O COLETIVO ZINE É UMA AÇÃO CONJUNTA. A PROPOSTA É REUNIR DIVERSOS FANZINEIROS OU CRIADORES INDEPENDENTES E PRODUZIR UM TRABALHO COLETIVO. CADA PARTICIPANTE CONTRIBUI DA FORMA COMO PUDER, SEJA NA CRIAÇÃO, MONTAGEM, EDIÇÃO, ADMINISTRAÇÃO, DIVULGAÇÃO, DISTRIBUIÇÃO. O IMPORTANTE É SOMAR ESFORÇOS. E ASSIM MULTIPLICAR A DIVULGAÇÃO DO TRABALHO DE CADA AUTOR E DIVIDIR O TRABALHO. SE DER CERTO,CONSEGUIREMOS CHEGAR A NOVOS LEITORES QUE JAMAIS CONHECERIAM NOSSO MATERIAL SE O PROMOVÊSSEMOS ISOLADAMENTE. E NA PIOR DAS HIPÓTESES, AO MENOS TEREMOS UMA DESCULPA PARA INSANAS FESTAS DE CONFRATERNIZAÇÃO E LANÇAMENTO DE ZINES. ENTÃO, MÃOS À OBRA. MISTURE-SE.

domingo, 30 de abril de 2017

DESTINO


Impropérios e críticas são lançados
como pedras em minha face;
meus dias são preto e branco,
com legenda para cegos

Estatelado na calçada;
 Pisoteado e amarrotado
Meu eu está irreconhecível:
Sou qualquer coisa que não seja eu

Como um parafuso que gira,
gira e gira,
faço operações que não queria
Infeliz etapa industrial

Encarar a realidade
sem Davi e seus salmos
A realidade são pedradas
no centro da minha fronte

A morte...a morte...- Balbucio
Não há mais lugar para mim
dentro da caverna onde todos
enxergam sombras refletidas

Venha morte...me leva
Liberta-me do ambiente egoísta;
torpe ganância desenfreada
Venha no relento da madrugada

Venha... Única certeza do homem
Quase todos te temem,
mas há todos consome

Venha...chegue mais perto,
mais perto,
mais perto
do fim

ESCOLINHA

Por: Alexandre Mendes

Roubava bomba d’água
e chinelo esquecido na porta
Essa é a história de Joninha,
meu parceiro vida torta

Metia só pra dar um belengo;
Fazia rolo na situação
Joninha vida torta,
rodou e foi pra prisão

Lá dentro, conheceu os feras,
como ele chamava: “Os fodão”
Dividiu com eles, a cela
de pavilhão em pavilhão

Passou o primeiro bucha,
No respingar da ducha,
segundo lhe passaram
a rígida instrução

Depois ficou mais fácil
Joninha empurrava o aço
e escutava o gemidinho,
só pra sua diversão

De tortinho deu uma volta,
bem mais torto que lá fora
De ladrão porco
a bandidão

É bandalha, porta a fora
Pulou a muralha
e fez a hora
Segundo a sua decisão

Com uma taurus na cintura
é cerol da linha dura
Não pisca o olho,
senão “cê” vai dançar

