O COLETIVO ZINE É UMA AÇÃO CONJUNTA. A PROPOSTA É REUNIR DIVERSOS FANZINEIROS OU CRIADORES INDEPENDENTES E PRODUZIR UM TRABALHO COLETIVO. CADA PARTICIPANTE CONTRIBUI DA FORMA COMO PUDER, SEJA NA CRIAÇÃO, MONTAGEM, EDIÇÃO, ADMINISTRAÇÃO, DIVULGAÇÃO, DISTRIBUIÇÃO. O IMPORTANTE É SOMAR ESFORÇOS. E ASSIM MULTIPLICAR A DIVULGAÇÃO DO TRABALHO DE CADA AUTOR E DIVIDIR O TRABALHO. SE DER CERTO,CONSEGUIREMOS CHEGAR A NOVOS LEITORES QUE JAMAIS CONHECERIAM NOSSO MATERIAL SE O PROMOVÊSSEMOS ISOLADAMENTE. E NA PIOR DAS HIPÓTESES, AO MENOS TEREMOS UMA DESCULPA PARA INSANAS FESTAS DE CONFRATERNIZAÇÃO E LANÇAMENTO DE ZINES. ENTÃO, MÃOS À OBRA. MISTURE-SE.

domingo, 30 de abril de 2017

Memórias de um operário VI

Por: Alexandre Mendes


Apesar de tudo, eu ainda tinha amigos. Churros era meu camaradão, desde os tempos de moleque. Sua mãe (não lembro seu nome) me deu um papel com o endereço de uma cooperativa de serviços de entrega, e pediu que eu me apresentasse lá, na segunda feira de manhã.
Segunda feira, pela manhã: Me apresentei na Lapa, próximo aos arcos, como indicava o endereço. O prédio era velho e se amontoava com outros prédios, mais velhos ainda, ao redor. 
Subi de elevador até o décimo segundo andar e me apresentei na recepção. O cara que me atendeu, viu meus documentos e me perguntou se eu era primo do Mendes. Não pensei duas vezes e disse que sim. O rapaz pegou o rádio, um daqueles Motorolas antigos, gigantes, e comunicou-se com algumas lojas e disse:
- Começa terça feira, cinco da tarde, lanchonete, Rua Gavião Peixoto.
E eu pensando: - Putz! Que sorte, ter um cara com o meu sobrenome na parada. Na verdade, eu nem sabia quem era.  

  Comecei, então, a trabalhar no serviço de entrega da lanchonete. Me deram um uniforme e uma bicicleta Terraforte. Tinha que cuidar do veículo por conta própria e, o trampo, também não dava o dinheiro da passagem.No entanto, dava para arrumar um bom trocado, com as gorjetas dos fregueses. Quanto mais rápido eu pedalava, mais eu ganhava.
Foi aí, que meu último filho veio a nascer fora da data, aos oito meses, e eu não tive como comparecer no serviço. Liguei para a loja e avisei que não iria comparecer, pois estava levando minha esposa para o hospital.  O subgerente atendeu o telefone e disse que estava tudo bem.
No dia seguinte, após uma estafante manhã comprando os apetrechos do bebê, me dirigi ao trabalho, chegando as cinco da tarde, como era de costume.
De repente, uma surpresa: Tinha outro entregador no meu lugar.
Falei com o gerente, que era o único responsável naquele momento. Ele me disse que não podia fazer nada.
Fui para casa e tive uma noite triste. Acordei de manhã e fui visitar minha esposa e Davi, meu caçula, no hospital . Estava com o semblante muito triste. Confesso que esse momento foi um dos piores da minha vida, pois foi o meu primeiro emprego, depois de trabalhar em diversos bicos, por quatro anos seguidos.
Liguei para a loja, após a visita. O subgerente atendeu e exigiu que eu voltasse, imediatamente. – Não! Vem trabalhar normal que eu vou resolver isso, agora!
E essas são duas pessoas que eu sou eternamente agradecido, a mãe do meu amigo, Churros e o subgerente da tal lanchonete.


Memórias de um operário VII

Por: Alexandre Mendes
  
Era sexta feira, o último dia de trabalho da semana. Normalmente, as obras davam o fim de semana inteiro de folga. Trabalhava acelerado, pois queria acabar a tarefa até às quatro da tarde. Almejava pegar o pagamento da semana e fazer algumas compras, no supermercado.

