habitado por famílias pacatas, assim me assustei ao passar frente à casa de Hygor. Tremenda barulhada vinda da garagem, aparentemente muitos objetos caindo ou quebrando. Quando distingui a voz de Hygor, praguejando aos berros, imediatamente corri pra lá.

A porta da garagem estava apenas encostada, assim adentrei, cautelosamente. Sob a luz bruxuleante, demorei um pouco pra distinguir o que ocorria. Entulhos e inutilidades diversas decoravam o ambiente, mas bem ao fundo, estava... lá estava...

Sim, é isso mesmo. Era um Deles.

 O forte cheiro de carne podre turvava meus sentidos, mas ainda assim cada detalhe daquela imagem impressionante era gravada em minha mente de forma permanente, como uma escultura sendo moldada na rocha. A pele enegrecida, meio esverdeada, ressecada e rachada como a de um réptil. Rosto assustadoramente deformado e inchado, cheio de bolhas purulentas. Dezenas de minúsculas larvas passeavam por sua face, principalmente nas órbitas dos olhos, já meio afundados para o interior do crânio, cobertos por uma espécie de tela viscosa esbranquiçada.

Hygor acabara de prender seu braço esquerdo a uma corrente e o empurrava para trás violentamente. Ao me ver, chamou para conferir de perto aquele ser inexplicável e, bastante excitado, narrava como o encontrou e capturou.

Entrementes, eu não prestava atenção. Hipnotizado por aquilo que não podia ser uma montagem, não podia ser uma peça, não estava na tela de uma TV ou computador. Estava na minha frente. Ao vivo. Ou ao morto, não sei bem.  A criatura pareceu me ver, embora seja difícil acreditar que aquelas órbitas semivazadas ainda sejam capazes de enxergar qualquer coisa. Mas é fato que com minha aproximação virou o rosto monstruoso em minha direção e abriu a boca. Estaria tentando falar? Mas dali não saiu sons, apenas uma baba pastosa e escura, enquanto um fluido tipo mingau cor de argila escorria pelas narinas e pelos ouvidos. Seria seu cérebro? Lentamente, estendeu o braço direito, livre, enquanto arrastava as pernas, tentando se aproximar de mim. Mas sua mobilidade era limitada, até o limite da corrente presa na parede.

Caminhava vagaroso, até onde sua cadeia lhe permitia. Cada gesto parecia um grande martírio. Aquele trapo humanóide soava como um lamento da natureza. Mas não era de todo ruínas. Naquele momento pude ver o incrível contraste entre seus lábios putrefatos e os dentes intactos, portentosos, impressionantemente brancos. Além disso, ainda apresentava vasta cabeleira, madeixas negras, longas e lisas. E o que dizer das roupas? Eram de qualidade muito melhor do que as minhas. Camisa e calça social de alto padrão. Sujas e surradas, é verdade, mas ainda conservadas, assim como os luxuosos sapatos de couro. Bela roupa, encobrindo o restante daquele corpo decadente em desintegração. Somente através dela pude ter certeza de que se tratava de um ser humano do sexo masculino, ou mesmo de que se tratava de um ser humano, tal era o nível de deformidade das partes não cobertas pelas vestimentas.

Deve ter sido alguém importante em vida, talvez um podre de rico. Mas ali, naquele derradeiro dia, naquela garagem-túmulo, era só podre.

Apesar da podridão, o corpo cambaleante não apresentava nenhum sinal de violência ou de ter sofrido qualquer agressão. E embora fosse impossível ter noção precisa de sua idade, não aparentava ser muito velho. De que teria morrido então? Ataque cardíaco? Câncer? Teria mesmo morrido? Sim, claro que morrera. Não poderia apresentar aqueles sinais de putrefação estando vivo. Não podia estar vivo, mas se mexia.

Ainda esticava o braço em minha direção quando Hygor o afastou violentamente com uma pá. Lentamente, recuou, assustado.

 - Viu que criatura asquerosa? Está ansiosa por nos atacar e devorar.

Finalmente consegui gaguejar algumas palavras, ainda espantado: - Hygor, é melhor chamarmos a policia.
- Que mané policia, o próprio governo deve ter criado esses monstros para matar moradores de rua, marginais e desavisados.

Chuta uma lata vazia que acerta a perna do morto-vivo, que se contorce, não sei se por dor ou medo.  - Aberração nojenta - ainda completa, soltando uma cusparada sobre o animal acuado no canto.

- Hygor, você não pode deixar isso preso aqui. Vou chamar alguém.