Carceragem é escola
Uma grande piada;
Motivo de gargalhada,

reforçando o grande Nada

TROPA DE ELITE

Por Alexandre Mendes
-Opa, opa! Perdeu!- disse o policial que chegou sorrateiramente por trás do rapaz. - Fumando maconha na rua! Bonito! - E deu logo um cachação no pé da orelha do moço.
- Que isso! Peraí! É só uma pontinha. Estou chegando do serviço agora. Sou trabalhador. Não passa quase ninguém por essa rua, então decidi queimar aqui mesmo!
-HAHAHAHA! Ele falou que é trabalhador! - Disse o milico para o seu colega, que se aproximava com a pistola na mão.
- Trabalhador e maconheiro? Tu é vagabundo! - Gritou o soldado, enquanto golpeava o rapaz na barriga.
-Pô, eu sou servente de obra. Pode ver, minhas mãos são cheias de calos.- Murmurou o infrator, com a voz trêmula de medo. O segundo policial aproveitou as mãos estendidas do indivíduo e resolveu lhe dar um corretivo com o cacetete em suas palmas.
- Filho da puta! Só tem essa bagana? Cadê o bagulho?
- É só isso...- Olhos lacrimejando.- Só essa pontinha!
O policial que chegou primeiro fitou-o com os olhos vermelhos de ódio. Puxou uma trouxinha de cocaína do bolso e lhe disse:
-Ô seu mané! Isso aqui é seu e tu vai em cana.
-Não! Não! Por favor! Eu tenho uma filha pequena e...
- Tomá no cú! Não te perguntei nada!- Vociferou o soldado, dando-lhe mais um tapa na cara.- Meter você na cela dois. O xerife adora mulher magrinha! HEHEHEHE...
- Não... Espera, vamos negociar. Tô com o pagamento da semana aqui. Pode levar tudo. - Disse o servente de obra, já com a cara vermelha de tanto apanhar; face intumescida pelas lágrimas.
- Passa pra cá!- Ordenou um dos carrascos para a vítima.  Após a contagem do vencimento da semana do indivíduo, o policial argumentou truculentamente:
- Cem é pouco! Dá o relógio!
O rapaz tirou o relógio do pulso e, rapidamente, o entregou a autoridade presente. Pensava em nunca mais passar por aquilo em sua vida. Entrar para uma igreja evangélica. Usar Deus para esquecer sua miséria, ao invés do fumo proibido.
-Ô otário, tá vendo essa reta aqui? Te dou cinco segundos para sumir no horizonte. - Ordenou-lhe, um dos homens da lei.
O elemento não pensou duas vezes: Como uma flecha, sumiu na esquina.
Os policiais seguiram na direção contrária, dobraram a esquina e entraram na patrulha.
- Segura sessenta contos que eu te devia dez, lembra?
-Tranquilo... fica com o relógio, pois não gostei da cor e...estica logo essa farinha no espelho que eu tô cheio de sono!

GG ALLIN

Por: Alexandre Mendes

Vê aquela flor?
Um dia, ela foi rosa
perfumada, bonita
impávida e formosa.
Hoje, jaz no triste limbo
seca, cinza e horrorosa

Vê aquele animal?
Um dia teve sorte
abanando a cauda,
alegre e forte.
Hoje, expele dolorosos vermes
esperando a própria morte

Vê aquela construção?
Um dia foi admirada
retilínea, colorida
janela e porta cor de prata.
Hoje, abalada e vazia
entregue à cupim e barata

Vê aquele homem?
Um dia foi contente
hábil, musculoso
viril e atraente.
Hoje, acamado e febril
cheio de escaras, inconsciente

Vê o nosso mundo?
Um dia foi arejado
água limpa; solo rico
clima ameno e temperado.
Hoje é superaquecido,
poluído e desmatado

Vê como é o destino?
Um dia é otimismo
crença em contos
verdade mau contada
outrora é escuro abismo,
e o fim da linha revela o nada.

MÍNIMO

Por: Alexandre Mendes

Lambe logo o meu chão,
meu escravo; desgraçado
Deixa tudo bem limpinho,
porque eu pago seu salário

Pega esponja e desinfeta,
fedorento sanitário
Deixa tudo bem cheiroso,
porque eu pago seu salário

Serve logo meu almoço,
tô com fome, ordinário
Quero ver o seu sorriso,
porque eu pago seu salário

Agora, compra meu cigarro,
não demora, meu lacaio
Quer ouvir um desaforo?
Porra, eu pago seu salário!