Após muito suor e correria, consegui concluir meu trabalho e recebi a merreca da semana. Tomei banho, me arrumei, e peguei o ônibus para Niterói, na intenção de passar no mercado.

Comprei tudo que estava escrito no bilhete, feito por minha esposa, antes de eu sair para o trampo. Deu umas quatro sacolas de compras. O dinheiro que sobrou era pouco, mas poderia ser necessário gastá-lo, durante o fim de semana.
Caminhei até o Terminal Norte, carregando minha mochila cheia nas costas (roupa de trabalho, marmita vazia etc), e as sacolas de compras nas mãos. Me sentia muito cansado. Ainda teria que esperar na fila do ônibus e viajar por, aproximadamente, uma hora até chegar em casa.
Fiquei de saco cheio de esperar na fila e peguei o ônibus 538, “Jockey”, que já saia do Terminal lotado. Passei na roleta e, com dificuldade, me acomodei na parte central do corredor.
Um rapaz, que estava sentado no banco a minha frente, ofereceu o espaço entre as suas pernas e o banco dianteiro, para que eu repousasse as minhas sacolas. Consenti. Confiei as minhas compras ao rapaz e me desliguei da vida. O tempo de viagem era longo e tortuoso, pelas curvas fechadas da Avenida Amaral Peixoto.
Pensava no almoço de amanhã, quando me liguei que o ônibus já estava parado, no ponto em que eu tinha que descer. Disparei em direção a porta de saída e desci do ônibus.
O coletivo saiu do ponto e foi, então, que me lembrei das compras, deixadas com o rapaz sentado. Saí correndo atrás do ônibus, na esperança de ver o cara, pelo menos, descendo do ônibus. Corri até o ponto final e não o achei.
Regressava para a estrada, triste e cabisbaixo, quando dei conta de que ocorrera algo pior: minha carteira tinha caído do bolso de trás da bermuda, enquanto eu corria atrás das compras.
Comecei a suar de nervoso. Sem compras. Sem dinheiro. 
- Ô! Você deixou cair a carteira! – Bradava um camarada, do outro lado da pista, em frente ao ponto, no qual eu havia descido do ônibus.
Atravessei a pista, me sentindo mais tranquilo. “Pelo menos, tenho o resto do pagamento.” – Pensei. No entanto, quando abri a carteira, não tinha mais um tostão dentro.

- Ué! Não foi você que achou? – Perguntei ao camarada, desconfiado.

- Não! Eu peguei depois que um cara já tinha mexido. – Disse o sujeito.

Fui embora, desesperado. Fui obrigado a pedir fiado na mercearia da esquina e só paguei as compras na sexta feira, seguinte.

Sem dúvida alguma, esse foi um dos episódios mais terríveis.


Bakunin e a Internacional

 Por: Alexandre Mendes

Michail Bakunin nasceu na Rússia , em 1814. Mesmo sendo de ascendência nobre, Bakunin não seguiu os passos desejados por sua família, tornando-se um dos formuladores do anarquismo e revolucionário, após ser influenciado pelas leituras de¹ Fichte e ²Hegel. Bakunin viveu as revoluções parisienses de 1848.

Foi entregue a polícia czarista, após a sua efetiva participação nas revoluções de 1849, em Dresden (Alemanha). Foi, então, deportado para a Sibéria, de onde acabou fugindo.

Em 1864, Bakunin foi para Londres e encontrou-se com Karl Marx. Ele, então, pediu a Bakunin que fundasse algumas seções da Internacional na Itália, a fim de combater a hegemonia ³Mazziniana no meio operário. Bakunin aceitou a proposta de Marx e fundou, em 28 de setembro de 1868, a Aliança Internacional da Democracia Socialista, com posições federalistas e ideário proudhoniano. A Aliança, também, foi influenciada pelos carbonários.

Em 31 de janeiro de 1869, é fundada a 1ª Seção italiana da Internacional e, um mês depois, ela é admitida na AIT.

A Internacional

A Associação Internacional dos Trabalhadores foi fundada em 28 de setembro de 1864, em Londres.

1ª Fase

De hegemonia dos proudhonistas, das seções francesas. (Adeptos do Mutualismo)

2ª Fase

De hegemonia Bakuniniana, com ênfase no Coletivismo. O fato ocorrera após o enfraquecimento das seções francesas.