- Ei, ei, calma aí, você não vai a lugar algum.

Eu já me dirigia à porta, mas rapidamente Hygor bloqueia meu caminho. – Acho que vou deixar você aqui, o monstro deve estar com fome – ri, zombeteiro.

Impaciente, tento forçar a saída – Isso é sério, porra, sai da minha frente. – Mas ele é forte e me segura, me empurrando de volta pra trás. – Daqui você não sai, não vai me tirar meu novo animal de estimação.

Na tentativa de me libertar, acabo acertando uma violenta cotovelada na boca de Hygor. Não tinha intenção de agredí-lo com tanta força, mas a ira do momento gerou uma reação desproporcional. Ele coloca a mão sobre o beiço inferior, irrompendo sangue em profusão.  – Meu dente. Filho da puta, você quebrou meu dente. Vou te matar.

Ataca furiosamente. Me acerta vários socos. Tento me defender, mas não tenho chance, ele é muito forte. Vou ao chão com os impactos. Completamente transtornado, Hygor se atira sobre mim e fecha as mãos sobre meu pescoço, apertando insanamente. O ar começa a me faltar. Sinto os sentidos me abandonando. Em desespero, tento falar, mas já estou sufocado. Só penso no fim. Até que repentinamente a pressão afrouxa. Vejo a imagem turva de hygor, assustadíssimo. E do seu lado... do seu lado... O cadáver ambulante... com a mão em seu ombro.

- C-como... como escapou? - Dá um tapão violento naquela mão grotesca de pele escamosa e unhas descolando e recua. - Tire a mão de mim, assassino maldito.

A criatura parece ficar meio desconcertada, como se estranhasse a violenta reação de Hygor. Cambaleia para trás. Chama então a atenção um volume crescente dentro de sua calça social, como se um novo membro estivesse brotando no meio de suas pernas. Em outras palavras: uma ereção. Como se não bastasse aquela situação já horripilante, ele ainda estava tendo uma ereção.

- Mas o que é isso? Bicho maldito. Quer nos foder antes de comer?

Aquilo enfureceu Hygor ao extremo do extremo. Pegou uma barra de ferro no meio das tralhas e partiu enlouquecido pro ataque. Em sua vagarosidade e dificuldade movimentar, o defunto não tem nenhuma chance de esboçar uma defesa. Hygor desfechou um primeiro golpe certeiro na volumosa região escrotal do infeliz, que explodiu como um balão.

Somente tempos depois descobri que aquela ereção na verdade era uma reação absolutamente normal de um cadáver. Não era provocada por dilatação de veias sanguíneas, mas por gases bacterianos que se infiltram no interior do corpo. Como a pele do pênis é frouxa, ela estica pela descarga gasosa. Só isso. Absolutamente normal e involuntário. Assim, aquele pau duro era apenas um balão cheio de gás, que explodiu ao ataque de Hygor.

O coiso não pareceu ter sentido qualquer dor, aparentava apenas uma expressão nula, de não entender o que estava acontecendo. Já Hygor continuou o ataque. A barra desabou a seguir sobre o crânio do pobre desmorto, atingindo o lóbulo esquerdo. Pedaços da cabeça, de uma massa quase líquida que devia ser o que restava de seu cérebro e sangue coagulado voam pelo recinto. Rapidamente, novo golpe no lado direito da cabeça, que afunda como um balão murcho. O belo couro cabeludo se solta e flutua pelo ar acre.
Os golpes não pararam, acertando tórax, pernas, braços e tudo mais daquilo que um dia fôra um ser humano.  Debaixo das roupas caras, o sangue coagulado escorria como uma goiabada, concentrado principalmente nas costas e membros. Logo, o zumbi desabou ao chão e diante da surra implacável rapidamente se transformou em uma gelatina disforme de carne e sangue e ossos partidos. Conforme o corpo era arrombado pelos golpes, vermes e colônias de larvas escorriam de seu interior, assim como uma escura massa pastosa castanho-cinza, de fedor indescritível.

Nesse momento não suportei mais aquela cena horrenda e ao desviar o olhar para o canto do recinto notei a mão esquerda do defunto, caída junto à corrente que o prendia. Então foi assim que escapou, desmembrando os pedaços de carne e ossos frouxos.

Hygor só parou quando não restou mais nada para bater além das roupas de grife e matéria orgânica já em estado líquido. Sorriu vitorioso, virou-se pra mim e ainda segurando a barra de ferro coberta de sangue, tripas, substâncias corporais diversas e restos de vermes, agarrou meu braço com a mão livre e levantou-me com firmeza.

