O COLETIVO ZINE É UMA AÇÃO CONJUNTA. A PROPOSTA É REUNIR DIVERSOS FANZINEIROS OU CRIADORES INDEPENDENTES E PRODUZIR UM TRABALHO COLETIVO. CADA PARTICIPANTE CONTRIBUI DA FORMA COMO PUDER, SEJA NA CRIAÇÃO, MONTAGEM, EDIÇÃO, ADMINISTRAÇÃO, DIVULGAÇÃO, DISTRIBUIÇÃO. O IMPORTANTE É SOMAR ESFORÇOS. E ASSIM MULTIPLICAR A DIVULGAÇÃO DO TRABALHO DE CADA AUTOR E DIVIDIR O TRABALHO. SE DER CERTO,CONSEGUIREMOS CHEGAR A NOVOS LEITORES QUE JAMAIS CONHECERIAM NOSSO MATERIAL SE O PROMOVÊSSEMOS ISOLADAMENTE. E NA PIOR DAS HIPÓTESES, AO MENOS TEREMOS UMA DESCULPA PARA INSANAS FESTAS DE CONFRATERNIZAÇÃO E LANÇAMENTO DE ZINES. ENTÃO, MÃOS À OBRA. MISTURE-SE.

domingo, 14 de maio de 2017

AVANCE

Por: Alexandre Mendes



salário sem sal
há pouco o que fazer
parafuso
ou porca
escolha o seu caminho
nunca lhe dizem
que podes sozinho


ser uma peça
pedaço de um todo
engrenagens nem sempre
estão funcionando
pessoas nem sempre
sabem que estão
sendo tapeadas


agora jaz...
um mundo espelho
puro ping-pong
cigarros marlboro
Popeye, King Kong
atenção para a curva
seja esperto
 e não a faça

TRÊS POR UM


Por: Alexandre Mendes

  Abri meus olhos bem devagar. As vistas pareciam coladas, evidenciando uma boa noite de sono...Espera aí! Que cama é essa? Hum...macia! MACIA?Que cama é essa?
  Estava em um lindo e espaçoso quarto, preenchido por uma televisão gigante, tela fina: Um cinema! As paredes que conjugavam o cômodo eram repletas de livros. Levantei da cama e caminhei até uma das prateleiras: "Cem anos de solidão...Manual de medicina". Te juro, não acreditei. De repente, aprendi a ler!

- Juciney, acorda! - A voz vinha de outro cômodo da casa onde me encontrava. 
  Caminhei em direção ao apelo. Em uma sala gelada pelo ar condicionado, um senhor de bigode, terno e gravata, me fitava com uma chave na mão. 
 - Vai com a Pick up para a faculdade que, hoje, eu irei de Mitsubshi para o escritório.
"Pick up? Mitsubishi? Faculdade? Será que esse coroa é o meu pai? Puxa, eu nunca tinha visto ele!" Fixava-o, atônito. - Filho, você está bem? Margarida já botou o seu café.- Dizia ele.

  Sentei na poltrona macia e fechei meus olhos por um segundo. O homem que se passava por meu pai tocava em meu ombro, carinhosamente. - Filho...vai se atrasar para a aula! Filho...filho... - A voz foi mudando o tom lentamente. O toque em meu ombro tornou-se um sacudir grosseiro.
 - Filho...filho...Ô, FILHO DA PUTA! LEVANTA, PORRA! O almoço acabou!

  Abri os olhos de verdade e voltei para a minha realidade. Levantei do chão, forrado com papelão; Guardei o pote vazio (que improviso de marmita na mochila); forrei novamente a cabeça com o pano velho e carreguei os quatro sacos de cimento até o círculo de areia: A medida do concreto era de três por um.

DI PEDRA


Por: Alexandre Mendes

A rocha que bate em meu peito
foi lapidada por um sujeito
que um dia eu chamei de pai
brincou comigo, me levou pra passear
e se esqueceu de tudo isso
no meu primeiro barbear

nunca mais foi o mesmo
eu, de pé na estrada
e ele, de carrão
quase um filho bastardo
em pé no semáforo,
mariolas na mão

-Não sobrou nada,
caro estranho, nada,
nada pra você
vai virar concreto em obra
não reconheço o teu cheiro
tenho mais o que fazer!

Na minha rocha
não há mais espaço
nenhuma brecha
pra aquele que me gerou.

IRMÃOS METRALHA

Por: Alexandre Mendes


Eu encosto                   Eu esmiuço                  Eu acudo
Tu intimidas                  Tu divides                   Tu sangras
Ele rouba                     Ele discorda                 Ele foge
Nós corremos              Nós brigamos              Nós apanhamos
Vós chorais                  Vós  atirais                  Vós algemais
Eles socorrem               Eles deitam                  Eles aplaudem

Ao Filho da Exclusão

(Em homenagem a Diego El Khouri)

Por: Alexandre Mendes

Artista desconhecido
o presente, presenteia-o
com o fogo dos céus do Olimpo
trazido por Prometeu
Não te aborreças por Heitor
e a Tróia fragilizada
a peleja irá começar
desembainhe a sua espada



Será belo o dia
em que todos os seres 
e também os não seres
decifrem as tragédias 
que contam em seus dizeres
palavras de sabor trazido das vinícolas
Baco pelo palco a rolar
contemporânea atitude maldita
Sofrer por amor, jamais odiar


Filho...Tu és filho da Exclusão
chinelo remendado de arame
blusa rota de furo sovaco
unha nua na ponta da meia
estômago de infinito buraco


Exclua o filho...
pois deve-se respeito ao pai
Atenas um minuto de silêncio
amor a sabedoria 
e nada mais

