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sábado, 6 de maio de 2017

Sol e Lágrimas - Cap. XIII


sábado, 28 de maio de 2011



Por: Alexandre Mendes





Não demoraram muito tempo conversando, pois sabiam que o pessoal da fazenda viria atrás deles.

    Odimar entrou na casa e enfiou na sacola velha tudo o que pode carregar de sua casa. Ele ainda trazia consigo a pistola e, as vezes, mudava a ferramenta de lado na cintura, para não incomodar tanto durante o percurso da fuga. Guardou o facão em uma cinta velha de couro que encontrou no meio da bagulhada. Ela havia sido de Estênio, filho único de Seu Sebastião. Odimar lembrou bem o que passou nas mãos de Estênio, enquanto prestou serviço para a Fazenda Pirucutú. O filho do velho gostava de ir a cavalo até os pastos da fazenda, onde só havia ovelhas, crianças e carrascos. Possuía um chicote de couro e quando cismava com um dos moleques, metia a chicotada. Certa vez, o próprio Odimar foi surrado pelo chicote de Estênio. Levou vinte chibatadas nas costas, amarrado em um pé de goiaba nos fundos da fazenda. Foram noites difíceis de dormir, pois suas costas ficaram em carne viva. O único auxílio que teve de Seu Sebastião foi a permissão de lavar as feridas duas vezes ao dia. As marcas na carne ainda estavam lá, trazendo a triste lembrança do episódio.

Odimar levou um susto quando chegou a conclusão de quem iria assumir o controle da fazenda, após o enterro de Seu Sebastião: O filho monstro do velho canalha, Estênio.

    Arrumaram as tralhas, amarradas sobre o dorso do cavalo, pois decidiram ir a pé até onde aguentassem, enquanto o cavalo levava as ferramentas, os trapos e as bugigangas.

    Visualizaram o horizonte a procura de orientação. Concluíram que se seguissem em direção a oeste, por uma trilha antiga, existente próximo a cabana, chegariam a cidade de Chiponápolis. O local parecia ser uma boa opção de refúgio para eles. Nonó lembrou dos cem reais que estavam com Odimar. – Vamos para Chiponápolis. Lá, a gente encontra um lugar confortável para dormir.

Alcebíades conhecia bem a cidade, pois trabalhara durante um certo tempo na Feira do Centro. Trabalhara ali dos oito aos vinte anos, vendendo aipim na barraca de Seu Santino. A merreca de salário que ganhava, ajudava no sustento da casa de Dona Feliciana, viúva que cuidava dos órfãos da seca que apareciam perambulando pela cidade. Era ele e mais doze meninos e meninas, quase todos empregados na Feira do Centro. Dona Feliciana tinha o apoio do pequeno comércio da região. Alcebíades sentiu-se bem em saber que iria visitar o local e, quem sabe, matar saudade dos velhos amigos. Mas sentiu, ao mesmo tempo, uma pontada no coração, pois lembrou que a casa onde morava quando criança não existia mais. Com o modesto crescimento da cidade, sua casa foi demolida e no lugar, construíram um posto de gasolina.

     Caminharam quatro horas sem parar pela trilha oeste e já demonstravam cansaço. O cavalo colocava a língua para fora, parecendo sedento.

Em diversos pontos da trilha, Odimar teve que usar o facão para diminuir o capinzal e isso o havia deixado muito cansado. Chegaram até uma clareira provavelmente feita a facão por alguém que estivera ali, há pouco tempo atrás. As cinzas e restos de cascalho acusavam uma fogueira feita bem no centro da clareira.

Antes que escurecesse, Odimar limpou o resto do terreno com o facão, a pedido de Nonó, para que pudessem passar a noite no local. Enquanto isso, ela e Alcebíades foram juntar folhas e cascalhos secos no entorno da clareira.


CONTINUA...

Sol e Lágrimas - Cap. XIV




quinta-feira, 2 de junho de 2011

Por: Alexandre Mendes




Os dois tinham a intenção de fazer uma fogueira. Nonó ainda estava um pouco afoita, com tudo que havia acontecido. Falava sozinha enquanto catava os gravetos: - Que azar o nosso! Puta merda! Maldito coronelzinho...Filho da puta! – Odimar nunca havia ouvido a sua mãe falando tantos palavrões. Ela havia começado a falar dessa forma, depois que Odimar fora embora. O problema era com Alcebíades. A cachaça tinha tomado conta do seu tempo livre. Nesse tempo, Nonó achava monótono ter que carregar o bebum até a esteira. Fazia gestos estranhos, conversando consigo mesma. Era a sua única distração: debater a vida com o vento.