- Está vendo? É isso que queria deixar por conta das autoridades? Ia estuprar e matar nós dois, sem hesitar. Se eu não tivesse agido rápido, ia nos pegar de surpresa, e aí não teríamos chance, meu caro. Pode me agradecer, e considere-se um cara de sorte.

Ainda sem conseguir falar, olho praquela sujeira podre e fétida esparramada pelo piso, que até há pouco ambulava em minha direção e parecia me encarar com curiosidade. Fixo na sequência a barra ensanguentada a minha frente. Sinto minha garganta, ainda latejando. Lembro das estranhas mortes em circunstâncias misteriosas noticiadas pela TV. É, creio que Hygor está certo. Sou realmente um cara de sorte.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Zine Artistas do Underground #3

Zine Artistas do Underground #3 - Saiu finalmente a 3° edição do zine. Desta vez com mais participantes (24) Artistas. Corra para o e-mail pennybeat@gmail.com e peça o seu por um preço super-acessível. Exemplares limitados, tiragem de 50 unidades. 
        Zine - Artistas do Underground #3
        Tamanho A6 
         páginas: 28 
         24 ilustrações, uma de cada participante. 
                               

                           Veja outros zines on line pelo link "Underground"

                                                                 Enjoy it!      

domingo, 7 de abril de 2013

"Infinity Circle Return"

Infinity Circle Return nanquim n° 04 F/A4 (edição de cores CDW 12)


O futuro morreu há muito tempo 
Nos sonhos bêbados cansados 
Nos braços de punhal em sangue 
Apenas componho feridas 

No poema-faca ! Corta-se !
Do interior o vômito imagético
Deixo transparecer o lado negro
O lado da tortura intravenosa

Os Lábios estão secos 
O corpo está seco 
A vida está seca

Tudo é uma eternidade
No agora infindo do ontem
Visões dementes e Vazias...

domingo, 31 de março de 2013

"The Freak Picture"

"The Freak Picture" nanquim n° 04 F/A4 (edição de cores CDW 12) . 
     As anomalias da mente transfiguradas. "Quando nada permanece oculto..." 

Veja este e outros insanos na minha FAn-page: facebook.com/davidbeatzines

segunda-feira, 4 de março de 2013

O intruso ( Parte I )


  O trânsito era lento na avenida e dava para observar tranquilamente as gramas da ilha balançando. Dentro daquele homem existia mais do que um homem voltando de mais uma entrevista de emprego, ele abrigava centenas de ideias intrusas,  amores forçados e nojos encubados. 
    Chegando em casa notou que ninguém aguardava seu retorno, caiu em si. Sentiu-se um enorme transtorno.  A Paz  para ele agora  encontrava-se em lugares ou em recantos só dela sabidos. Olhava para as ruas e as pessoas tinham fugido, e fingiam que era apenas pressa. O intruso era ele, e não se mostrava intimidado por atirar-se no desconhecido. Ele tentou ser desejável por um tempo, agora ele quer apenas passar a vida antes que ela passe por ele como um carro de corridas passando os outros para trás.
    Decidido a fazer tudo diferente os sofrimentos inerentes as mudanças começaram a surgir. Mudar é de certa forma anular algo que existe em si. O intruso já não sentia falta da manhã nebulosa com cheiro de pão fresco e café com adoçante. Agora ele sentia o leve peso do seu corpo flutuar sobre a existência ( que segundo ele já não fazia sentido). Acendeu um cigarro como se sua alma fosse sair pela boca. O que incomodou bastante sua mulher

  - Já vai começar com mais uma mania nojenta e insuportável  Felipe? Um vicio para a idiota da sua mulher sustentar, né?Joga fora esse cigarro e vá lavar as mãos, as crianças estão chegando.