Perdi o sono

Por: Alexandre Mendes


  Era exatamente três horas da tarde. Aguardava a chegada do ônibus no ponto, observando as nuvens que se formavam no céu. Meu corpo cansado, depois de uma manhã inteira de trabalho, bamboleava pedindo um belo almoço e uma cama. O local onde eu estava é considerado um centro comercial, margeado por favelas de todos os lados. Os transeuntes e clientes desse centro são na maioria, moradores dessas comunidades. Os trabalhadores locais que moram em outras regiões estão em menor número, mas quando somados a maioria que perambula pelos bares e lojas locais, naquele horário, fazem lembrar um formigueiro.
  De repente, a minha distração com as nuvens foi interrompida por uma cena inusitada que se desenrolava na minha frente e na de centenas de pessoas que transitavam por alí. Um jovem que se encontrava abraçado em um poste, com todas as suas forças, implorava pela sua vida. Enquanto isso, cerca de seis homens o surravam severamente, tentando levar o rapaz para outro lugar. Uma aglomeração de observadores se formou ao redor, mas, como a maioria daquele público já está acostumado com aquele tipo de situação, dentro de suas devidas comunidades, nada fizeram. Aliás, a multidão só parou para observar porque alí é o centro. Quando esse tipo de coisa acontece dentro da comunidade, o morador normalmente finge que não está vendo.
  A minha pressão sanguínea começou a ficar alta e fui impelido a acender um cigarro: Um dos homens achou um paralelepípedo perdido dentro de um canteiro próximo e começou a bater no rapaz com ele. Foram dezenas de pancadas com a pedra na cabeça, nuca, costelas etc. Parecia não adiantar de nada, pois a vítima, que já expelia sangue pela boca em abundância, ainda implorou por um bom tempo que não o matassem. Uma ideia maligna de seu carrasco pôs fim a questão: Uma pancada muito forte em seu pé descalço o enfraqueceu completamente, fazendo com que largasse o poste. Os homens enfiaram o rapaz em um carro e partiram na direção de uma das favelas próximas.
A essa altura, eu já tinha perdido o sono e acendido o segundo cigarro. Após o ocorrido, fui informado por um conhecido que passava, que a vítima foi acusada de "dar volta" nos outros, dentro da comunidade onde mora.

Sol e Lágrimas - Cap. I

Por: Alexandre Mendes



O sol ainda não tinha nem começado a nascer e lá estava Alcebíades, colocando as botas para o trabalho na lavoura. Sua esposa, Dona Adenaide, carinhosamente apelidada pela vizinhança de Nonó, preparava o café na cozinha para ele. - Saco vazio não fica em pé muito tempo, não! Come um pão com manteiga, antes de sair. Toma aqui sua marmita.
Alcebíades colocou o almoço na mochila. Levava algumas ferramentas em uma bolsa de pano, pois se as pusesse na mochila, poderia virar a marmita e o pobre do lavrador não comeria mais nada até chegar em casa, por volta das nove da noite. A viagem da roça de Seu Sebastião, onde ele trabalhava, até sua casa demorava duas horas a pé.  
Sua maloca, de teto de palha e paredes de barro e bambu, fora construída por ele e Nonó em meados de 1975, quando eles se casaram. Lembra ele, a alegria que foi quando terminaram de construir o casebre. Compraram uma garrafa de aguardente, do mais barato que tinha na barraca de Seu Jonas. Se embebedaram, logo depois que Alcebíades acendeu a lamparina. A esteira de palha ainda era a mesma da noite de núpcias. 
Quantas lembranças Alcebíades teve no percurso até a roça de Seu Sebastião, enquanto cortava atalho pelas picadas na mata, para chegar mais rápido. 
Duas horas depois e lá vinha ele entrando pelo portão de arame farpado da roça de milho em que trabalharia naquele dia. 
Seu Sebastião era um homem muito rico e poderoso na região de Iporangaba. Seus capangas eram muito cruéis e quem saía do ritmo do trabalho estava sempre passível de ser toturado ou morto.
- Bom dia, Seu Manoel. - Retrucou para o velho porteiro.
- Bom dia. - respondia ele. Aquela cena já se repetia há anos. 
O velho agricultor se dirigia até o barracão das ferramentas principais, para iniciar a execução do trabalho.


Enquanto isso, Nonó preparava um guisado de carne de porco do mato e sopa de milho. Sabia que aquele prato era o preferido de Alcebíades.


Foi um pouco antes das duas da tarde que Alcebíades abriu a marmita, sentado embaixo de um pé de camboatá. O sol não estava tão forte e só a sombra do milharal já fora o suficiente para o descanso de Alcebíades.


Não havia acabado de comer ainda, quando Olivença, um dos capatazes do seu senhor, ordenou que o acompanhasse até a casa da fazenda. - Velho, o patrão quer falar com você.- Alcebíades engoliu a seco, pois sabia que nenhum trabalhador, quando convocado a ir até a fazenda, voltava para contar estória.


Não percam o próximo capítulo. 

Sol e Lágrimas - Capítulo II


Por: Alexandre Mendes



O percurso do milharal a casa grande foi muito árduo para Alcebíades. Ele, um senhor de sessenta e dois anos, caminhando a passos largos pela estrada de terra: o capataz a cavalo, ele a pé. Sua botina fazia um ruído engraçado, devido ao suor. Sua respiração parecia mais um barulho de trem desgovernado e seu corpo transpirava horrores sob o sol de quarenta e cinco graus.
 Após meia hora de viagem, os dois chegaram ao portão principal da casa. Olivença ordenou que Alcebíades parasse. Desceu de seu cavalo e o amarrou na cocheira. Alcebíades aproveitou e sentou no chão de terra: estava realmente cansado disso tudo.
- Levanta! - Disse Olivença, que não tirava a mão da pistola na cintura, nem por um instante. – O patrão quer falar com você.

- Você sabe qual é o assunto? – Perguntou o velho, ainda ofegante.
-Não sei, não. Isso é entre você e ele. – Respondeu o capataz.