Alcebíades olhava para ela e meneava a cabeça, como quem dizia ser o culpado daquilo. Já havia parado de beber, há muito tempo, mas os vestígios do vício deixaram marcas em Nonó.

A última garrafa de cachaça  ainda estava pela metade, entretanto, usavam-na agora somente para desinfetar feridas e fazer fogo.

O casal terminou de preparar a fogueira, no mesmo momentoem que Odimar acabou de limpar o terreno. O rapaz pegou o isqueiro e a cachaça do seu velho pai. Sacou a rolha com os dedos e deu uma golada na maldita. Jogou o liquido nas folhas, envoltas nos gravetos e colocou fogo. Apesar do último período de chuva ter acabado, há pouco tempo, e do mato ainda estar alto, a secura das plantas já começava a ficar visível. O verde era severamente consumido pelo sol quente. Foi fácil, portanto, acender a fogueira. O temor de que a fumaça chamasse a atenção dos bandidos tomou conta deles.

Decidiram fazer um revezamento de vigília, enquanto descansavam. Odimar destravou a pistola e explicou como ela funcionava para os pais. Ele já havia visto Seu Sebastião treinando tiro ao alvo na fazenda Pirucutú. Decorou todos os movimentos feitos pelo velho, no manejo da semi-automática, enquanto apascentava as ovelhas. Lembrou da correria dos animais com o estrondo dos tiros e, de como ficava cansado com isso.

Alcebíades pegou um pequeno graveto do solo e o dividiu em três pedaços diferentes, posicionando as pontas no punho fechado. Nonó escolheu primeiro e se deu mal, pois pegou o pedaço menor.

- Deixa pra lá, mãe. Eu fico de plantão. Pode dormir. – Disse Odimar, com as pálpebras pesadas.

- Não, meu anjo! Pode ir dormir! Eu cuido da gente. Nunca mais te vi dormir. Pode deixar que eu fico aqui

Muito contrariado, Odimar deitou-se ao lado de seu pai, com o trinta e oito na mão e a cabeça repousada na sacola improvisada como alforje.

Nonó sentou-se no monte de palha reservado para abrasar a fogueira. Com a pistola segura entre as duas mãos, vigiava o horizonte coberto pela palha seca, clareado pela luz do fogo. Seus pensamentos se afastavam da realidade, devido ao cansaço que tomava conta do seu velho corpo. A tristeza de ter deixado a sua casa e tudo o mais, para trás, não a incomodava mais. “A família está junta, novamente.” – Pensava ela, demonstrando-se satisfeita com o fato.

A madrugada se aproximava rapidamente e o céu se enchia de estrelas. Nonó tentava manter-se acordada. Alcebíades e Odimar roncavam em um ritmo cadente.

Um farfalhar no mato cortou o canto dos grilos e o ronco dos dois. Uma pequena cabeça de cobra despontou do interior da palha seca, a qual Nonó estava sentada. Seus olhos arquejavam, denunciando o cansaço e impedindo sua atenção. Agora, era tarde demais. A cobra já a observava. Estava bem próximo a ela.

Sol e Lágrimas - Cap. XV



Por: Alexandre Mendes



O réptil rastejou completamente para fora da palha, levantando a cauda e inquietando o cavalo. Nonó despertou rapidamente com a presença da cobra. Observou os anéis coloridos na parte dorsal do bicho e deduziu ser uma coral. Ergueu a pistola na direção da cabeça da cobra e, sem pensar duas vezes, apertou o gatilho. Para o seu azar, esqueceu de destravar a arma e o engatilhar da peça foi em vão. Assim que a coral pressentiu o movimento brusco, armou o bote rasteiro, mordendo a perna esquerda de Nonó. A mulher deu um grito de dor, acordando Alcebíades e Odimar. O jovem rapidamente sacou o facão da cintura e atirou-se em direção a cobra. Observou o animal e também chegou a conclusão de que se tratava de uma cobra coral. Mirou o facão na cabeça do bicho e desceu a lâmina no alvo, cortando a coral no meio. Sua cabeça se desprendeu da perna de Nonó e caiu no solo, contorcendo-se. Odimar mirou novamente o facão na cabeça da coral, esfacelando-a.

