O COLETIVO ZINE É UMA AÇÃO CONJUNTA. A PROPOSTA É REUNIR DIVERSOS FANZINEIROS OU CRIADORES INDEPENDENTES E PRODUZIR UM TRABALHO COLETIVO. CADA PARTICIPANTE CONTRIBUI DA FORMA COMO PUDER, SEJA NA CRIAÇÃO, MONTAGEM, EDIÇÃO, ADMINISTRAÇÃO, DIVULGAÇÃO, DISTRIBUIÇÃO. O IMPORTANTE É SOMAR ESFORÇOS. E ASSIM MULTIPLICAR A DIVULGAÇÃO DO TRABALHO DE CADA AUTOR E DIVIDIR O TRABALHO. SE DER CERTO,CONSEGUIREMOS CHEGAR A NOVOS LEITORES QUE JAMAIS CONHECERIAM NOSSO MATERIAL SE O PROMOVÊSSEMOS ISOLADAMENTE. E NA PIOR DAS HIPÓTESES, AO MENOS TEREMOS UMA DESCULPA PARA INSANAS FESTAS DE CONFRATERNIZAÇÃO E LANÇAMENTO DE ZINES. ENTÃO, MÃOS À OBRA. MISTURE-SE.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Marcada

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
E as pessoas corriam gritando.
- Pega! Bate! Mata! Ladra! Vagabunda!
E ela corria como nunca. Mas eram muitas pernas a lhe perseguir. Muitas vozes. Cada vez se multiplicavam mais. Seus pés falharam no momento em que a pedra atingiu sua cabeça. O chão se fez próximo. Os perseguidores a cercaram. As vozes aumentaram.
- Segura! Bate! Agora vai ver! Mata! Agora vai aprender! Vagabunda!
Os golpes vinham de toda parte. Tentou lembrar-se da mãe que morrera na prisão, do pai que nunca conhecera. Eram lembranças que nunca existiram. Não tinha de onde tirar. Tentou se levantar, se arrastar. Tentou pensar em um lugar onde já se sentira segura. O cérebro falhava. Todo esforço era inútil. Lembrou os tempos de rua, das meninas da gangue. Lembrou os tempos de abrigada, dos monitores e educadores carrancudos. Lembrou dos poucos que tentaram entender e ela mandou tomar no cu. Era impossível aceitar que quisessem oferecer ajuda. Isso beirava o inacreditável naqueles tempos sombrios. Tempos que sempre foram assim e são até o momento.
- Não deixa fugir! Bate! Segura! Vai aprender! Vai ver!
O cérebro falhando cada vez mais. A vista escurecendo. O sangue cobrindo o corpo. O sangue cobrindo a terra. A fúria descendo sobre o cadáver que já não respondia aos golpes. O cadáver que já nascera morto. A morta que já nascera morta.  

Marionetes do consumo

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
comprou comprou comprou
fez prestação
parcelas pra pagar
no carnê e no cartão
 .
compre compre compre
não precisa nem pensar
quando chega o fim do mês
fome vai passar
 .
gaste gaste gaste
o negócio é possuir
não ser você mesmo
nem precisa existir