Caminharam até a escada central. Olivença o mandou subir na frente, com a pistola na mão. Ele tinha ordens expressas de seu patrão para atirar em qualquer indivíduo que fosse contrário a suas ordens, dentro do perímetro da fazenda- seu reino- diga-se de passagem, o que significava para Seu Sebastião, a sua fazenda.

Subiram a escada de madeira da entrada principal: o ranger dos seus degraus era bastante sonoro. Se detiveram ao chegar em frente a porta dupla de madeira de lei. Os ornamentos da sua face externa eram maravilhosos. Olivença bateu a argola de um dos touros de prata, que encontravam-se encravados no centro superior de cada porta. O estalar da chave girando na porta, foi imediato. Uma senhora de estatura mediana, com um longo lenço colorido e desbotado, abriu uma das portas. – Entrem. O Sinhô quer ver vocês.

Adentraram o salão da casa pisando, estrondosamente, sobre o piso de tábua corrida. A poeira de suas botas fez uma trilha no caminho. Pararam em frente a uma porta de madeira. O azul da sua última pintura era quase invisível.
A velha empregada bateu na porta e aguardou a resposta. Uma voz aguda se pronunciou do interior do cômodo. – Entrem. – Alcebíades não teve dúvida: era a voz de seu senhor. Já tinha ouvido esse timbre de voz apenas duas vezes em sua vida. Uma vez, quando pediu abrigo e trabalho na fazenda, e outra, quando teve que clamar pela vida de seu filho, o inconseqüente Odimar. O rapaz, que naquela época tinha apenas dezesseis anos, havia sido condenado a castração pelo velho Sebastião. Seu crime: praticar sexo com os animais da fazenda. Alcebíades lembrou de como bebia pinga, durante aquele trágico período de sua vida. Seu filho lhe dera muito trabalho até aquele dia.

Continua...

Sol e Lágrimas - Cap. III

Por: Alexandre Mendes

  
A sala de Seu Sebastião parecia mais um cômodo de filme terror. Diversas cabeças  empalhadas de animais enfeitavam as paredes do lugar. A mesa de Seu Sebastião era adornada nas laterais, com desenhos e símbolos desgastados, indecifráveis por causa do tempo. Em cima dela, um telefone preto bem antigo, daqueles que fazem barulho de sirene ao tocar.Um cinzeiro preto de madeira, repleto de bingas de fumo de rolo era usado como peso de papel, no centro a mesa. Uma escarradeira de prata fazia parte da decoração, ao lado direito da cadeira do seu senhor. 
Aliás, o que se via no interior do aposento era apenas um velho sentado atrás de uma mesa. Para Alcebíades, a cena representava o capeta sentado em seu trono, no inferno.
- Muito bem, Olivença. Pode deixar o matuto aqui. Vai te embora. 
- Sim, sinhô. - Disse o capataz, tirando o chapéu com a mão esquerda, enquanto guardava a arma na cinta com a mão direita.
- Pois bem, Alcebíades. Mandei te trazer aqui, porque quero notícias daquele safado do seu filho. Me diz onde ele está escondido.
- Mas patrão, o sinhô já não tinha posto uma pedra nisso tudo? - Alcebíades argumentou com a cara pálida de medo e o coração batendo forte. - Ele foi embora daqui. Não o vejo há três anos.
- Quê, quê, quê... não se faça de bobo. Olha que eu aplico a punição dele em você! - Disse o fazendeiro puxando um facão escondido embaixo da mesa. O homem cruel apontou a arma na direção do membro murcho do pobre empregado.
- Eu não sei! Te juro, patrão! O sinhô não desistiu de castrar ele e o mandou embora daqui? Ele foi embora, fugiu, nunca mais eu vi!
Seu Sebastião fechou a cara. Seus olhos enrugados, enrugaram-se mais ainda. Sua respiração se tornou ofegante como a de um touro enfurecido. Empurrou a cadeira para trás, com um só movimento pélvico. Ficou de pé. Caminhou na direção de Alcebíades, com  passos de lobo faminto. Empunhou a arma no pescoço de Alcebíades e ordenou com uma voz diabólica:
- Abaixa as calças!


Não percam o próximo episódio!

sábado, 6 de maio de 2017

Na próxima semana

os primeiros capítulos de Sol e Lágrimas e muito mais material

Freada brusca

Por: Alexandre Mendes



Acabei de ver uma cena que me chocou. Mas, para que vocês possam entender o boom da cena para mim, é necessário que voltemos ao dia anterior. Eram oito horas da manhã. Estava no interior de um ônibus que começava a subir a serra de Piratininga. Logo nos primeiros metros, me defrontei com um atropelamento. Um carro vermelho parado no acostamento. Um homem com camisa de botão desce do carro com as mãos na cabeça. Parecia estar pedindo perdão. Sua lamúria evidenciava que o acidente acabara de acontecer. 
No chão, um homem branco, com os braços estirados na direção do acostamento. A camisa estava dobrada até o alto do peito. Mamilos e umbigo a mostra. Sua cara estava mutilada devido aos cacos de vidro do parabrisa do carro. 
O motorista colocou as mãos na cabeça e pegou seu celular.
O que mais me impressionou foi o fato da vítima estar com uma bermuda amarela, abaixada até a altura dos joelhos. A cueca preta apontava que a vítima era do sexo masculino. 
A princípio pensei:  Um estranho morreu e daí?
Agora passo pelo mesmo lugar do acidente e vejo um grupo de pessoas. Um homem está no centro deles e parece estar homenageando o coitado que morreu aqui, ontem de manhã. Puxa, então pensei: Quem não significa ninguém pra mim, pode ser muito triste para alguém que fica. As pessoas temem perder seus entes e amigos mais próximos. Pessoas que deixam muita saudade para alguém.
 Foi então que me lembrei de como eu tinha medo da morte quando era pequeno. Ah! Meus cinco, seis anos! Eu sonhava com prédios desmoronando na minha cabeça. Eu pulava de um bloco de concreto para o outro, para não morrer debaixo dos escombros. Eu sempre sobrevivia...caramba!
Eu tinha um amigo que era filho do vizinho, e ele trazia seus carrinhos e brincávamos na varanda da minha casa. Nossa amizade durou até a copa de 82. Ele tinha apenas oito anos. Um tumor tomou conta do seu cérebro e ele morreu no finalzinho da copa. Fiquei transtornado com a morte dele, assim como aquelas pessoas que homenageavam o defunto na estrada.
Mas a morte é um conceito que acompanha o homem, desde a sua concepção, até o seu encontro com ela.
Quanto mais nos aproximamos do fim das nossas vidas, mais nos conformamos com a chegada da morte.