Enquanto isso, Alcebíades socorria Nonó. Observou a mordida da cobra em sua perna e constatou uma pequena marca de presas. Apesar de estarem localizadas no fundo de sua boca, dificultando a mordida, as presas da coral chegaram a cravar na carne de Nonó.  Alcebíades pegou o cantil de água e lavou o local da ferida. Abocanhou a perna de sua mulher, sugando o veneno peçonhento de suas entranhas. Nonó gemia de dor, enquanto Alcebíades cuspia a mistura de sangue e líquido letal. Limpou o céu da boca, fazendo bochecho com a água do cantil. Nesse momento, Odimar pegou a garrafa de cachaça e um trapo, para fazer o curativo na perna de Nonó.

- Calma, mãe. Vai acabar tudo bem. – Disse Odimar, enquanto limpava a ferida com o álcool.

A princípio, Nonó chorava convulsivamente. Assim que a dor cessou, sua perna começou a ficar dormente. Sentiu uma forte falta de ar, fazendo com que se sentasse novamente sobre a palha. Alcebíades pegou uma camisa remendada na bolsa e a abanou na direção do rosto de Nonó, pois percebia a sua agonia.

Odimar olhou para o céu e concluiu que ainda deveria ser meia noite. A manhã demoraria a chegar. Sabia que sua mãe precisava de socorro, mas que não havia a menor possibilidade de prosseguir o caminho no escuro. Acreditava que a cidade de Chiponápolis deveria estar a umas doze horas de onde estavam e, portanto, só conseguiriam socorro no dia seguinte.

Alcebíades pediu ao filho que o ajudasse a colocar Nonó deitada no leito improvisado, pois ela estava desmaiada. Colocou a mão sobre a testa de Nonó e constatou que estava com febre. Molhou a camisa velha com a água do cantil e colocou-a sobre a testa de sua esposa.

-Parece que a noite vai ser longa, pai. – Disse Odimar, enquanto alimentava a fogueira com os gravetos.

Sol e Lágrimas – Cap. XVI


domingo, 19 de junho de 2011Por: Alexandre Mendes

Por: Alexandre Mendes
Participação especial (Argumento): Fabio da Silva Barbosa



Parecia estar de olhos abertos, no entanto, ainda estavam fechados. Olhou ao seu redor e percebeu que não estava mais no interior da mata. Seu marido e seu filho também não estavam 
mais ao seu lado. Estava em um lugar que, aparentemente, não possuía formas físicas ou cores, Era como se Nonó estivesse no centro de uma lanterna gigante acesa. A sua vista lacrimejava de acordo com que ela insistia em olhar ao redor.

- Odimar! Alcebíades! – Chamava a mulher, completamente atordoada.

De repente, a claridade foi diminuindo de intensidade e Nonó começou a enxergar formas físicas que se delineavam ao redor.

- Alcebíades! Odimar!

Como se estivesse acontecendo uma sucessão de trovoadas em seus ouvidos, o som de diversas gargalhadas diabólicas ao redor de Nonó, fez com que a pobre mulher entrasse em pânico.

- Família! Família!

Recuperou a visão, mas não acreditava no que via: Estava sentada no meio da clareira e, em torno dela, giravam em roda dezenas de sacis. As gargalhadas deles eram ritmadas por uma dança desconhecida.

- Aaaaaaaaaaaaaaah! Socorro! ­– Gritou Nonó, enquanto se levantava para correr.

- Calma, mãe! Calma! – Era a voz de Odimar. O rapaz segurou em seu braço.

Nonó olhou para o lado e viu seu filho. Os sacis haviam desaparecido.

- Meu filho, eu tive um pesadelo horrível! Cadê o seu pai?

- Ora, ele está aqui. – Disse Odimar, apontando para o canto da mata.

-Onde? - Nonó não via Alcebíades, mas o escutava, como se estivesse saindo de dentro do mato. Fixou os olhos na direção da voz e seu coração palpitou muito forte, quando o capim se abriu e, de dentro dele, uma mula sem cabeça surgiu. No lugar da cabeça, uma chama intensa. A mula emitia sons parecidos com a voz de Alcebíades.