O Jornalista

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
Todo dia era a mesma coisa. A reunião de pauta decidia sobre o que ia escrever e a linha editorial determinava como ia escrever. O mundo desabando e mandaram cobrir aquele lançamento de cosméticos. Como se sentia idiota. Mas os parentes gostavam. Comparavam o jornal só para mostrar a assinatura dele na matéria da capa. Acreditavam mesmo que ele escrevia. Escrevia, mas escrevia o que os outros queriam. Pior que o lançamento de cosméticos foi a entrevista com o novo Secretário de Direitos Humanos da cidade. Um policial corrupto e assassino que se juntou com fanáticos religiosos e setores da extrema direita para conseguir o cargo.
- Eu sempre quis fazer uma campanha do agasalho em grande escala – Dizia ele. –Queria ver toda essa gente, tão sofrida que vive nas ruas, sem sentir frio.
O que reservariam hoje para o seu dia. Cobertura sobre a venda de ovo de chocolate na Páscoa,entrevista com o Secretário de Educação (dono de uma rede de escolas privadas)… Chegou à redação e logo descobriu a pauta a ser coberta.
- É uma rua na Região Oceânica. Tem um amigo que mora lá e disse que uma pedra maldita atrapalha todo o fluxo de carros. Ele já pediu para tirarem aquilo de lá, mas ninguém toma providência.
Pegou os dados impressos no papel que lhe era mostrado, entrou no carro da redação e foi para o local indicado. O fotógrafo e o motorista conversavam animados. O calor era infernal. Chegando a tal rua, viu logo a enorme pedra natural do lugar. A rua foi aberta e casas bonitas (de quem tem dinheiro) foram construídas por ali. No ponto onde estava a grande pedra, a rua ficava um pouco mais estreita. Desceram todos do carro. Ao caminhar mais para o final da rua, viu que as casas iam ficando mais humildes. Devia ser a população nativa, que começou a povoar o local antes mesmo de ter rua.
Viu uma senhora se aproximar caminhando. Perguntou sobre a pedra. A senhora disse que ela sempre esteve ali e até deu o nome da rua (Rua da Pedra). Conforme conversava com os passantes, ia anotando no bloquinho.
- Acho até bom essa pedra. Depois que esse pessoal que tem carro veio para cá, as crianças nem podem mais brincar na rua. Assim eles diminuem a velocidade.
- Essa pedra é muito bonita. É uma beleza natural que deve ser preservada.
- Ela é tradicional do lugar.
- Para mim não incomoda em nada.
- Essa pedra tem história. Quem mora aqui mais tempo sabe.
Chegou à redação e fez a matéria. “Pedra é patrimônio de rua na Região Oceânica”. Foi satisfeito para casa. Dessa vez tinha valido a pena. O telefone tocou.
- Que merda de matéria é essa que você fez? Nunca mais entregue algo e vá embora antes de revisarmos. Tivemos de reescrever tudo em cima da hora.
No dia seguinte foi até a banca e leu na capa: “Pedra causa transtorno em rua da Região Oceânica”. Voltou para casa. Algumas horas depois ligaram da redação querendo saber se não iria trabalhar.
- Procurem outro. Nunca mais piso nesse lugar. Deve ter uma fila de gente querendo ver o nome assinando as matérias desse grande jornal. Tô fora.   

Para quando ela partir II

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
Encantadora,
agora só me restam as lembranças e a saudade
seu jeito rebelde e insano
inocente amiga da vida louca
depravadamente inocente
ou inocentemente depravada
?
sempre tudo por acaso
e o acaso contribuindo
para o fluir insano dessa vida
vida ferida
vida bandida
total
marginal
forças da natureza se chocando ao acaso
tentando sobreviver
sem se curvar
é preciso liberdade
é preciso ar
fazendo o que deve ser feito
pedaços desencontrados
lançados ao azar
criatura alada
que impedem de voar
olho para os céus
tentando te encontrar
querem te abater
querem te parar
querem adestrar
as palmas não vão contentar
é preciso mais
é preciso muito mais
sempre
e o que há de mais não cabe nos bolsos
não se pode carregar
criatura sagrada
abençoa ao amaldiçoar
criatura bizarra
tenha força
tente suportar  

Para quando ela partir

Por Fabio da Silva Barbosa

.
era uma criançabebêidosajovem
meninamenino
negraíndiabrancaorientalcafusamamelucacaboclaocidentalemais
beleza sem igual
quando perguntavam sua raça
respondia entre o deboche e a seriedade
vira-latas
meiga como poucas e raras
mesmo quando a revolta explodia de seu peito
a raiva pela boca
ainda assim um ódio encantador
autêntico
a beleza nunca a abandonava
seu choro enchia o ambiente de tristeza
um som aterrador
seu sorriso magnífico
enchia tudo de luz
sua presença
o inferno para uns
e a alegria para outros
passou na minha vida
e sumiu no horizonte
foi rumo a incerteza
com aqueles olhos
que expressavam todos os sentimentos
que sentia no momento
com aquela face
que expelia o que sentia
espero um dia te reencontrar
nesse turbilhão louco
chamado vida

caindo

Por Fabio da Silva Barbosa

.
muitos anos de uso
drogas lícitas e ilícitas
o cérebro morrendo
o corpo morrendo
insiste em continuar a viver enquanto puder
mesmo querendo que tudo acabe logo
brumas tapando a visão
bombardeio químico
não consegue mais pensar
tá difícil andar
respirar
depressão profunda
dominado por angústias
desintegrando pouco a pouco
invisível
o buraco vai crescendo
a escuridão vencendo
agora já não faz mais diferença
viver ou morrer
matar ou morrer
grunhir e gemer