Te humilho com prazer
Quero você conformado
Nós nascemos para isso
e eu pago seu salário


Homo Sapiens

Por Alexandre Mendes

Memórias de um operário

Por: Alexandre Mendes


   Foi um papo de e-mail com o Ivan Silva que me inspirou a escrever sobre a minha experiência de vida, adquirida como ambulante, nas ruas do Rio de Janeiro.
Há muito preconceito sobre essa profissão, ainda. O fato é que se por um lado, os ambulantes não pagam impostos para vender suas mercadorias, por outro, aliviam as estatísiticas do desemprego, nas grandes capitais.
Todo ambulante que se preza tem que ter os seus apetrechos: Tripé e bandeija de madeirite, plástico com cordas, amarradas nas pontas(o que chamamos de paraquedas) ou grade, para expor as mercadorias.
As ruas do centro podem ser lucrativas ou perigosas para um ambulante. O lugar mais seguro para se trabalhar, talvez seja o sinal (semáforo). Alí, o vendedor expõe a sua mercadoria na mão, sem risco de perdê-la para o rapa.
Trabalhar nas ruas mais movimentadas, chama-se "perde-ganha". O ambulante pode arrebentar nas vendas, entretanto, o risco de perder a mercadoria para o rapa é bem maior e o trabalho é feito correndo deles, pela avenida, o tempo todo.
A Avenida Rio Branco é uma das mais perigosas. Alí, volta e meia, a porrada entre ambulantes e o rapa, estanca. Para trabalhar na Presidente Vargas, Amaral Peixoto ou Rio Branco, só de paraquedas. Nessas ruas, é comum que os vendedores combinem gritos, como o barulho de uma ambulância, para
avisar que o rapa está fazendo a limpa.
Eu sei como é difícil perder a mercadoria para os carrascos da Prefeitura. Mas contarei mais um pouco disso, em uma outra oportunidade.


Memórias de um operário II


Por: Alexandre Mendes

 Nessa época, eu vendia blusas de banda de rock na Praça São João, em frente a Secretaria de Educação. Tinha que chegar cedo para pegar a sombra do telhado do prédio público, ao meio dia. 
Foi alí que conheci muitos ambulantes, com mercadorias variadas. Gostava de trocar idéia com os africanos. Esse grupo tem crescido no mercado informal, cada vez mais. Normalmente, comercializam cintos e produtos de beleza feminino. São angolanos, quenianos, argelinos. Eu gostava muito de praticar o meu inglês com os quenianos.
   Conheci um cara recém chegado da Paraíba. Seu nome era Antônio. Seu irmão era pipoqueiro na região. Antônio estava hospedado na casa dele. Vendia guaravita, cerveja e refrigerante, em um isopor amarrado em um carrinho de duas rodas. 
Cada rua tem o seu horário para ser liberada para os camelôs. O rapa para de enfernizar a vida dos camelôs na Avenida Amaral Peixoto às 19:00 da noite. "Após esse horário é difícil de haver algum tipo de fiscalização." - Pensava eu.
   Chamei Antônio para conhecer o pico mais movimentado, após às 19:00. Ele me acompanhou. Montamos nossos apetrechos na lateral da Avenida. Por um instante, dei as costas para minha grade.  Antônio tinha ido procurar um banheiro e eu fiquei vigiando o carrinho dele. Enquanto eu vendia um guaravita, o rapa veio por trás de mim e tomou a minha grade. Tentei argumentar, mas eles me cercaram. Jogaram a minha grade dentro da Kombi. 
De repente, Antônio apareceu, mas já era tarde: o rapa já estava tomando a mercadoria dele. 
Ele seguiu o meu conselho e segurou o carrinho. Os discípulos de Satanás levaram somente o isopor e toda a mercadoria que tinha dentro do carrinho. 
Enquanto a Kombi se distanciava da gente, uma cena inusitada se desenrolava perante os meus olhos: Antônio, paraibano, recém chegado ao Rio de Janeiro, sentou no meio fio e chorou.