- Meu bem, deite-se! Você precisa repousar! – Disse a mula sem cabeça.

Seus olhos esbugalharam quando viram aquela assombração. Tentou correr, mas Odimar ainda segurava o seu braço. Olhou para o rapaz e quase terminou de ter um enfarte: Havia algo estranho em seus olhos.

- Quem são vocês? Cadê minha família? AAAAAAAAAAAAA! – gritava Nonó, enquanto tentava se libertar daquela estanha criatura.

- Mãe! Sou eu! – Dizia o suposto Odimar. – Cadeira, cachorro, pedrinha!

- Cadeira, cachorro? Pedrinha? Do quê você está falando? – Nonó não conseguia mais entender o que ele dizia.

- Mato da porteira, azul cor de peixe. – Disse o estranho Odimar. – Hospital, chegando estamos.

As lágrimas começaram a descer dos olhos de Nonó. O que estava acontecendo? Sacis, Mula sem cabeça e seu filho, falando de forma desconexa.

- Eu quero ir pra casa! Quero a minha família! Alcebíades! Odimar!



CONTINUA...

A ficção imita a realidade

Por: Alexandre Mendes

 Passei pela sala e parei para ver o desenho que meu filho estava assistindo. Lula Molusco estava carregando várias tralhas e ia pegar o elevador social. Senhor Siriguejo estava dentro e disse: 
- Este elevador não é para os empregados! Você tem que pegar o elevador de serviço!
Então, Lula Molusco apertou o botão do elevador de serviço e quando a porta se abriu, advinha:
Havia uma escada, repleta de degraus!

Sol e Lágrimas - Cap. XVII


Por: Alexandre Mendes
Argumento: Fabio da Silva Barbosa


Algumas horas após o incidente, Odimar e Alcebíades continuavam acordados, alertas para todos os perigos que uma noite no interior da mata, poderia lhes proporcionar.

- Tudo bem, filho. Descanse um pouco. Eu cuido de sua mãe. – Disse Alcebíades, enquanto acariciava os cabelos de Nonó.

- Acho que não vou conseguir mais pregar os olhos, depois disso. Sem contar que vamos precisar de mais lenha para a fogueira. – Disse Odimar, fitando a sua mãe deitada no solo, entorpecida e febril.

- Então, deixa que eu me viro com a fogueira. Cuida da sua mãe, aqui.

Odimar obedeceu seu pai. Estava muito cansado e dolorido, por manusear o facão durante horas. Suas costas latejavam. Por isso, sentou-se ao lado de sua mãe e averiguou a febre que a acometia. Acreditava que todos os cuidados possíveis com ela, naquele lugar, já tinham sido providenciados. A picada não havia sido tão profunda e o clarear do dia, não tardaria.

Enquanto Alcebíades manuseava o facão com o braço são, pela mata a dentro, Odimar se distraiu em seus pensamentos e acabou pegando no sono, ao lado de sua mãe.

Nonó abriu os olhos, ainda deitada. Parecia estar delirando, dormindo acordada. Olhou ao redor e sua face enrubesceu, com uma expressão de horror. Parecia estar vendo o invisível.

- Odimar! Alcebíades! – Chamou a mulher, completamente atordoada.

Odimar se mexeu no leito, mas não acordou: estava profundamente adormecido.

Nonó levantou-se, lentamente, enquanto observava apavorada o entorno da clareira.

- Alcebíades! Odimar!

Dessa vez, Odimar acordou. A pobre mulher estava histérica.

- Família! Família! – Gritou Nonó.

Odimar ergueu seu corpo do solo, indo ao encontro de sua mãe.

- Aaaaaaaaaaaaaah! Socorro! – Gritou Nonó, enquanto se levantava para correr.

- Calma,mãe! Calma! – Pediu o filho, pegando Nonó pelo braço.

Nonó olhou, com cara de quem queria chorar, para o lado e viu seu filho. Deu meia volta, cambaleou, até o leito, e adormeceu.

Alcebíades pegou a palha suficiente para manter a fogueira acesa, até o amanhecer.

Sentou-se próximo ao fogo, esticando as suas pernas.

Odimar sentou perto de Nonó, mas não dormiu. Ficou de guarda, o resto da noite.