Nos Congressos de Bruxelas (1868) e da Basiléia (1869), venceu o idealismo coletivista que, aparentemente, se aproximava do Comunismo de Marx. Entretanto, Bakunin e Marx não se entendiam, pois  Bakunin pregava a destruição dos Estados, enquanto Marx não adotava tal posição, claramente.

Mas, foi durante a Resolução IX, da Conferência de Londres de 1871, que os dois movimentos entraram em choque. Os libertários não admitiam o uso da política partidária, para fins revolucionários.

Marx, então, defendeu a centralização da AIT , junto com o Conselho Geral, fundando o Comitê Federal de Genebra.

  Em resposta, os libertários da Federação Romana da Internacional proclamaram a fundação da Federação do Jura, no Congresso de Soinviller, em 12 de novembro de 1871.

Durante o congresso, a Federação do Jura acusou Marx e o Conselho Geral de hierarquização e autoritarismo, quanto a sua posição ideológica, dentro da AIT.

Michail Bakunin faleceu em Berna (Suíça), no dia 1º de julho de 1876.



¹FICHTE, Johann Gottlieb - Filósofo alemão.  Contrariou Kant, tomando o Eu como absoluto. (1762-1814)

²HEGEL ,Georg Wilhelm Friedrich – Filósofo alemão. Teórico da Tese, Antítese e Síntese. Influenciou a obra de Marx. (1770-1831)

³ Giuseppe Mazzini – Defensor da unificação italiana e do republicanismo, recusou-se a fazer alianças, com marxistas e monarquistas. (1805-1872)


Texto de Apoio: Da Primeira Internacional a Internacional antiautoritária. Revoluções. Ed. Três, 1973. Pag. 347

Glória

Alexandre Mendes

   Ela só queria ver o sol brilhando, iluminando a sua passagem. Mas tinha medo do preconceito.
- Como, as pessoas vão reagir?
Ela gostaria de sacudir a cabeça e abrir os olhos. Mas tinha medo do quê diriam.
- Como, mamãe vai reagir?
Ela queria fazer, aquilo que queria fazer, não o que tinha que ser feito. Mas tinha medo.
- Como, os meus colegas do trabalho vão reagir?
   Morreu, sem sacudir a cabeça. 
   Morreu, sem abrir os olhos.

Memórias de um operário VIII

Por: Alexandre Mendes

  Já estava de saco cheio de trabalhar na entrega da lanchonete.  O que mais me aborrecia era que todos os funcionários efetivados no estabelecimento, queriam mandar nos entregadores. Nós éramos membros de uma cooperativa e não tínhamos carteira assinada. Qualquer vacilo, até logo! Muito inseguro...

Como sou um cara bem comunicativo, conheci o gerente de uma lanchonete da zona sul de Niterói. O cara pegava o ônibus comigo, no ponto da Roberto Silveira, na volta do trabalho.

Um dia, Juarez me disse que abririam uma nova lanchonete, em Itaipú e, me perguntou se eu gostaria de trabalhar, no tal estabelecimento.

- Claro que sim. – Respondi.

Apresentei-me, com os meus documentos na lanchonete, aonde Juarez era gerente.  Disseram-me, o dia em que eu deveria me apresentar para o treinamento.

Tinha que arrumar uma desculpa para ser dispensado da entrega, antes do dia de apresentação no emprego novo. Esperei o momento certo, isto é, um dia antes da apresentação.

Havia um outro subgerente, que era insuportável. Metido a dar esporro, nenhum de nós, entregadores, gostávamos dele.

Fui fazer uma entrega e quando voltei para a lanchonete, já era meia noite. As portas já estavam cerradas. Cheguei recolhendo minha bicicleta no depósito. Hora de ir embora.

- Leva essa entrega, aqui! – Disse o subgerente, arrogante como sempre.

- Não! Já deu a minha hora! Vocês vão me pagar hora extra?

- Guarda a bicicleta e não vem trabalhar, amanhã. Liga umas dez horas, pra ver o quê a gente resolve, aqui, sobre o seu destino. – Disse ele.

- Então vou fazer melhor: Vou largar a bicicleta, aqui mesmo, e não volto nunca mais.