Para a galera que curte uma escrita torta, pode encontrar meus trampos aqui ó:


FSB
- Quem perdeu algum número do zine Reboco Caído e não sabe onde encontrar, temos a versão digital de quase todos aquihttp://www.rebococaidozine.blogspot.com.br/ . A impressa ainda tem os últimos números e tá para sair um novo a qualquer momento. Pode ser pedido pelo e-mail e-mail fsb1975@yahoo.com.br ou pela caixa postal 21819, Porto Alegre/RS – cep.: 90050-970
- Reboco Caído – Reflexos e Reflexões
Livro impresso lançado em 2014 pela Coisa Edições, de Porto Alegre. A editora ainda tem no estoque e é só pedir pelo facebookwww.facebook.com/CoisaEdicoes ou pelo e-mail coisaedicoes@gmail.com
- Escritos Malditos de uma Realidade Insana
E-book lançado pela Editora Lamparina Luminosa, de São Paulo, em 2013. Download gratuito no site da editora www.lamparinaluminosa.com.
- UM ANO DE BERRO – 365 dias de fúria
Lançado em 2010 pela Editora Independente, de Brasília. Registro do primeiro ano de existência do zine O Berro. Nesse livro o autor divide as páginas com os amigos Winter Bastos e Alexandre Mendes, que construíram essa iniciativa junto com Fabio da Silva Barbosa, além de diversos colaboradores. A versão impressa está esgotada, mas existe a versão digital do rascunho nopt.slideshare.net/ARITANA.
- PDFs organizados pelo autor e lançados de maneira livre pela internet a fora
. Quem somos nós? - Conversa fiada e papo de botequimhttp://pt.slideshare.net/ARITANA/quem-somos-ns-12314856
. Quem somos nós? - Volume II http://pt.slideshare.net/ARITANA/quem-somos-ns-volume-2
. A saga do jornalismo livre http://pt.slideshare.net/…/a-saga-do-jornalismo-livre-2-ver…
. Parceria http://pt.slideshare.net/ARITANA/parceria-15777705

O Carro da Linguiça

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
Não ouvi quando chegaram, mas acordei com um forte barulho. Abri os olhos e continuei deitada. Gritos desesperados começaram a competir com vozes duras.
- Pelo amor de…
- Solta ele.
- Que isso?
- Ele é trabalhador.
- Para.
- Socorro…
- Não faz isso.
- Ele é trabalhador.
- Todo mundo pra trás! Ó o escândalo.  
- Quietinho! Quietinho!
- Não adianta! Perdeu!
Levantei rápido da cama e fui cuidadosamente até a janela que estava aberta. Fiquei de cantinho, escondida pela escuridão do barraco. Avistei o carro branco, sem janelas, parado. Aquele carro era a verdadeira assombração do morro. Não tinha lobisomem, vampiro, alma penada… Aquele carro era o terror. Quem entrava nele, nunca mais era visto.
- Fica quieto, rapaz! Fazer barulho é pior.
- Segura sua mulher aí, se não vai sobrar pra todo mundo. Tamo  tentando ser legal.
Ouvi choros desesperados. Passei por baixo da janela e me escondi no outro canto, buscando uma visão melhor do acontecimento. Tive de ficar mais afastada para fugir da luz que vinha da rua. Eram cinco homens armados. Um deles segurava o filho de Dona Zizinha pelo pescoço com um braço e com a outra mão apontava a arma para a cabeça dele. Os outros quatro apontavam as armas para a família parada na porta de casa. Dona Zizinha sempre morou ali, na frente da minha casa. Bem que achei que alguma das vozes parecia a dela, mas não queria acreditar.
- Mamãe, que barulho é esse?
Meu filho mais velho ameaçou levantar. Fiz sinal de silêncio e gritei baixinho, quase não deixando sair o som.
- Fica aí. Não se mexe.
Ele voltou a se embolar com os dois irmãos na cama de casal que dividíamos desde que o pai deles sumiu no mundo.
Me espremi contra a parede e voltei a olhar para fora. Um dos homens já não pontava a arma para Dona Zizinha, o marido e as 4 filhas. Circulava pela rua olhando para os lados. Olhava principalmente para minha janela. Será que me ouviu falando com o guri? Será que ia me ver? Me abaixei. Ouvi meu filho prendendo o choro. Outro já se mexia na cama, ameaçando acordar. Fiz novo sinal de silêncio. O barulho de choro aumentou na rua e pude ouvir Dona Zizinha gritando:
- Não, não, não… Não faz isso com ele…
Levantei só até a altura necessária e vi o homem que segurava o filho dela ainda empunhando a arma e arrastando o rapaz na direção do carro. Ele já não lutava mais. Abaixei de novo e engatinhei até a cama. Subi nela e me abracei com as crianças que, nesse ponto, já estavam todas acordadas. Ficamos bem quietinhos, ouvindo o desespero da família vizinha. Não havia nada que pudéssemos fazer. Ouvimos o carro indo embora. Ainda por algum tempo, choros e lamentos pela rua. Alvinho nunca mais foi visto.      