    Quando a sol da manhã despontou no horizonte, Odimar começou a arrumar os objetos no dorso do cavalo. O animal parecia estar sedento, mas a água já estava no fim. Odimar sabia que eles teriam que andar em ritmo acelerado, até a cidade.

Sol e Lágrimas - Cap. XVIII



Por: Alexandre Mendes

Argumento: Fabio da Silva Barbosa



Antes de ir, Alcebíades entrou no mato para satisfazer suas necessidades fisiológicas.

Odimar verificou a pistola e a colocou no lado direito da cintura. Limpou a lâmina do facão, com um trapo velho e o amarrou do lado esquerdo.

Alcebíades levou o trinta e oito com ele.  “Só Deus sabe, o que me espera dentro do mato!” – Pensou o velho, com o revólver na mão.

Nonó acordou com o barulho que os dois faziam. Viu seu filho, guardando os objetos no lombo do cavalo. Ela estava morrendo de sede. Levantou mancando, por causa da mordida da cobra na perna e se aproximou de Odimar.

Meu filho, eu tive um pesadelo horrível! Cadê o seu pai?



- Ora, ele está aqui. – Disse Odimar, apontando para o canto da mata.



-Onde? - Nonó não via Alcebíades, mas o escutava, como se estivesse saindo de dentro do mato. Fixou os olhos na direção da voz e seu coração palpitou muito forte, quando o capim se abriu e, de dentro dele, saiu o seu marido. Estava delirando.

- Meu bem, deite-se! Você precisa repousar! – Disse Alcebíades, colocando o revólver na cintura.

A mulher enlouqueceu. Tentou correr, mas Odimar a impediu, segurando a mãe pelo braço. Nonó encarou o filho e parecia ver uma assombração.

- Quem são vocês? Cadê minha família? AAAAAAAAAAAAA! – gritava Nonó, enquanto tentava se libertar das mãos de Odimar, que agora tentava lhe dar um abraço. A pobre mulher despencou nos braços do filho: um desmaio. A febre estava aumentando.

Odimar posicionou sua mãe, deitada de barriga para cima e amarrada no dorso do animal. Improvisou uma almofada para ela, com uma trouxa feita de trapos velhos.

Estava tudo pronto. Alcebíades pegou o animal pela rédea. Jogou o último gole de água do cantil, na boca de Nonó.

Odimar foi na frente, com o facão em riste, aparando  o matagal.

Caminharam por horas a fio, podando o mato em revezamento. As gargantas secas como a brisa da manhã.

Os pássaros cantavam, enquanto o sol subia no céu. “Vai fazer um calor daqueles!” – Pensou Odimar. Eles quase não se falavam, para poupar a saliva que já não tinham.

Quando o sol chegou no centro do céu, indicando meio dia, Odimar tinha certeza que já estavam próximos de Chiponápolis.

Enquanto isso, Nonó despertava do sono. Começou a balbuciar coisas sem sentido.

- São Cosme e São Damião... cadeira, cachorro, pedrinha!

-Mãe! Fique tranqüila que já estamos chegando! – Disse Odimar, enquanto aparava a mata.

- O ônibus pra Rivadávia...mato da porteira... a cor do peixe é azul...

Caminharam por mais umas três horas e, finalmente, chegaram a entrada de uma depressão. Podiam ver, de onde estavam, as primeiras casas surgindo no horizonte.

- Estamos chegando, Filho! Estamos chegando! – Disse Alcebíades, visivelmente emocionado.

Sol e Lágrimas - Cap. XIX


Por: Alexandre Mendes



   Desceram a colina, depressão abaixo, na direção de uma casa feita de tijolo queimado e telha de amianto. Antes de chegaram até a porta, guardaram as armas nas cinturas. Um cachorro surgiu dos fundos da casa, latindo no pé do cavalo. Antes que Odimar pudesse bater na porta, ela foi aberta, com o escândalo do vira lata. Um homem de barba negra e comprida atendeu a porta.

- Pois, não. – Disse o homem, estalando os dentes. Parecia ter algum tipo de resto de comida, agarrado entre eles. – Silêncio! Catucha!

- Boa tarde. Nós estamos andando pela mata, há muitas horas. Estamos morrendo de sede e, essa senhora, quer dizer, a minha mãe foi mordida por uma cobra coral. Precisamos de ajuda.