O subgerente ficou meio desajeitado e disse:

- Então, tchau!

Apresentei-me no dia seguinte no emprego novo. O dono decidiu que eu seria o chapeiro.


E foi assim que assinei a minha carteira novamente, depois de longos anos sem contribuir para o nosso falido INSS.

A destruição da cultura indígena no Brasil

Por: Alexandre Mendes


Durante a fixação da Igreja Católica no Brasil, os índios assimilaram a figura do padre, com a figura do pajé e a sua religiosidade. Eles acabaram aceitando a liderança dos monges franciscanos, dentro das aldeias, enfraquecendo o cacique e o Conselho de Anciãos das tribos.

Os índios, então, passaram a viver nas missões, sujeitando-se a todo tipo de trabalho braçal e instrução religiosa. Eles acabaram perdendo grande parte de sua cultura e liberdade. Sua rotina de fazer as coisas, apenas quando precisasse, tinha acabado...


Dentro das missões, cada coisa tinha o seu tempo determinado e a imposição da monogamia, com as famílias divididas em casas individuais, aboliu o quadro poligâmico anterior.

Mesmo assim, houveram costumes trazidos pelos monges que os índios não conseguiram assimilar, como o autoflagelo.

O teatro foi usado para pregar entre os índios. Os padres buscavam explicações para crenças e pensamentos dos índios, baseadas no ideário católico. Ex: “As Pegadas de Zumé”, em uma pedra na Bahia, seriam na verdade, as pegadas de São Tomé.


A Constituição de 1824 e o direito de religiosidade

O artigo 5 permitia cultuar outras religiões, entretanto, não era permitido nenhum tipo de propaganda de culto.

Beneplácito Régio- O Imperador nomeava Bispos e provinha os benefícios eclesiásticos. Havia um enlace entre o Governo e a Igreja. Os padres eram como funcionários públicos.

Os que praticavam as demais religiões eram considerados cidadãos de segunda categoria.

A exclusão dos protestantes, por parte do Estado, incentivou a reclusão das Colônias do sul. Tal fato contribuiu para a preservação da língua natal arcaica e costumes, em geral.


A Igreja Católica impôs a educação Colonial aos índios.


As heranças dos católicos de além-mar eram enviadas para as instituições da Igreja Católica.

Memórias de um operário IX

Por: Alexandre Mendes


Ainda lembro bem da primeira batalha que encarei nesta vida. Foi em uma loja de presentes e artefatos decorativos, aos treze anos de idade. Minha função era simples, mas bastante cansativa. Carregar e descarregar caixas de pratos, talheres, quadros, abajur etc. As vidraças eram lustradas, todos os dias. Varria a loja, tirava a poeira do estoque. Mas eu ainda era fisicamente fraco, apenas um moleque.

Certa vez, fui encarregado de levar duas caixas, repletas de pratos e talheres, até o carro de uma cliente. O carro estava estacionado na outra quadra. Não aguentei o peso da mercadoria e encostei as caixas em uma árvore da calçada, no meio do caminho. Pedi desculpas a moça, que acabou compreendendo a situação, resolvendo me ajudar.

Cumpri a promessa de que quando eu recebesse o meu primeiro salário, compraria um tênis de couro, pois aquilo era uma novidade. Eu nunca tinha tido um, pois era muito caro e a maioria dos tênis era de marca importada. Usava tênis de lona, tipo All Star, cano longo ou cano curto. Acabei comprando um Le Chevall branco, cano longo, de napa. Caramba! Como eu furei festinha de quinze anos, com aquele tênis!

Mas a minha carreira naquele serviço foi curta e, antes de completar quatorze anos, eu já estava fora. 

Fiquei um ano parado, apenas tentando concluir os meus estudos. Ah! Tempo bom que eu tinha mãe! Trabalhava só para comprar meus discos de rock e me divertir!

Quando completei quinze anos, minha mãe me arrumou um trabalho, através de uma conhecida. Tornei-me, então, Auxiliar de Oficina, em uma concessionária de automóveis, no Bairro Santa Rosa. 


Memórias de um operário X

Por: Alexandre Mendes

Após largar a bicicleta na porta da lanchonete, deixando de lado o serviço de entregador, apresentei-me no outro batente, no dia seguinte.

Cheguei ao estabelecimento na parte da tarde, a pedido do dono.