Sentimental

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
acordei de um sonho lindo
onde você
perfeita como sempre
mesmo em suas imperfeições
presenteava-me com sua presença
mas logo acordei
desesperado por sua ausência
que provavelmente se estenderá ao sempre
 .
vaguei pela casa
a procura de cigarro
vagando pelos cômodos
sem vontade suficiente
para acender a maldita luz
 .
é até difícil entender
é até difícil explicar
 queria o sonho para sempre
mas o problema é que tudo tem a hora certa
se passar vira pesadelo
.
não é questão de posse
nem de querer possuir
é apenas querer por mais tempo
algo puro e verdadeiro
 .
fiquei tão sentimental
que já me sinto idiota
mas não era para ser idiotice
sentir, expor, dividir
algo tão bonito e positivo
.
tentarei voltar a dormir
mas nunca te esquecerei

Não adianta nos evitar

Por Fabio da Silva Barbosa

.
Cão sinistro
quem é você?
Sou o nervo distendido
a ferida purulenta
o músculo infeccionado
a perna necrosada
 .
Cão sarnento
quem é você?
Sou o podre
o resto
o azedo
o que você não quer ver
 .
Cão moribundo
quem é você?
Sou o que você tentou jogar sob o tapete
o que vai durar mais que gostaria
o que foi lançado a margem
a própria indigência
 . 
Cão sinistro
da madrugada
do pelo preto
da pele cortada
 .
Cão sinistro
da madrugada
do pelo preto
da pele rasgada

Precisamos resistir

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
estrutura falida
sustentando uma sociedade decadente
moral indecente
instituições hipócritas
 .
querem você dizendo amém
querem você dizendo sim senhor
 .
violência física e psicológica
procuram manter tudo como está
repressão e mentira
realidade distorcida
 .
querem você escravizado
querem você alienado
 .
apenas rotina
repetição e enganação
cérebros controlados
seres mutilados
 .
querem você sem autonomia
querem você sem disposição

Os verdadeiros ladrões

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
roubam sua coragem
roubam sua vida
roubam sua história
roubam sua vontade
 .
distorcem sua memória
cegam suas vistas
calam sua vós
amarram seus membros
 .
apagam o seu eu
registram quem nasceu
desestimulam a criatividade
falam em normalidade

Tá barato

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
Tô aqui pagando o preço
por não fazer parte
por não concordar
não compactuar
não aceitar
não me satisfazer com o que é imposto
com as opções empurradas goela abaixo
 .
Tô aqui pagando o preço
por me unir aos da margem
por compreender os que não se encaixam
por concordar com os que discordam
por preferir sentir as fomes dos meus irmãos
que participar dos sórdidos banquetes
oferecidos aos que nos matam
 .
Tô aqui pagando o preço
por ver o mundo com os olhos dos que estão atrás das grades
vendo o Sol se por
entre a tortura e o fedor
com os olhos dos que não se enquadram
dos que lutam por mais
que apenas isso
 .
Tô aqui pagando o preço
mas quando vejo o que teria de fazer
para não pagar esse preço
avalio que tá barato
o preço de viver na ilusão
na mentira, sobre o cadáver alheio, na alienação
é muito mais caro

Selvagem?