Sol e Lágrimas - Cap. IV

Por: Alexandre Mendes


Alcebíades tremia mais que uma britadeira no asfalto. Seu coração palpitava acelerado. Antes que pudesse desamarrar o cordão da sua calça, sentiu um embrulho forte no estômago. Teve ânsia de vômito e colocou as mãos na boca. Mas já era tarde demais... O que parecia sair por cima, forçou a sair o que parecia sair por baixo. Demorou cinco segundos para a sala ficar empesteada com o cheiro. Seu Sebastião levou a mão até o nariz. - Seu cagão! Você me paga! - Disse enquanto virava o facão de lado e erguia-o. Soltou uma pancada forte na cabeça do velho emporcalhado, que caiu desmaiado no assoalho do cômodo...


   Abriu os olhos lentamente, enquanto delirava com a dor de cabeça. A princípio, se esqueceu completamente do que havia acontecido durante o dia. Suas pernas, braços, peito e cabeça: tudo estava doendo. Fixou os olhos no horizonte e não reconheceu o teto de madeira e telha colonial. O teto do casebre dele era de palha.
 De repente, um estalo em sua mente o fez lembrar do ocorrido. Percebeu que estava deitado num amontoado de palha e sua roupa - de trapo remendado - estava molhada em seu corpo.
Sentiu calafrios devido a corrente de ar que entrava pelas frestas de um enorme portão de madeira fechado. 
"Um celeiro abandonado. Eles me prenderam aqui." Pensou Alcebíades. "O que foi que eu fiz para merecer isso?"
Tentou se levantar apoiando o peso do seu corpo no braço direito e uma forte dor o impediu: estava com braço quebrado. Concluiu que apanhara mais um pouco, enquanto estava apagado.
Olhou ao redor e não percebeu nenhuma saída aparente. Pensou: "Meu Deus! Será que morrerei aqui?"
Tentou se levantar novamente, usando o braço esquerdo e conseguiu. 
Apesar do "banho " que levara, seu corpo ainda cheirava muito mal. 
A tonteira que sentia foi contida, após passar um belo tempo escorado em uma das paredes do celeiro. 
Começou a tatear o local, afim de achar uma saída; uma tábua solta na parede, quem sabe. 
De repente, o silêncio foi cortado por barulho de pegadas, amassando folhas secas, na direção do portão do celeiro abandonado. Alcebíades não teve dúvidas: A vítima ficaria de frente com seu algoz, a qualquer momento.


E agora? O que Alcebíades fará? Será o triste fim do velho agricultor? E Odimar? Por onde esse filho da puta andará?


Não deixe de ler o episódio V!

Sol e Lágrimas - Cap. V

Por: Alexandre Mendes



O som das pegadas foi ficando cada vez mais audível para Alcebíades que, como uma barata acuada, tentava pensar em uma forma de se defender do perigo a vista. Olhou ao redor e encontrou  um pedregulho próximo ao seu pé direito, camuflado pela palha que se espalhava pelo chão do celeiro. 
Apesar da dor que sentia em seu braço quebrado, tomou fôlego e ergueu a pesada pedra com as duas mãos: o medo superava as dores que sentia naquele momento. Além de física, a dor também manifestava-se em sua mente. "Quantos anos de trabalho dedicado a essa fazenda!" - Pensou Alcebíades. - "Se este velho unha de fome está rico desse jeito, eu tenho minha importância nisso tudo. Aliás, não só eu, como toda a minha família foi importante para enriquecê-lo!"
Alcebíades lembrou-se de seu filho Odimar. O rapaz sequer teve a oportunidade de frequentar uma escola, quando menino. Mal começou a entender o mundo e, aos seis anos de idade, foi obrigado por Seu Sebastião a se separar de seus pais. O pastoreio das ovelhas, nos campos da Fazenda Pirucutú, era exercido tradicionalmente por menores de idade, filhos dos empregados de Seu Sebastião. Pirucutú era conhecida como a maior produtora de lã das cercanias e liderava o ranking de exploração infantil na região.
Como qualquer ser humano que sonha, o agricultor também sonhou um dia. Queria que seu filho se tornasse um homem "de letra"; usasse terno e gravata; chapéu de feltro e botas lustradas. E era sempre o mesmo sonho... Alcebíades está colhendo o café na plantação. De repente, a buzina de um carro importado -como um daqueles que Seu Sebastião possuía- tomava a sua atenção do serviço. Como uma criança que corre para o pátio, ao soar o alarme do recreio, Alcebíades largava a enxada e corria na direção do veículo. Dentro dele, Odimar no volante e Nonó no carona: sorrisos de orelha-a-orelha. 
- Chega de sofrer, pai! Vou levar vocês pra cidade. De agora em diante, vou cuidar de vocês."
"AAAAAAHHHH!!! Como era bom sonhar com isso!" - Lembrou Alcebíades. Infelizmente, seu sonho um dia fora interrompido pela mesquinhez do velho fazendeiro que costumava dizer: - Nasceu ou mora aqui: é meu!" - Os pensamentos fluíam na cabeça do velho, fortalecendo-o na proeza que se dispunha a cometer no portão daquele celeiro. Encostou o corpo na lateral de madeira, com as mãos erguidas sobre a cabeça: a porrada deveria ser certeira. 
O estalar das chaves no cadeado foi sucedido pela abertura do portão. A sombra estampada no interior do celeiro indicava um homem jovem adentrando o cômodo. 
PLOC! O golpe fora desferido por Alcebíades. A testa de Olivença ficou parecida com as cataratas de Nova Iguaçú. O sangue escorria em volta dos olhos. O capataz ainda teve tempo de olhar para Alcebíades, que lamentava a dor no braço quebrado. Tentou sacar a arma, mas a escuridão tomou a sua visão. Com uma rodadinha de cinema, caiu aos pés de Alcebíades.