Memórias de um operário III

Por: Alexandre Mendes

Houve um tempo em minha vida que sobreviver, dia após dia, era um desafio. Tentei montar mil negócios clandestinos! Não visava comprar carro, nem almoçar em restaurante. O meu objetivo era simples: chegar em casa com pelo menos duas sacolas de compras. Éramos quatro, nessa época. Minha esposa não podia trabalhar fora, pois não tinhamos com quem deixar as crianças. Então, eu me armava e me dirigia até as trincheiras da cidade.
 Passei a procurar um sinal (semáforo, para alguns) onde pudesse vender alguma mercadoria. Após passar um dia inteiro perambulando, achei o lugar perfeito: a subida da ponte Rio-Niterói, entre o 12º Batalhão da PM (Niterói) e a Favela do Sabão. Que adrenalina, trabalhar no meio daquele cotidiano fogo cruzado!
Observei o número de ambulantes e suas mercadorias. Havia, aproximadamente, umas nove pessoas ganhando a vida naquela travessia. Vendiam refrigerante, frutas que traziam do Ceasa, brinquedos de criança e utensílios para automóveis. 
Decidi, então, vender mariola. No entanto, conseguir um sinal para trabalhar não é tão simples assim. O ambulante tem que ser aceito pelos vendedores mais antigos do local. Se não forem com a sua cara, você corre o risco de tomar uma coça e ser expulso dalí.
Meu primeiro dia não foi fácil. Cheguei bem cedo, antes que todos chegassem. O velhinho que vendia "Suflair' me aceitou numa boa. Sidnei, o cara que vendia capas para volante, me riscou de cima a baixo. Quando os meninos que vendiam frutas chegaram no ponto, Sidnei começou a cochichar sobre a minha presença no local.
Já devia ser meio dia e o sol começou a incomodar. Mariolas não fazem tanto sucesso no sol quente e foi se tornando cada vez mais difícil de vendê-las. Isso, sem contar com o fato de algumas pessoas que fecham o vidro na sua cara, de maneira arrogante ou, simplesmente, por terem medo de você.
Sidnei chegou perto e disse: - Mermão, esse sinal já está cheio de gente. Não vai dar pra você trabalhar aqui.
Argumentei, então, com toda a astúcia que a rua havia me ensinado: - Pô, cara. Minha mulher e filhos estão esperando que eu traga algo, que não seja mariola, pra gente jantar. Quebra essa, irmão! Não vou te atrapalhar! Come uma mariola! - E desfalquei o lote do produto, na intenção de ganhar a confiança dele. Sidnei comeu uma, duas, três mariolas! Os outros também pediram e eu acabei perdendo um pacote inteiro de mariola para aqueles esfomeados. 
Apesar de tomar um prejuízo inicial, o ato me beneficiou. Era como se fosse uma iniciação: agora, eu fazia parte do quadro diário de ambulantes daquele sinal. Trabalhei um ano e pouco com aqueles caras. Fiz a minha clientela. Em dias quentes, vendia refrigerante e cerveja. 
Certo dia, um homem tentou vender mariola no meu ponto, mas ficou estreito para ele. Eu já era o vendedor de mariolas oficial do local. Tentou botar bronca e foi uma péssima idéia: atiramos o pacote de mariola dele no meio da rua. Puxa, como ele teve que correr!