Ganhei duas mudas de uniforme, já usadas por outro funcionário. Camisa listrada, verde e branca, calça verde, de pano e sapato preto. Guardei a minha roupa no armário de ferro, numerado. Meu compartimento era o número 30.

Fui apresentado ao chapeiro do turno da noite. Era um paraibano branco, de cara larga e feições sofríveis, como as de qualquer migrante batalhador.

Aldo me ensinou as tarefas a serem, cotidianamente, executadas. Ligar os aparelhos (Chapa e fritadeira); Preparar a salada (Cortar tomate, alface e encher tubos de molho); Preparar as pastas (Milho, ovo, frango e atum) e outros detalhes.

O treinamento visava preparar os novos funcionários para o trabalho na nova loja, que estava prestes a ser inaugurada.

O movimento de clientes era intenso, nos fins de semana. Os balconistas gritavam seus pedidos, tanto para o setor do suco, como para o setor da chapa. Era necessário guardar o pedido na memória. Se a chapa ainda não estivesse cheia, era melhor colocar a carne para assar, o mais rápido possível.

Eu já conhecia os métodos empregados por Aldo para me ensinar o serviço. Lembrei-me do primeiro mestre de obra que auxiliei. Ele xingava muito o aprendiz, enquanto ensinava.

Eu me considerava forte àquela altura e aturei o treinamento, até me tornar um profissional.

Três meses depois, inauguramos a nova loja. Trabalhei nela durante quatro anos e meio, sempre no mesmo setor, no turno da noite. Como o meu horário era o de maior movimento, tive um relativo valor para o meu patrão, enquanto trabalhei no local. Treinei os auxiliares de chapa, contratados para os fins de semana.

Um dia me cansei do trabalho. Não via a menor perspectiva de crescimento profissional, no estabelecimento. A correria era muito estressante. Eu já trabalhava na chapa, há quatro anos e meio.

Foi quando alguém me chamou para uma nova oportunidade de trabalho, como gerente de uma loja de decoração.

Negociei com o patrão a minha demissão.

Logo depois, entrei em uma furada...


Memórias de um operário XI

Por: Alexandre Mendes


    Após me desligar da lanchonete, encontrei-me com a cliente que me propôs o emprego de gerente, na loja de decoração.

   Concordei com o salário proposto, pois era bem mais do que eu ganhava na chapa. A vontade de executar outro tipo de tarefa, para obter a minha renda, era muito forte.

   Tive que comprar camisas de botão e calças sociais. O cargo exigia uma boa aparência para atender o público. A barba deveria estar sempre bem feita.

  A infinidade de tecidos e preços me deixava louco. Tentava decorar aqueles números. Mas a responsabilidade estava um pouco além, disso...

 Fiquei responsável pela intermediação entre a dona da loja e os funcionários. Não conseguia entender porque, a princípio, os vendedores não falavam comigo direito. Pareciam estar furiosos com a dona da loja.

Acabei fazendo amizade com o auxiliar de serviços gerais. Ele me contou, então, que os funcionários não recebiam seus salários, já fazia três meses. Confesso que o fato me deixou chocado.

Certa vez, uma das costureiras me pediu um vale, alegando que precisava comprar fraldas para a sua neta. Fui até o escritório e passei o pedido da costureira para a dona.

Foi muito difícil para mim, dizer a pobre costureira que não tinha dinheiro no caixa e que, portanto, só poderia lhe dar o vale, quando entrasse grana.

Comecei a achar que a dona da loja era uma vigarista. Enchia a cara, o dia todo, trancada no escritório. Ela havia me dado uma procuração, para que eu pudesse tomar a frente na negociação das contas atrasadas da loja.

Aguentei o trampo apenas por um mês e meio. A essa altura, o meu pagamento já estava atrasado, junto com os salários dos outros funcionários.

Discuti com a mulher. Acusei-a de ter me convidado para uma furada e exigi que me pagasse logo.

Uma semana depois, ela depositou o dinheiro na minha conta.

Pronto. Estava livre e desempregado, novamente.

O dinheiro que sobrou, após pagar algumas contas, eu investi em blusas de rock, compradas em Petrópolis.


 Voltei, então, para as ruas.  