Por Fabio da Silva Barbosa

.
uns seres lindos
selvagens
sem os vícios
das maldades civilizadas
sem a contaminação
dos ditos evoluídos
 .
se moviam
no escuro da noite
como felinos(as)
eram únicos
no meio da multidão
rumo a lugar nenhum
 .
suas existências
incomodavam
aos acomodados
que
gratuitamente
os exterminaram

Polenta

Por Fabio da Silva Barbosa

.
Polenta era um cara tranquilo. Não gostava de se incomodar. Dizia que religião e política não se discutem. “Isso sempre acaba em problema e problema não é comigo”.
Mesmo querendo, não conseguiu aprender muita coisa no colégio. Arranjou um trabalhinho qualquer que fosse pagar o feijão com arroz dos filhos e da companheira. “E vamos levantar as mãos para o céu. Tem gente que não tem nem isso”.
Sempre dava bom dia, boa tarde e boa noite. Falava com todos e evitava discordar. Quando havia manifestação que buscasse alguma melhoria local, procurava não se envolver. “Isso não adianta nada. Esse pessoal gosta é de confusão.”
Um dia foi mandado embora sem explicarem o motivo. Tentou conversar, mas não conseguiu argumentar. Procurou emprego, mas estava difícil. Começou a fazer uma coisinha aqui e outra ali. “Deus vai nos ajudar. Sempre agimos direito. Não pode ser assim”
Certo dia teve uma ideia. Iria pedir para a companheira fazer umas comidinhas gostosas. Venderia pelo Centro. Montaria uma barraquinha. “Vou procurar o Fulano. Votamos nele e nunca fomos incomodar. Ele é boa gente e vai entender. Conseguiremos uma licença. Ele disse que precisando era só aparecer e que não esqueceria dos amigos”.
Foi algumas vezes ao gabinete. Sempre uma fila de gente esperando para falar. O eleito em reunião. Passou pelo Centro e viu um bom lugar. Não podia continuar esperando. “Enquanto tento falar com ele, vamos fazendo a freguesia. Logo consigo conversar e ele ajuda”.
A empreitada foi um sucesso. Polenta vendia os comes e bebes, o dinheiro entrava e os clientes gostavam”
Continuou passando no gabinete. Conseguiu falar com Fulano que sorridente apertou sua mão e prometeu. “Pode contar comigo. Dê só o tempo das coisas andarem. Enquanto isso vai vendendo sua comidinha por lá”
Polenta ficou eufórico. Não podia se conter. “Eu disse que tudo ia melhorar”.
Mas um dia a fiscalização apareceu. Polenta tentou conversar. Tomaram tudo que tinha, seu ganha pão, e nem quiseram escutar. “Mas o doutor Fulano tá vendo a licença pra mim trabalhar.”
Empurrão, grosserias e a promessa de que seria preso se continuasse a falar. Polenta subiu o morro triste, desanimado. No meio do caminho se deparou com uma operação policial. A troca de tiro ecoava por todo o lugar. “Ninguém entra e ninguém sai. Vai ter de esperar os vagabundos caírem”.  
Polenta preocupado com a família no meio do tiroteio. De repente viu uma mulher descendo a estradinha. Parecia... Não podia ser... E o que era aquilo que ela trazia no colo? Polenta ficou sem palavras ao ver de mais perto o bracinho pendurado, o sangue escorrendo... Nunca mais foi o mesmo. Daquele momento em diante mudou o olhar.  

andando

Por Fabio da Silva Barbosa

 .
andando pela cidade suja
leio a poesia torta dos bêbados
aprecio o balé louco dos viciados
vejo atos finais dos destrutivos
saboreio o gosto da poluição
 .
andando pela cidade suja
não importa a hora
não importa o momento
ninguém se importa
com ninguém
 .
andando pela cidade suja
leio contos libertinos
aprecio esculturas em grades de presídios
vejo muitos cegos, surdos e loucos
saboreio o gosto da peste
 .
andando pela cidade suja
degustar o sabor da derrota
é apenas viver mais um dia
sambando nessa avenida
entre lixos e restos
 .
andando pela cidade suja
leio versos de quem já não consegue amar
aprecio a dança frenética dos ansiosos
vejo histórias em mesas e balcões
saboreio azedo paladar
 .
andando pela cidade suja
olho nos olhos da morte
em cada esquina que dobro
em cada rua que passo
em cada passo que dou