- O hospital público fica há quinze minutos daqui. Vou pegar água pra vocês. Depois, eu os guio até lá.

- Muito obrigado, meu amigo! – Agradeceu Alcebíades, enquanto verificava a febre de Nonó.

Mataram a sede com aquela água tratada e estranharam o sabor de cloro.

Acompanharam o homem pelas ruas de paralelepípedo. As calçadas eram bem estreitas e, em alguns trechos, eram obstruídas por tufos de matos. O vai e vem de cavalos e seus donos era, frequentemente, interrompido pelos caminhões de placas longínquas.

Os casebres se amontoavam, lado a lado. O comércio local era constituído por pequenos armarinhos, com todo tipo de bugiganga disponível e botecos, com grandes prateleiras de tábua, repletas de garrafas de cachaça e seus consumidores.

O homem apontou para o fim da rua. – Vejam! Podem desamarrar a senhora que já chegamos!

Contemplaram a pequena praça, anexa ao tal hospital, que na verdade, mais parecia um pequeno posto de saúde.

Odimar pôs-se a desatar Nonó do cavalo. Alcebíades amarrou a rédea no poste. O filho, então, pegou a sua mãe no colo e adentrou o portão enferrujado do ambulatório.

O posto de saúde era bem simples, com paredes sujas de barro e marcas de mão. Em volta da porta, havia algumas cadeiras velhas de madeira podre, ocupadas por dezenas de pessoas sentadas, aguardando o atendimento. A fila excedia o número de cadeiras e tomava forma de minhocão, até o portão principal.

Alcebíades cantarolou na porta do ambulatório: - Olaá! Tem alguém aií?

Uma senhora gorda de jaleco branco e óculos aro grosso, apareceu na porta, olhou a situação e pediu que trouxessem a mulher para dentro, causando palavras de revolta na fila.

- O quê foi que aconteceu com ela? – Perguntou a senhora, olhando para o relógio.

- Ela foi mordida por uma cobra coral.

A mulher pediu que Odimar colocasse a enferma no chão gelado do posto, no canto da parede. Todas as macas disponíveis estavam ocupadas por moribundos agonizantes. Ela não seria a única a ser atendida no chão: Uns dez doentes, já lhe faziam companhia.

A mulher do posto tirou a tala do ferimento e sentiu o mau cheiro:

- È... acho que está infeccionando. – Disse ela, dirigindo-se a uma porta, com a palavra “Medicamemto”, escrita a mão, em sua face externa.

- A senhora é a médica? – Perguntou Alcebíades para a mulher, que se ocupava de preparar um medicamento intravenoso.

- Médica? Eu? – Debochou a funcionária. – Meu filho, não aparece um médico por aqui, faz uns dois anos. Mas, temos medicamentos que ainda estão na validade. Isso já basta!

   Preparou o escalpo e pendurou o soro em um prego previamente posto na parede, com esse objetivo. Aplicou o remédio na veia de Nonó, que ainda balbuciava palavras delirantes.

- O mar...o mar...que mato vermelho!

- Pronto! Agora é só esperar a febre baixar. Vai acabar tudo bem! – Disse a funcionária “Bombril”. – Vamos fazer a fichinha dela, então?

De repente, os gemidos dos moribundos foram abafados pelo cantar de pneus, no exterior do posto.

Sol e Lágrimas - Cap. XX

Por: Alexandre Mendes




Odimar percebeu o barulho do automóvel e colocou a mão na pistola, por baixo da camisa. Alcebíades viu a atitude do filho e o imitou, pois também ouvira a freada brusca.

Em seguida, o bater de portas do carro, fazia parecer que algo furioso surgiria na entrada da porta dos medicamentos.

Odimar já estava com o dedo no gatilho, mas a arma ainda estava na cintura.

Alcebíades tocou o cabo da arma, mas não chegou a enfiar o dedo no gatilho.

Um homem, com chapéu de couro e botinas marrons, surgiu na porta. Portava em sua mão direita, um revólver calibre trinta e oito, cano longo.

Odimar identificou o homem no ato: ele era um dos jagunços da Fazenda Pirucutú.