Memórias de um operário XII


Por: Alexandre Mendes

Comecei a trabalhar cedo, a pedido de minha mãe. Não entendia porque ela insistia tanto nisso. Mais tarde, quando descobri que o câncer a consumia, passei a levar a coisa mais a sério. Ela queria que eu me fizesse homem adulto, o mais rápido possível. Sabia que eu teria que me virar sozinho, quando ela morresse. Achava que nenhum dos meus tios ou pai me ajudaria. Mais tarde, essa certeza que ela carregava se concretizou...

Desvendei o mistério sobre a sua magreza e comecei a correr atrás de trabalho, aos dezessete anos de idade.

Sai de casa e fui morar com a minha atual esposa, em um pequeno cortiço no Bairro Arsenal, São Gonçalo.

Consegui, através dos classificados, um trabalho de vendedor de pastel com refresco, em lojas de automóveis e comércios em geral, no Centro de Niterói.

A firma era dentro de uma casa, onde moravam duas senhoras.

O pastel era feito por elas, que se revezavam no gerenciamento, e mais três empregadas. Uma cozinheira e duas auxiliares, para a produção dos pastéis. O refresco era posto em garrafas térmicas de cinco litros, as quais eram amarradas pelo vendedor no guidom de uma bicicleta. O pastel era armazenado em bandejas de madeira, forradas com isopor e papel metálico. As bandejas tinham que ser amarradas no carona da bicicleta.

Circulava, habitualmente, pelas mesmas ruas.

Meu público alvo, os funcionários dos comércios, faziam contas semanais, quinzenais e mensais.

Pilotava o “camelinho” junto ao trânsito, disputando as laterais das ruas, com motos e automóveis.

Nem sempre, os clientes quitavam os seus débitos e o fiado aumentava no caderninho, consideravelmente. Teve caso de gente morrer me devendo.

Um belo dia, eu me cansei de trabalhar para as duas mulheres e montei o meu próprio negócio. Comprei um recipiente de plástico e uma garrafa térmica de cinco litros e passei a vender sanduíche, nos antigos pontos.

Entretanto, eu não sabia que, um ano depois, eu acabaria voltando a trabalhar para as senhoras do pastel...

A Queda


Por: Alexandre Mendes

Fuuuaaaafuuuu... - Tentava respirar, caído no chão com uma bala no peito.
TATATATATATA! 
PÓPÓPÓ!
"Caralho! Caiu todo mundo!" - Me esforçava para enxergar, em meio a escuridão que atacava as minhas vistas.
- POLÍCIA! QUIETINHOS AÍ! A CASA CAIU!

Tarde demais. O bando não demonstrou a menor resistência...

Unknow

Alexandre Mendes

Juntando os pedaços de mim mesmo
dissolvidos em pequenas partículas
Atroz, astuto no mundo
Corpo estranho, metafísica
Cestos de palha seca
Gomos de laranja lima
Se alguém tiver uma colher
Me empresta, sem maresia.
 

Memórias de um operário XIII

Por: Alexandre Mendes

Houve um acontecimento que marcou a minha vida, no momento em que a obra de Vista Alegre acabou e, simultaneamente, discuti com as donas do trailer, abandonando o serviço.  Fiquei perdido e atordoado com a situação financeira em que me encontrava. A geladeira vazia e as contas atrasadas.

Quando o dono da casa começou a me cobrar os três meses de aluguel atrasado, todo dia, acabei pirando com a situação. Saia de casa, cedo, e não encontrava trabalho. Estava desacostumado com as ruas. Tentei voltar, mas acabei falindo. Fiquei completamente sem dinheiro. 

Lembrei-me do revólver calibre 32, que comprara anteriormente, pensando na segurança da minha família enquanto trabalhava no trailer. Até então, a peça não havia tido utilidade alguma para mim. Além do mais, eu nunca cheguei a atirar com a arma e, no final, quando eu a vendi, já estava bem enferrujada por falta de lubrificação.


  Sentia muito ódio no meu coração. Precisava trabalhar, mas não achava emprego. Apareciam de repente, trabalhos de venda sem remuneração fixa. Andar o dia inteiro tentando vender dez planos de saúde, com um nome que ninguém nunca ouviu falar antes. Não, nem tentava trabalhar nessas merdas.

Coloquei a arma na cintura, olhei ao meu redor. Precisava manter a casa intacta, a qualquer custo. Despedi-me de minha família (Davi não havia nascido ainda) e caminhei na direção do ponto de ônibus, por volta de umas onze e meia da noite.