Será que Olivença partiu para a cidade do pé junto? E Alcebíades? Buscará a vingança? Ou irá pedir perdão da merda que fez na cabeça do jagunço, na Igreja  Universal mais próxima?
Fique esperto e não perca o próximo capítulo!

Sol e Lágrimas - Cap. VI



Por: Alexandre Mendes

Logo que se refez do ato cometido, Alcebíades pegou a arma da mão de Olivença e saiu em debandada pela mata. Não tinha a menor idéia para onde estava indo. Completamente desorientado e com o corpo dolorido, Alcebíades percorreu pelo interior da mata por, aproximadamente, duas horas seguidas. Chegou a uma clareira, no meio da mata. Alí, um pé de acerola gigante, bem no centro da picada, sombreando a paisagem.
Alcebíades deitou-se embaixo da árvore e descansou seus músculos calejados. Acreditava que o caminho que fazia, o levaria a Chácara Chicória, o lugar habitado mais próximo de onde estava. Mesmo que quisesse, não poderia dormir, pois tinha que ganhar tempo em distância. Sabia que a qualquer momento sentiriam falta de Olivença na fazenda.
De repente, Alcebíades lembrou que tinha deixado alguém para trás. Percebeu que Nonó estava em casa e que poderia estar em apuros. Começou a roer as unhas, hábito abandonado por ele, há muitos anos. – Santo Cristo! Tenho que voltar para buscá-la. Lembrou-se de um rio que passava ali perto, o rio Tupiranga. Seu manancial passava há dois quilômetros de distância de seu casebre, em trecho conhecido por ele. Resolveu, então, descer a margem do rio, no sentido que a águas percorriam. Estava convicto que a sua moradia situava-se para aquelas bandas. Caminhou o quanto pode, até o pôr do sol. Seus olhos tiveram que se acostumar com a escuridão, ligeiramente iluminada pela lua cheia que fazia. Com o revólver calibre 38 em punho, trocava-o de mão constantemente, assim que cansava o braço. A dor do braço quebrado o incomodava bastante, mas isso não foi suficiente para detê-lo em seu caminho. O barulho das cigarras e das corujas acompanhava o velho no percurso. De vez em quando, sentia o vôo rasante dos morcegos sobre a sua cabeça.
Olhou para o horizonte a sua frente, entrecortado pelas árvores e o capim alto da beira do rio. Avistou uma cabana de taipa, circulada por uma cerca de bambu. Uma fogueira era acesa por um vulto, no interior da cerca. A luz crepitante das chamas iluminava o barraco.
Alcebíades colocou a arma na cintura, na proximidade de sua mão esquerda. Não queria problemas. Entretanto, o homem poderia ser amistoso e acomodá-lo, por uma noite, na sua cabana. Sabia que precisava de abrigo e cuidados médicos.
Aproximou-se da cabana e gritou para o homem: - Olá! Poderia me ajudar? Estou cansado e com fome.
O homem parou de manusear o fogo e tentou enxergar quem gritava de dentro da escuridão. Alcebíades se aproximou, cada vez mais do homem e, quando a silhueta de seu rosto se tornou compreensível para ele, sua face descoloriu.
- Não! Eu não acredito...você! – Balbuciou o velho.

Continua...

Sol e Lágrimas - Cap. VII

Por: Alexandre Mendes


- Pai! O que o senhor faz aqui? - Indagou o homem da cabana, boquiaberto. Sua barba era grande e negra. Seus cabelos eram castanhos e cumpridos, presos por um elástico amarrado. Sua face, enegrecida pela fuligem, era iluminada pelas brasas da fogueira. 
- Odimar, meu filho! - Alcebíades apressou-se em abraçar o filho desaparecido. As perguntas, naquele momento, ficaram para trás. Estavam há três anos sem contato algum. Não se comunicaram nem por carta, pois sabiam que a correspondência de todos os empregados da fazenda, só chegavam na sede e, então, eram violadas por Seu Sebastião.
Alcebíades contou tudo o que acontecera com ele, desde quando saiu de casa, na manhã do dia passado. Odimar lamentou o tempo em que esteve longe de seus pais. - Quantos dias se passaram e eu aqui, longe de vocês...Que saudade, pai! E a minha mãe, como está?
- Ah, meu filho! sua mãe nunca mais foi a mesma, depois que você partiu. - Lágrimas  semi-secas desceram pelos olhos do idoso. 
- Vem comigo. Vou pegar água para o senhor se lavar e trazer roupa limpa. - Disse o rapaz, feliz em ver o pai, mas triste pelos problemas que a família ainda haveria de passar naquele fim de mundo. Alcebíades foi conduzido por Odimar até os fundos da cabana e se lavou com a água armazenada em um galão de margarina enferrujado. O filho lhe trouxe um pano para se enxugar e deu-lhe um trapo velho e remendado para vestir, o qual ousou chamar de roupa limpa. 
Adentraram a cabana e Alcebíades deitou na esteira de palha carcomida, o lugar mais confortável para se dormir no cômodo. Odimar imobilizou o braço quebrado de seu pai, com duas lascas de pau e uma tira de gaze velha. A essa altura, Alcebíades roncava como uma leitoa prenha. Tudo o que passara nas mãos do velho porco capitalista e seu capacho foram demais para seu corpo cansado.
Teve um pesadelo terrível e seu coração bateu mais forte. Saltou da esteira e, para sua surpresa, o dia já havia amanhecido. 
-Odimar! Odimar! - Gritava o velho: - A sua mãe está em perigo! 