   Como lhe era agoniante aquela mulher lembrando que ele não tinha condições de sustentar um vicio. Que ele não passava de um intruso naquela casa. Um broxa, um incompetente.  Havia falhado na missão de ser marido, e ao observar a mesa posta, os netos chegando, os filhos com cara de empregados perante suas esposas, e as esposas com cara de poucos amigos concluiu que a vida tranquila escondia tanta bagunça. A vida familiar era como uma casa aparentemente arrumada, mas  em uma casa sempre existe uma gaveta onde se esconde as bagunças

 - Vão se ferrar todos vocês, vocês são monstros,  e ao mesmo tempo babacas. Isso aqui, essa família não passa de uma farsa. Eu vou embora!
   E desse modo Felipe interrompeu o almoço de domingo, jogando talheres ao chão enquanto os filhos tentavam segura-lo a força.
    Sentiu uma pancada na cabeça e acordou amarrado dentro de uma ambulância, queria muito perguntar para onde ele estava sendo levado, mas a mordaça o impedia.
    Um tipo de medo pairava o olhar do enfermeiro que o acompanhava nessa bizarra procissão até o Centro Espirita de Saúde Mental, onde ele passaria um longo mês por indicação de sua esposa e filhos, que disseram aos especialistas que se tratava de ‘‘ mudança de personalidade e agressividade’’

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Proposta de capa - Coletivo Zine 02

Não se enganem, a edição 02 do Coletivo Zine irá acontecer! Como é uma produção coletiva, tudo caminha mais lentamente, de acordo com a disponibilidade e interesse dos participantes, mas vai caminhando. Segue proposta de capa do Jackson Abacatu, que também está montando a edição. Todos são sempre convidados para sugestões, comentários e propostas alternativas.


domingo, 16 de dezembro de 2012

LUZ PENETRANTE



(Por Diego EL Khouri)

          I
A visão pálida a vislumbrar todas as estrelas
brilhantes que rasgam o céu
mulher  de pele desguarnecida 
arrebol e nuvens que transam
penetrando cores e desenhos

 sentinelas a perscrutar  o frêmito
do tempo  na alvorada reluzente
e pergunto a quem pode
corromper na resposta
todos os ensinamentos tolos  da vida

e pergunto e não tenho saída

ébrio que bebe o mijo
dos antigos surrealistas
para mascarar  a viagem
em dia e noite
o sol a brilhar a praia
espuma branca
e o cheiro da cannabis
que envolve e chama


e pergunto e não vejo saída

apenas a luz
de seu olhar penetrante
a forma como anda
e transparece uma malícia radiante
pura poesia boba
copo de cerveja pela metade
lábios  unidos em volúpia
porre em noite enluarada
a solidão do quarto
e uma mijação sem parar que não acaba


por que olho e não reparo
as cicatrizes que desenham sua face?
caminho da praia sua casa
em todo bar e sarau te encontro
mas prefiro zonas vulgares
rainha alada, saiba que o poeta
nasceu para xingar-berrar-gritar
romper limites e barreiras
é o que eu  tenho falado

e não veja em mim uma saída
nem me roube  todo pecado


          II


São olhos, olhos de intensa luz...
Brilho inefável que não cessa...
Um bocejo aqui e logo ali a janela
a suspirar lembranças de amor...
Uma gota de orvalho nas pétalas.

Tudo tem começo, meio, fim.
Comigo foi tudo muito rápido enfim.
Pássaro sem asas caído por aí
jogando-se em becos e bares
bebendo até a última gota do barril.

Comigo foi tudo muito rápido sim.
Muito rápido enfim.
Tudo muito rápido sim.
Muito rápido enfim.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

POEMA ESCRITO E DECLAMADO POR DIEGO EL KHOURI E NO VIOLÃO IVAN SILVA



DOUGLAS HONÓRIO HIPPIE

(Por Diego EL Khouri)

douglas bêbado atravessa a esquina
seus olhos se escurecem na avenida
douglas sóbrio toma estre-quinina
seus olhos se entorpecem na clínica
douglas católico reza na latrina
seus olhos atravessam a avenida
douglas católico reza na latrina
seus olhos atravessam a avenida
douglas monódico anda sozinho
seus olhos não enxergam um amigo
douglas honório mora sozinho
seus olhos aprisionam o abrigo
douglas menino vive perdido
seus olhos no amor tem se esquecido
douglas honório bêbado na esquina
seus olhos nbão reconhecem a avenida
douglas farofeiro invade as esquinas
seus olhos protegem a mochila
douglas hippie está com larica
seus olhos procuram muita comida
douglas hippie está com labirintite
seus olhos não tem mais vinte
douglas hippie está na velhice
seus olhos parecem dois alpistes
douglas bêbado toma a sua pinga
seus olhos na cachaça se abrigam
douglas no flower power insiste
seus olhos no amor ainda persistem
douglas hippie atravessa a esquina
seus olhos se escurecem na avenida
douglas hippie estatelado na esquina
seus olhos enxergam o carro em cima
douglas hippie perdeu sua vida
seus olhos embrulham toda a utopia.