Minha esposa chorava e implorava para que eu não fizesse aquilo. No entanto, a sua choradeira foi em vão. Eu estava decidido a trazer o dinheiro suficiente para acertar as dívidas e encher a geladeira.

O suor e o nervosismo tomaram conta de mim. Dois faróis enormes surgiram no horizonte. Fiz sinal. O ônibus parou.

Subi as escadas do coletivo e olhei para a cara do cobrador. Ele estava conversando com um cara sinistro. Não tive coragem de sacar a arma. E se o camarada estivesse armado? E se eu fosse obrigado a disparar a minha arma? E se eu caísse morto? Sairia na primeira página do jornal: “Morreu o bandido que nunca roubou.“

- Posso dar um vôo, por debaixo da roleta?- O cobrador consentiu. Puxa, que momento estressante!

Desci, logo em seguida, uns oito pontos depois. Percebi que seria muito mais difícil do que havia imaginado.

Tentei o ato por três noites seguidas e nada. Entrava e saia dos raros ônibus que rodavam durante a madrugada, os chamados “serenos”, tentando criar coragem de tomar algo valioso de alguém.  

Foi aí que percebi que não havia nascido para a vida fácil. Precisava voltar a trabalhar, o mais rápido possível.

 Fiz, então, as pazes com as donas do trailer e voltei a trabalhar no turno da noite.


Gênio

Por Alexandre Mendes

Eu inventei o coçador de costas. Um dos maiores inventos após a descoberta do fogo.
Morri. Ninguém deu bola.

Memórias de um operário XIV

Por: Alexandre Mendes
  
Quando completei quinze anos, minha mãe conseguiu arrumar um emprego para mim, em uma concessionária.  O cargo era de Auxiliar de Oficina.

O trabalho consistia no transporte das peças de automóveis, do estoque para os setores de oficina, lanternagem e pintura. Adélio era o vendedor interno, isto é, aquele que requisita a peça para o conserto do automóvel, em uma Ordem de Serviço. Ele era o encarregado do meu serviço. Requisitava as peças, enquanto eu as transportava. 

Aprendi com o tempo o serviço de vendedor interno, mas confesso que decorar a numeração das peças, que não param de ser inventadas, é bem difícil.

Fato curioso era o ritual de iniciação que os mecânicos, pintores e lanterneiros do estabelecimento impunham aos novatos. 

Jorjão, o chefe da lanternagem (que ficava no quarto andar) havia me pedido que buscasse no estoque (Primeiro andar), uma chave de desempenar “para-brisa”. E lá fui eu, pedir a tal chave no estoque. O estoquista riu e me deu uma caixa enorme com um cabeçote de motor, amarrado em um carrinho de duas rodas.  Sai puxando aquela peça enorme pela rampa, até o quarto andar, sem saber que estavam me sacaneando.

Quando cheguei lá, Jorjão disse que aquela era a chave errada. Desci, então, com aquele peso, feito um babaca. Esse tipo de sacanagem era comum naquele serviço. Colocávamos bigode de pasta de dente, em quem descansava do almoço e água de bateria nos assentos da oficina. Quando o camarada sentia a ardência na bunda, a calça já estava furada.

Áreas de trabalho espaçosas e com grande contingente de empregados, como canteiros de obra e oficinas daquele porte, lembram uma cadeia. Não podia esquecer nada fora do armário, senão sumia.

De vez em quando auxiliava os mecânicos e acabei aprendendo a fazer as primeiras revisões dos carros (Troca de filtro de óleo, de filtro de ar etc.).

Foi também, com os mesmos mecânicos que aprendi a beber cachaça no boteco, durante a hora do almoço...

Fiquei naquele batente, por um ano e dois meses. Aos dezesseis anos, fui mandado embora do tal serviço. Foi aí, então, que minha mãe me arrumou outro serviço, como Auxiliar de Estoquista, em uma concessionária de automóveis, em São Gonçalo.