Sol e Lágrimas – Cap. VIII



Por: Alexandre Mendes



O velho ainda não havia percebido que seu filho não estava na cabana. Após gritar três vezes por Odimar e não obter resposta, Alcebíades levantou-se lentamente do leito. Sua cabeça ainda rodava um pouco. Apoiou-se com a mão do braço bom, na parede de palha e barro. Seu braço quebrado estava imobilizado pelos gravetos e a gaze velha, por isso, doía bem menos, agora.

Odimar chegou derepente, trazendo algumas plantas medicinais, para o braço de seu pai. Amarrado por uma corda e pendurado em seu ombro, um lagarto de um metro e pouco: estava garantida a refeição por uns dois dias.

- Não fique de pé, descanse mais um pouco. – Disse ele, colocando seu braço em volta de Alcebíades, como quem quer colocar um bebê no berço.

- Meu filho, sua mãe corre perigo! Precisamos ir até a nossa casa antiga, temos que buscar Nonó! – Disse o velho, extremamente angustiado.

- O senhor não pode ir: está muito mal, ainda. Deite-se. Eu busco a mãe sozinho.

- E se tiver mais de um capanga atrás da gente? Você vai precisar de ajuda. – Disse Alcebíades.

Odimar levantou as raízes que trazia na mão esquerda. – Vou deixar este chá pronto para o senhor beber. È antibiótico e fortificante. Vou sangrar esse lagarto. Se eu demorar, o senhor assa a carne na lenha que eu vou deixar pronta.

Odimar acendeu a fogueira para cozinhar as raízes. Colocou água turva do poço que cavou ao lado do casebre, no único recipiente que tinha para cozinhar. Aquela panela, amassada e velha, ainda era uma lembrança do que ele tinha trazido da casa velha, consigo. Equilibrou-a sobre a grelha enferrujada, com calços de pedra. Logo que as labaredas se estabilizaram sob a panela, colocou as raízes lavadas dentro dela e tampou com uma chapa velha de alumínio. Pegou uma faca e abriu o lagarto na linha do abdômen. Retirou a sua pele escamosa com maestria cirúrgica. Arrancou as suas tripas e depois, o pendurou de cabeça para baixo em um tripé de bambu, nos fundos da cabana. Deixou tudo pronto para seu pai se virar por uns dois dias, enquanto ele iria buscar a sua mãe.

Colocou uma calça comprida, camisa de botão e uma botina desbotada em seu pé: Havia comprado a roupa na cidade de Itapopeba, com o dinheiro da venda de banana na feira central. Guardou-a para usar em uma ocasião especial, como ir ver a sua mãe. Pegou o 38 carregado de balas, trazido por Alcebíades e colocou-o na cintura. Pendurou o facão na cinta e colocou o chapéu de coro velho, que um dia havia sido de seu pai.

- Pai, vou buscar a mãe. O remédio está no fogo. É só botar pra esfriar e beber. Lava o lagarto e coloca na grelha, quando ele secar no sol.

Odimar encheu o cantil de plástico e o amarrou do lado esquerdo da cinta. Deu um beijo na testa de seu pai que, calado e triste, manteve-se em silêncio, durante o desenrolar da cena. Pegou a trilha que corria próxima a margem do rio, na direção da casa de seus pais. Calculou umas seis horas para chegar até lá. Seu coração batia forte e o suor escorria pelo seu rosto. O sol escaldante abatia o matuto, agravando o seu stress. Preocupava-se com o porvir. - “E se eu me deparar com um pau-mandado do Seu Sebastião? Vou ter que matar!” – Dizia enquanto pegava a arma na cintura. Sua vida dependia daquelas seis balas no tambor...