Memórias de um operário IV

Por: Alexandre Mendes
  
Já fazia um tempo que não usava a minha imaginação para ganhar dinheiro. Costumava colocar a melhor roupa que tinha, me barbear e me dirigir até a zona sul. Fazia uma rota pelos pontos de ônibus da Praia de Icaraí e adjacências, abordando as belas senhoras que eu acreditava serem moradoras da região. Meu sermão era, mais ou menos, assim:
- Bom dia, senhora. Eu vim de Itaboraí (ou qualquer outro lugar distante dalí) para ver um emprego de serviços gerais naquele prédio (apontava para qualquer um) e quando cheguei, haviam dado a vaga para outro. Poderia me ajudar com um vale transporte ou qualquer quantia em dinheiro, para que eu possa voltar pra casa? (que cara de pau!)
  Conseguia, com essa façanha, garantir as duas sacolas de compra até o meio dia. Era magnífico! Mas o meu forte nunca foi pedir esmolas, sempre me sentia muito mal com isso. 
   Guardava as segundas feiras, pela manhã,  para procurar emprego. Mas, puxa! Como era difícil! Ainda não tinha conseguido a porcaria do certificado de dispensa do quartel e, por isso, nenhum lugar me empregava. Em casa, duas bocas para alimentar e um faminto para nascer...
A minha cara já estava batida naquela rota e eu temia ser descoberto. Eu era um criminoso facilmente enquadrado no artigo 171.
Tentei lugares mais longínquos, como o Fonseca ou Santa Rosa, mas a minha estorinha não fez tanto sucesso nesses bairros. Precisava trabalhar de verdade, novamente.
Foi quando um vizinho de parede, no cortiço em que eu estava hospedado, me chamou para trabalhar nas obras da nascente Barra da Tijuca. Instalar piscinas de fibra nos casarões, me pareceu muito agradável. O salário não era dos melhores, mas não tinha muita escolha.
   Então, me tornei um servente de obras.
 A equipe era composta por um mestre, um meio oficial de pedreiro e um servente que, nesse caso, era eu. 
Ficávamos cerca de três dias, dormindo nos cômodos mal acabados dos casarões, sem iluminação. As muriçocas gigantes não incomodavam tanto na hora de dormir, pois trabalhavamos do nascer ao pôr do sol. e, quando me deitava no papelão, parecia estar morto de verdade.  Quando o dono da loja de piscinas ligava, apressando a entrega do serviço, eu continuava cavando o buraco da piscina, com o auxílio de uma lamparina. Certa vez, estava tão cansado que não conseguia erguer a lata de margarina cheia de concreto, improvisada de balde. Carregava-a na altura da cintura e isso fez com que o cimento escorresse para dentro da minha bermuda. Puxa! Como doeu na hora de urinar! 
E foi assim que aprendi. Nunca mais deixei as minhas partes mais sensíveis entrarem em contato com o cimento.



Restos

Por: Nihildamus


 O Nada é o único elemento que pode esclarecer as virtudes inventadas pela humanidade. O desejo de desvendar o mundo e seus segredos, característica quase genética do homem, o impele a crer em fábulas... o problema é o medo de descobrir o quê vem após a morte. Esse é o grande culpado!

"Robele, robele
mizangadsh sarum"

A infidelidade, em todos os níveis, deve ser combatida!
Confiança....essa é a palava chave!
Traga confiança e terás confiança
Mediocridade, hipocrisia
não serão bem vindas!

"Zilimeiuo brot asgarimidet"

Seja amigo do seu amigo
e não dê a retarguada
para quem você julga
ser o seu inimigo

"Zilmebleb, zilimeiuo"

Sabedoria, meus irmãos...
pensem, antes de agir
viver pode ser algo raro,
quanto mais,

 nesse mundo existir

AS LEIS JIM CROW

POR: ALEXANDRE MENDES


    Há certos momentos em que o ser humano necessita se organizar, avaliando determinados episódios da história, a fim de evitar repetidas tragédias e momentos críticos. 