Um segundo homem entrou pela porta. Era baixo e tinha a cara larga. Usava camisa de vaqueiro, pistola e chicote, enrolado na cintura. Odimar o reconheceu. Era Estênio, o filho de Seu Sebastião. O cabra havia vindo da capital, só para encontrar o seu pai. Foi a procura dele, pelas matas próximas e acabou encontrando o corpo de seu pai, na casa de Alcebíades. Sem dúvida nenhuma, ele estava a procura de vingança.

Estênio olhou para a cena triste, de um pai e um filho, velando pela mãe, no chão de um socorro médico e, no entanto, não se comoveu. Estênio apontou a pistola para a frente e atirou sem mirar. – São eles!

Odimar sacou a arma, mas antes de conseguir destravá-la, o jagunço que acompanhava Estênio atirou, acertando Alcebíades na barriga. O velho sentiu a dor da bala entrando em seu abdômem. Mesmo assim foi homem, o suficiente para sacar a arma e atirar no peito do jagunço, três vezes. O homem desabou no chão.

No exato momento em que Estênio deu o primeiro tiro, Odimar conseguiu destravar a pistola. Ele descarregou a arma na direção dos homens. Estênio levou a maioria dos tiros e caiu para trás. O capanga foi alvejado pelos dois, ao mesmo tempo, e seu corpo despencou no solo.

A mulherzinha do posto deitou no chão e não se feriu. Odimar percebeu, também, que não havia se ferido. Correu na direção do seu pai, que agonizava no chão.

- Pai, calma! Vai ficar tudo bem. Enfermeira! Me ajude, aqui! – Gritava Odimar, pegando o pai em seus braços.

- A sua mãe...cuide da sua mãe... – Balbuciava Alcebíades.

- Não, pai! Não diga nada! Enfermeira, socorro!

Já era tarde: Alcebíades olhou para o alto, deu o último suspiro. A sua cabeça caiu para trás. Os olhos ficaram imóveis.

- Pai! Paaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai! – Gritou Odimar, abraçando o corpo flácido de Alcebíades. “Malditos!” – Pensou ele. “Nos exploraram, deixando a gente viver na miséria e, agora, ainda querem nos matar!”

Odimar lembrou-se daquele episódio triste que vivera nas mãos de Estênio, das vinte chibatadas. Depositou seu pai no solo e se levantou, parecendo estar enfurecido. Caminhou na direção do corpo de Estênio e começou a chutá-lo, incessantemente.

- Desgraçado! Porco! Filho de uma quenga! – Vociferava Odimar, enquanto descarregava o seu ódio.

Foi, então que, quando se lembrou das últimas palavras de seu pai, parou com os chutes e olhou para a sua mãe.

Nonó parecia dormir um sono profundo, mas suas pálpebras estavam entreabertas.

Odimar se aproximou da mãe e não conseguiu acreditar no que viu: a bala de Estênio acertara o pescoço de Nonó. O sangue escorria com o aspecto consistente, do buraco da bala.

Odimar se abaixou e abraçou a sua mãe. Chorou por alguns instantes. Só conseguia pensar em todos os momentos bons que vivera, com seus pais. Foram poucos, mas, em algum momento, poderá dizer que teve uma família.

Aprendeu mais uma lição em sua vida, com tudo que acontecera ali, mas jurava para si mesmo, que nunca contaria isso para ninguém.

Revistou os corpos de Estênio e do jagunço. Se apossou de tudo que achou útil.

Deu uma última olhada para os seus pais e despediu-se, com um beijo jogado ao vento.

Olhou ao redor e viu a reação do povo. Alguns, deitados nas macas, em silêncio (fingindo estarem mortos), e outros, deitados no chão.

Odimar caminhou até o cavalo e o dasamarrou do poste. Deu a última olhada para trás, com os olhos avermelhados de tanto chorar. “Adeus, mãe! Adeus, pai!”

Montou no cavalo e se dirigiu em direção ignorada.

Nunca mais voltou para aquelas cercanias. Mas a história dessa família é contada pelos habitantes da cidade, até os dias de hoje.



Fim

saudade

Por Alexandre Mendes

do quê?
Já passou
acabou...se foi
e se algum dia foi
já era
não me lembro mais
da cara dele
da face dela

joguem flores
declamem poesias
tornem belo
o rito de passagem

NÃO! O medo se foi
e se algum dia chegou a ser
já era
já nem me lembro mais