Sol e Lágrimas – Cap. IX


Por: Alexandre Mendes

       Quando chegou o cair da tarde, Odimar ganhou a sombra das árvores que margeavam a trilha, pela lateral do rio. Sua prudência foi, lentamente, sendo tomada pelo cansaço. Colocou o revólver na cintura, novamente, pois só ouvia o canto dos pássaros e o chacoalhar das árvores no vento. O perigo parecia estar muito longe dali. O sol havia o abatido por demais, o seu corpo e a sua mente, entretanto, o desejo de resgatar sua mãe era muito mais forte do que tudo isso. Lembrou-se de como gostaria de ter passado mais tempo com sua família, principalmente, durante a infância. Recordou-se do dia em que foi arrancado de sua família e obrigado a trabalhar no pastoreio das ovelhas, em outra propriedade de Seu Sebastião, a Fazenda Pirucutú. Nesse tempo, Odimar tinha apenas seis anos de idade. Guardou em seu coração, a dura recordação da primeira noite longe de seus pais, dormindo naquele celeiro improvisado de dormitório, junto a outras oitenta crianças, aproximadamente.
Trabalhavam do nascer ao pôr do sol, sete dias por semana e, então, descansavam somente a metade de um dia, de acordo com a escala de folga, feita pelo Capitão Tinoco, o chefe dos capatazes. O meio dia de folga era o único momento em que podiam pensar em si mesmos.
      “Péricles” era um nome que jamais sairia de sua cabeça. O menino era seu vizinho de esteira no celeiro-dormitório e fora seu melhor amigo, dos seis aos dez anos de idade. Péricles tinha a mesma idade de Odimar. Infelizmente, o garoto teve a péssima idéia de fugir do cativeiro. Parecia não agüentar mais a escravidão. Chorava muito, com saudades de sua mãe, enquanto levava o rebanho para o bebedouro.
Certo dia, aproveitara a distração do jagunço que estava no plantão e embrenhou-se, mata adentro, sem destino planejado para a sua vida. O pobre coitado teve o infortúnio de ser capturado, algumas horas depois, pelo Capitão Tinoco e seus auxiliares.
Levaram-no de volta a fazenda e o içaram pelos braços, por uma corda pendurada em um grosso galho de árvore. Seu corpo nú suportou o frio da madrugada e o raios do sol escaldante, durante dois dias, sem comer ou beber nada. De vez em quando, Odimar e os outros meninos podiam ouvir a súplica murmurada por Péricles, pedindo a presença de sua mãe, junto a ele. – “Mãe! Mãeeee!” – E desabava em soluços, até desmaiar novamente.
Odimar trabalhava duro no campo, quando viu Seu Sebastião chegando a cavalo.  O patrão aproximou-se do moribundo dependurado e, ainda montado em seu puro sangue, argumentou com Capitão Tinoco algo indecifrável para o pequeno Odimar, devido a distância em que estava. Em seguida, o fazendeiro lançou suas esporas sobre o lombo do animal, guiando-o em direção aos meninos. Odimar lembra bem daquele olhar maligno do velho sobre eles, amaldiçoando-os: - Espero que sirva de exemplo!
Enquanto muitos ainda tremiam de medo com a presença de Seu Sebastião, poucos perceberam de imediato a fumaça que subia, devido a combustão da carcaça pendurada de Péricles: os bandidos haviam colocado fogo no moleque, ainda vivo, para que os demais presentes jamais ousassem repetir a façanha.

Sol e Lágrimas - Cap. X

Por: Alexandre Mendes

As tristes recordações do passado de Odimar foram interrompidas, enquanto ele se aproximava do velho casebre de seus pais. Agachou-se no interior do matagal, na intenção de camuflar-se. Começou a contemplar a cabana e os pensamentos depressivos retornaram a sua mente. Sentia saudades do que não teve a oportunidade de viver, naquele lugar.
As árvores ainda adornavam o entorno da paisagem. A pequena roça de Alcebíades estava do mesmo tamanho; da mesma forma que era, quando ele a viu pela última vez. A porta e as janelas do barraco, feitas com ripas de madeira, ainda mais carcomidas pelo tempo e pelas traças, eram as mesmas. O barro ressecado sobre a palha seca que Odimar colhera pela última vez, afim de retocar a parede, ainda estava lá.
- "Puxa! Que saudades!" - Pensou o rapaz, com lágrimas nos olhos. Lembrou-se do dia em que retornou para a casa dos seus pais. O período de sua vida, perdido no cativeiro, custou-lhe os melhores anos de sua adolescência. Retornou aos dezenove anos para casa. Treze longos anos desperdiçados, enquanto enriquecia o Coronel da região.
A lamentável falta de contato com as mulheres, forçou-o a praticar seus impulsos sexuais com as ovelhas da fazenda. A zoofilia fez parte de sua formação sexual, após os doze anos de idade. Quando chegou aos dezesseis, passou a poupar somente os filhotes. Odimar tinha certeza de que já havia violentado todas as ovelhas mais velhas, quando completou dezoito anos. Por mais que fosse vigiado, dava um jeito de desaparecer, por detrás dos arbustos, com os animais. Ao ser dispensado do serviço de pastoreio, Odimar iludira-se com a esperança de ser livre. No entanto, o amargo sabor da escravidão infantil, foi temperado com o fogo e o enxofre das plantações em que seu pai era servo. Seu trabalho passou a ser o de plantar, colher e, para a sua desgraça pessoal, alimentar os animais da fazenda. Enquanto as vacas matavam a sede no bebedouro, Odimar subia em um caixote e descarregava o seu stress. Enquanto os porcos se alimentavam da lavagem, Odimar aliviava o peso de seus testículos. O problema veio a tona, quando as galinhas começaram a aparecer mortas. As coitadas não conseguiam resistir ao furor sexual do rapaz.
O caso foi investigado pelo capataz Olivença. Ao ver as marcas do evidente estupro, o feitor acusou Odimar, perante o patrão, que acabou declarando a pena de castração para o rapaz. Felizmente, a punição fora reduzida para expulsão da região, após a incessante súplica de Nonó, que viajou a pé, durante uma semana, até a sede da fazenda, pedindo a clemência de Seu Sebastião. Por isso, Odimar tinha a consciência de que, se a sua vida havia sido poupada, foi por intermédio de sua mãe. Aquele momento era a oportunidade de retribuir o favor, salvando a vida de Nonó.
Odimar ainda contemplava a cabana, quando percebeu, entre os arbustos da lateral direita, um cavalo puro sangue pastando no local, amarrado a um pé de manga. Esgueirou-se pela mata, até o animal. Observou-o, atentamente, e não teve dúvida: Ele pertencia a Seu Sebastião.
Odimar suava frio e sua respiração era audível. Sacou o revolver da cintura e engatilhou a peça. Caminhou, meticulosamente, na direção da janela entreaberta.
- Não! Não! Me solta, seu cafajeste! - Era a voz de sua mãe, não havia dúvida. Odimar pôs-se de pé, em frente a janela, apontando a arma para o interior do cômodo. Seus olhos avermelharam-se de fúria, ao ver a cena que se desenrolava, dentro do barraco de seus pais: Nonó estava no chão, lutando por sua dignidade, enquanto um velho imundo a subjugava, violentamente, tentando tirar o seu vestido remendado. O estuprador era ele... o próprio... Seu Sebastião