Sem dúvida alguma, foi o movimento negro (décadas de 50 e 60) que lutou por direitos civis no sul dos Estados Unidos, um dos maiores exemplos de coragem na conquista de um objetivo do século XX, desde o fim a Guerra da Secessão norte-americana (1865),  no pós abolição da escravidão no sul. No entanto, as autoridades sulistas conseguiram aprovar uma lei que pedia a segregação do espaço público, mas com "igualdade". Porém, isso só acontecia no papel. Nenhum hotel no sul aceitava hóspedes negros; as escolas eram separadas, a dos negros era bem inferior em todos os aspectos; a maioria dos bares e restaurantes não serviam negros; e nos ônibus, os negros só podiam se sentar nos fundos. Se o ônibus enchesse, ele era obrigado a dar seu lugar ao branco. Eram as leis conhecidas como "Leis Jim Crow". 
 No ano de 1929, em 15 de janeiro, nasce em Atlanta, Geórgia, Martin Luther King Jr. Filho de um pastor, Luther King foi criado com seus dois irmãos, protegidos de todos os lados, por seus pais. Jamais deixavam os filhos pegar um ônibus, sempre tentando afirmar o valor que eles tinham, apesar da opressão aos negros. 
Uma característica interessante, na pregação do já Pastor Luther King, era o incentivo para a comunidade negra lutar por seus direitos. Enquanto a maioria dos pastores negros falavam da salvação após a vida, ao invés de se preocupar com as privações que passavam em vida, Martin Luther King buscava conscientizar a comunidade negra do sul a lutar pelos seus direitos civis. Em 1º de dezembro de 1955, uma mulher, de nome Rosa Parks, ex- secretátia da NAACP (Associação Nacional para o Progresso das Pessoa de Cor) pegou o ônibus, na volta do trabalho (era costureira), e se sentou. O ônibus encheu e um branco lhe pediu o lugar. Então ela se recusou a levantar, e foi presa. Esse episódio foi o estopim para o avanço da luta pela revogação das Leis Jim Crow, por parte dos negros do sul norte-americano.
 Sob o comando pacífico (baseado na conquista dos direitos humanos através da não violência, de Gandhi), porém persistente, de Martin Luther King, as pregações vinham do fundo de sua alma, reivindicando a liberdade negra por completo, no sul. 

*_ "Eu lhes digo...", começava.
_ "Diga doutor" respondia a congregação.
_ "...Que qualquer religião que se diga preocupada com as almas das pessoas..."
"Sim, isso mesmo", era a resposta.
"...e não está preocupada com a miséria a que estão condenadas..."
"Amém, irmão!
"...e as condições sociais que as reduzem..."
"É isso aí!"
"...é tão árida quanto uma religião de pó".
"oh-hoh"
   Os negros fizeram um boicote aos ônibus do dia 5 de dezembro de 1955, até 21 de dezembro de 1956. Graças ao apoio das frotas de táxi negras (cobravam o valor da passagem do ônibus), o boicote foi bem sucedido. Com a pressão feita sobre o governo americano, conseguiram dar plenos direitos civis aos negros, no interior dos ônibus. 
Em seguida, a admissão dos negros nas escolas públicas para brancos.
  O sit-in era uma forma de protesto, no qual os negros sentavam-se nos bancos de bares e lanchonetes, e diziam que só sairíam, se fossem servidos.
  É certo que houve represálias por parte da Ku Klux Klan, organização racista contrária aos direitos civis negros. Enforcamentos, mutilações, assassinatos e explosões.
  Luther King também tinha diversos inimigos no poder público, como o diretor do FBI Edgar Hoover; o chefe de polícia de Albany Laurie Pritchett; e o comissário de polícia de Birmingham Eugene "touro" Connor.
 Até conseguir o apoio de Kenedy, Martin Luther King Jr. já havia sido preso várias vezes, e sua casa explodida mais de uma vez. No entanto, até a sua morte, jamais abandonou a causa. 
 Em 28 de agosto de 1963, os negros organizaram uma marcha até o Lincoln Memorial, em Washington, onde, exatamente cem anos antes, Abraham Lincoln havia assinado a abolição da escravidão nos Estados Unidos. A quantidade esperada de expectadores era de 100 mil. No final havia aproximadamente 250 mil negros e brancos de todos os credos, unidos pelo fim da segregação racial no sul.
A marcha pelos direitos civis foi determinante para a promulgação de novas leis no sul. Os negros também conquistaram o pleno direito ao voto, nesta data. Em seguida, Luther King Jr. continuou dedicando sua vida à comunidade negra local.

Luther King foi brutalmente assassinado, no dia 4 de abril de 1968, com uma bala no rosto, na sacada do Motel Lorraine. Ele iría discursar em apoio a greve dos garis da cidade de Menfhis. Sua morte causou uma revolta em todo o país.