Terra

Por: Alexandre Mendes

  Um passo para frente. Dois passos para trás. Posicionou-se de cócoras, olhando o chão. Parecia hipnotizado.
   Lembrou-se de fórmulas antigas e de segredos esquecidos em sua mente. "A novidade!"- Pensou.
   Prendeu a respiração e deu um salto, comprimindo todos os músculos inferiores do seu frágil corpo. Ergueu a mão esquerda para o alto, tentando alcançar as estrelas, no ápice do esforço físico. "Eu sou a natureza!"-Gritou.
   Enquanto isso, uma nuvem de fumaça tomou o céu e o ar. O sol se escondeu e a noite veio repentinamente.
   Olhei para a direção dele, mas não o vi. Ele havia se transformado em uma árvore gigante...


Condecoração de honra

Por: Alexandre Mendes


E lá está ele
Olhos esbugalhados e boca aberta
Sete medalhas no peito
De bom menino a mau sujeito
Soldado, ele se fez
Lá está ele, imóvel como pedra
Sua família chora a merda
chora de emoção, chora baixinho
Sete medalhas por bravura
O sangue seco, a alma dura...
Ainda me lembro dele, pequenino
jogando bola no campinho
O seu sorriso banguela
se foi com a penugem do peito
Anteontem era zagueiro
Ontem, era  mau sujeito
E hoje, apenas estatística
(reconhecido na quarta,
enterrado na quinta)
Amém!
E lá está ele
Olhos esbugalhados e boca aberta:
Sete medalhas no peito
Condecoração de honra
De menino sorridente
a bravo soldado 
Sua família chora de emoção 
chora de tristeza, chora baixinho
Frente à situação
Mais um soldado caído
Antes, moleque desnutrido
jogando bola no campinho
Lembro-me muito bem disso
O sorriso desfez-se 
E a marra tomou conta
Jogava muito bem na ponta
Agora é só mais um na conta
Mais um na estatística
Mais um que foi na onda...
(Reconhecido e enterrado,
Descanse em paz, bravo soldado!)
Amém!

Alexandre Mendes II

- http://molholivre.blogspot.com.br/2017/04/alexandre-mendes-12032017-17042017.html
- https://organizacaopopular.wordpress.com/2017/04/22/um-guerreiro-a-menos-adeus-a-alexandre-mendes-1977-2017/
- http://molholivre.blogspot.com.br/2011/04/alexandre-mendes.html
- http://fetozine.blogspot.com.br/2011/07/alexandre-mendes.html
- https://peresteca.blogspot.com.br/
- https://mondelingegeskiedenis.blogspot.com.br/
- http://impressodascomunidades.blogspot.com.br/

sábado, 22 de abril de 2017

ALEXANDRE MENDES

Esta semana um dos grandes mestres participantes do Coletivo Zine nos deixou: ALEXANDRE MENDES. Participante ativo desde a primeira edição do CZ, Alexandre deixou um grande legado. Participações em diversos projetos e publicações independentes. Além de artista, um exemplo de caráter e personalidade, foi desde camelô até professor.
Recentemente, mantia e escrevia no blog Protidis: https://procurandotitulodisponivel.blogspot.com.br/ . Uma boa amostra de seu trabalho pode ser conferida no seu blog anterior Peresteca: https://peresteca.blogspot.com.br/ .
O último fanzine que recebi dele foi uma obra conjunta feita com os filhos, mostrando que a semente da continuidade artística foi bem plantada: http://partesforadotodo.blogspot.com.br/2015/09/alexandre-mendes-e-proxima-geracao.html .
O Coletivo Zine fará uma série de posts, mantendo vivo o legado desse grande artista.

sábado, 4 de março de 2017

um gole no copo do desgosto

Por Fabio da Silva Barbosa
 .
quando a depressão bate fundo
a angustia tempera a tormenta
e a droga acabou
só nos resta estes cortes profundos
fazendo o sangue vazar dos pulsos
acompanhando as lágrimas
que escorrem dos olhos
os punhos esfolados
um rosto que já não é rosto
ninguém ao seu lado
a corda apertando o pescoço
morrer não seria esforço
um corpo denegrido pela vida
vendendo sua miséria
por trocados furados
um litro de álcool
já é pouco para fazer o sono chegar
feridas e hematomas
por toda a parte
perfurando cada parte de seu corpo
cicatrizes e marcas
deformações constantes
se arrastando por toda a vida
infecção se alastrando
a dor do aborto vivo
o inferno eterno
derretendo como colostro bestial
como seres mundanos
besuntados de febre
e delírios fúnebres