Sol e Lágrimas – Cap. XI

Por: Alexandre Mendes


- Velhaco, filho da puta! –  Gritou Odimar furioso, apontando o revólver na direção de Seu Sebastião. – Levanta!
O velho fazendeiro parou de agarrar Nonó e pôs-se a levantar, dizendo: - Fica calmo que eu estou levantando.
 O olhar matreiro da raposa velha conseguiu confundir Odimar. Como se fosse um relâmpago, Sebastião sacou a pistola da cintura e atirou na direção de Odimar. – Morre! – Gritou o velho. O estampido da pólvora abafou o grito de Odimar: a bala acertou em cheio sua orelha direita, causando o seu desfalecimento por terra. Por ainda estar do lado de fora da cabana, o seu corpo ficou protegido da visão do velho. Um breve intervalo de silêncio do outro lado da janela – acompanhado pelos berros desesperados de Nonó no chão – fez com que Seu Sebastião acreditasse que o seu desafeto estivesse morto. Tomou equilíbrio de pé e caminhou cautelosamente até a janela.  Com a pistola apertada entre os dedos e a palma da mão, o velho esticou a cabeça para ver onde estava o corpo de Odimar e inesperadamente um estrondo preencheu o silêncio que vinha do exterior da cabana. Enquanto a fumaça do cano quente subia pela janela, o velho caia de joelhos no chão. A bala entrara bem no meio da sua testa, antes que esboçasse qualquer reação. Primeiro, a pistola escorregou da mão. Depois seu corpo tombou pro lado esquerdo.
 Nonó cessou de gritar e pôs-se a levantar do chão. – Filho! Você está bem? – Indagou, enquanto caminhava até a janela.
- Mãe! – Disse Odimar, enquanto se levantava. O tiro na orelha o havia abatido temporariamente, entretanto, não fora o suficiente para impedi-lo de se posicionar no solo e mirar na direção da janela.
Pulou o caixonete podre deixando um rastro de sangue no caminho. Sua orelha direita não existia mais. Sua mãe o abraçou fortemente, como se pedisse desculpas por todas as coisas tristes que ele passara em sua vida. – Senti sua falta. Por onde andou? Sabe de seu pai? – As perguntas de Nonó não paravam de surgir. No entanto, antes mesmo que Odimar pudesse começar a respondê-las, Nonó lembrou-se do corpo de Seu Sebastião caido no chão do cômodo. Largou seu filho e caminhou até o cadáver. Ajoelhou-se em frente ao corpo e pôs-se a chorar.
- Mas...eu não entendo...O que a senhora está fazendo? – Perguntou Odimar, confuso com a cena que presenciava na frente de seus olhos.
Nonó abaixou a cabeça, pegou fôlego e balbuciou algumas palavras que desnortearam Odimar:
- Ele era o seu verdadeiro pai.

Sol e Lágrimas - Cap. XII


domPor: Alexandre Mendes

Por Alexandre Mendes

O rapaz ficou furioso e confuso com a confissão de sua mâe. - Como assim? O pai sabe disso? 
Nonó continuava de cabeça baixa. - Eu trabalhei na faxina da fazenda quando chegamos aqui. E, meu filho, você sabe muito bem que ninguém podia dizer não para aquele desgraçado. Não, seu pai não sabe de nada até hoje. Mas eu acho que a gente tem que dar o fora daqui, o mais rápido possível. Deixa eu cuidar de sua orelha. Isso está horrível. - E realmente o sangue não parava de jorrar.
Nonó foi até o canto do cômodo, onde estava uma sacola plástica velha cheia de bugingangas. Revirou os cacarecos da bolsa e tirou uma calça jeans velha que tinha sido de Seu Alcebíades. Bateu o trapo na janela, passando por cima do cadáver. Pegou uma garrafa de aguardente guardada entre a bolsa e a parede. Pediu que Odimar se abaixasse para que ela pudesse limpar a ferida. Jogou o líquido diretamente na carne exposta, fazendo com que o filho desse um berro de dor. Amarrou o jeans velho em volta da testa de Odimar para proteger a ferida. – Muito obrigado, minha mãe.
O rapaz levantou-se do chão e se dirigiu até o corpo de Sebastião. Pegou a pistola do velho. Era uma Glock, calibre 380. Enfiou na cintura. Revirou os bolsos do morto e catou tudo que tinha dentro. Um maço de cigarros pela metade, um isqueiro, um pente de bala e 100 reais. Enquanto isso, Nonó encheu o cantil de água, pois sabia que precisariam se hidratar durante a fuga. Odimar deu o revólver velho para a mãe e saiu do casebre, com a pistola em riste. A mãe veio logo atrás. Desamarrou o puro sangue do pé de manga e ajudou Nonó a montar no cavalo. Pôs o pé no estribo e posicionou seu corpo sobre o dorso do animal. - Segura em mim que eu vou te levar até o pai.
Nonó abraçou seu filho sem largar o revólver. Odimar colocou a pistola na cintura e tocou o bicho em direção ao rio, a trilha que antes ele havia percorrido a pé. O trajeto entre pés de juazeiro e outros arbustos dificultara um pouco a viagem a cavalo. Levaram aproximadamente duas horas para chegar até a cabana de Odimar. 
Nonó desceu do cavalo: suas costas doíam por causa da viagem. – Nunca gostei de cavalo. – Disse ela.
Alcebíades saiu da casa e correu até Nonó. Seu braço ainda estava na tipóia, um pouco menos inchado. – Então tudo correu bem até aqui?
Odimar lembrou-se da confissão de sua mãe e abraçou o velho. – Eu te amo, pai. Não foi fácil chegar aqui. Eu tive que matar.
- Matar? Quem você matou? – Perguntou o pai.
- Ele, pai. Seu Sebastião. O desgraçado arrancou a minha orelha com essa pistola aqui. Então eu dei um tiro na testa dele.
Alcebíades abraçou mais forte o filho, com o braço saudável. – Isso não importa. O mais importante é que vocês estão aqui comigo. Vamos fugir para bem longe daqui.