    Temos um exemplo de persistência e coragem na luta por um objetivo. Devemos nos conscientizar do poder que temos, como maioria, contra os poderosos que se beneficiam das regras do capitalismo em nosso detrimento. Detrimento que é capaz de alcançar um homem, em seu interior. Um trabalhador oprimido, que necessita de "hora extra", ou "dobra", para garantir os seus direitos mínimos, pouco tempo tem para explorar seus talentos e habilidades. Pedimos liberdade do julgo que nos é imposto.

*Citação: Grandes Líderes, Editora Nova Cultural, 1987

Desenhos e quadrinos A.M.

- https://mondelingegeskiedenis.blogspot.com.br/2011/07/desenhos-e-quadrinhos-2.html
- https://mondelingegeskiedenis.blogspot.com.br/2011/06/desenhos-e-quadrinhos.html

Nestor

Por: Alexandre Mendes

Não há mais empregos
     Não pode atestados
          O império do medo
                  está ao seu lado

Faltar nem pensar
    senão você dança
        e pro final se lança
                  da fila maldita

Onde o último foi
  sorridente, o primeiro
            mas chora agora
         sem pão com centeio

                 e nem leite em pó
                     pois não vive só
                        barriga, chupeta
                    neston, mamadeira

         Segue se arrastando
               Vive em devaneio
                   trabalho, carteira
                      Gari, Ladrilheiro

Memórias de um operário V

Por: Alexandre Mendes

 Duro mesmo, foi a época em que eu trabalhava em dois empregos ao mesmo tempo.
Trabalhava em uma obra de dia e num trailer a noite toda. Entrava na obra, virava a noite no trailer e entrava na obra de novo, isto é, dois dias e uma noite trabalhava direto e uma noite sim, outra não, eu dormia na minha casa no Capote.
Tinha comprado um revólver Rossi, calibre 32, para minha esposa. Ficava preocupado com ela e com as crianças. O lugar era meio sinistro e só tinha duas entradas. O ônibus passava lá dentro de uma em uma hora. Dar de cara com defuntos no meio do caminho era comum.
Trabalhava no trailer de sete da noite as sete da manhã. O trailer ficava próximo ao Hospital Antônio Pedro e o movimento de pessoas no local era intenso, até umas três horas da manhã.
De vez em quando, eu pegava no sono.
Certa vez, houve uma fuga de menores infratores do Instituto Padre Severino. Encontraram abrigo sob um toldo de loja fechada, em frente ao trailer. Um rapaz maior comandava a molecada.
Uma noite, eu peguei no sono por volta das quatro da manhã. Tinha esquecido de abaixar uma das janelas do trailer, como  fazia de costume. Pressenti algo entrando pela janela, enquanto estava de olhos fechados. Foi, então, que eu os abri. Um garoto de seus doze anos invadia o trailer, quando percebeu o meu despertar e disfarçou, sentando no apoio de ferro do balcão.
- Fala o que você quer. – Perguntei truculentamente para o moleque.
- Um guardanapo. – respondeu ele, retornando para fora do trailer, lentamente.
Ocorriam sempre situações desse tipo.  Muitos viciados traziam apetrechos domésticos de suas casas para vender por lá. Secadores de cabelo, calças e relógios.
Depois, me dirigia para o outro emprego, na reconstrução de uma casa em Vista Alegre. 
Muitas sapatas para cavar e todas bastante profundas. Foi nessa obra que eu aprendi, de fato, todo o processo de uma construção. Foi somente após essa etapa de aprendizado que eu comecei a construir a minha casa, no Rio do Ouro.
Mas trabalhava sempre cansado. Uma vez, almocei a minha marmita e fui tirar um ronco. Acordei no fim da hora do almoço. Peguei a vassoura e fui dar uma varrida nas beiradas das sapatas.  Elas já estavam com os radiers concretados e, para minha sorte, nós havíamos amarrado a ferragem das colunas, antes do almoço. Acabei pegando no sono enquanto varria a beirada de uma sapata e cai dentro dela. Minhas costas deslizaram na ferragem e eu fiquei bastante arranhado.
E assim, fiquei nesses dois trampos por um ano inteiro.